Mossoró-RN, de 2005
MENU
:: CABY
:: EMERY COSTA
:: SÉRGIO OLIVEIRA
:: ENTREVISTAS
:: GRAMÁTICA
:: ARTIGOS
:: MEDICINA
:: MULHER
:: MOSSOROENSES-OUT
:: CELEBRIDADES
:: CURIOSIDADES
:: O MANCHA
:: PRESEPADAS
:: PAISAGENS
:: PIADAS
:: LIÇÕES
:: MOSSORÓ MEU XODÓ
:: DO BUMBA
:: DA ÉPOCA
:: ANTIGAMENTE
:: OLHOVIVO
:: BONITAS & BELAS
:: O DESABONITADO
:: IDENTIDADE
:: NOTÍCIAS
:: ESPORTE
:: CAMARADINHA

 

contador, formmail cgi, recursos de e-mail gratis para web site

Tony Silva

Salve, salve leitor/internauta do azougue.com. A página Mulher traz para você uma entrevista muito bacana com Maria Lúcia da Silva, mais conhecida como Tony Silva, atriz mossoroense que encanta a nossa cidade e o nosso país com seus bons trabalhos. Numa conversa agradabilíssima ela nos contou como é a vida de artista em Mossoró, um pouco da sua vida pessoal e muito mais. Confira então Tony Silva na página Mulher.

AZOUGUE: Quem é Tony Silva?

TONY SILVA: ‘Vixe’ é tão difícil dizer. Eu tento ser um ser humano e tento contribuir com a minha cidade dessa forma, a forma que escolhi foi o teatro. Trabalho na área social na FUNDAC (Fundação Estadual da Criança e do Adolescente) e trabalho no teatro muito mais.

AZOUGUE: E em qual cidade você nasceu, quando e qual é o seu nome completo?

TS: Vou começar pelo meu nome que é a primeira vez que me perguntam numa entrevista. Meu nome é Antonia Lúcia da Silva, que significa Não Tem Luz da Silva (risos), pois o Antonia é sempre o antônimo de não ter alguma coisa, Lúcia é luz então Não Tem Luz da Silva. Nasci em Mossoró, em 14/11/1959, tenho apenas 47 anos de idade e 25 de teatro.

AZOUGUE: Por que Tony? Quem colocou esse nome em você? Ou foi você que arranjou artisticamente?

TS: Eu estudava no Estadual (Escola Estadual Professor Jerônimo Rosado) fazia o primário ou colegial, não lembro bem. Eu tinha um professor chamado Rosado e ele dava aula de educação física e eu fazia a maior brincadeira nas aulas dele, imitando o ator Tony Tornado que na época estava no auge e eu dançava igual a ele. Daí meu professor começou a me chamar de Tony e isso não foi eu que induzi, naturalmente a cidade foi me conhecendo como Tony Silva. Dia desses, eu estava lendo na revista Papangu um rapaz falando que só mesmo em Mossoró tem uma mulher com o nome de Tony. Isso é preconceito. Tony é um nome tanto masculino como feminino. Eu adoro esse nome porque Tony é metade do meu nome Antonia.

AZOUGUE: Como foi sua infância?

TS: Como a de todo pobre, correndo no meio da rua, brincando com homens e mulheres, brincando de tique, sou dessa época, das brincadeiras de roda, amores platônicos. Meu pai era marceneiro, minha mãe costureira, os dois trabalhavam para poder nos dar estudo. Somos cinco filhos, dois homens e três mulheres. As mulheres conseguiram chegar à faculdade e eu fiz a errada, fiz faculdade de Educação Física porque jogava handebol. Isso aconteceu porque eu sempre fui desorientada (doidinha), fiz também Técnica de Engenharia Agrícola, na antiga Esam (hoje UFERSA – Universidade Federal Rural do Semi-Árido). Acho que eu fui a única professora de educação física que consegui passar nas matérias teóricas sem saber das práticas. Eu sou péssima nadadora. Arrependo-me muito de ter feito essa faculdade e se hoje eu fosse fazer uma faculdade faria para Artes Cênicas com certeza. Depois de velha não tem mais como você não definir as coisas.

AZOUGUE: Sua adolescência foi conseqüência da infância ou já foi diferente?

TS: Foi diferente, porque as coisas vão mudando. Eu tive o prazer de viver todas as etapas. Fui criança, pré-adolescente, não pulei nenhuma delas, passei por todas até me tornar essa moleca que sou hoje.

AZOUGUE: Mas, não parece que você tem 47 anos...

TS: Não. Ah! Obrigada. Sabe o que é formol (risos). Brincadeira. A receita é beber muita água, viva em Mossoró.

AZOUGUE: De onde veio a vontade de ser atriz, trabalhar com o imaginário das pessoas?

TS: Na verdade eu não tive a vontade. Eu sempre fui muito curiosa, na época estudava com Aécio Cândido e Crispiniano Neto e eles falaram para mim que iam escrever uma peça chamada Circo, a Alegria do Povo e eu iria participar. Aí eu disse: Certo eu vou! Nesse período eu estava terminando a faculdade e tive que viajar no projeto Rondon, passei 40 dias fora e já tinha o texto mais ou menos montado na cabeça. Quando eu cheguei, eles disseram que íamos estrear, aí foi que me deu medo, uma ansiedade, um medo de desistir e de não desistir. Sei que na hora H, Aécio deu um empurrãozinho e dele nunca mais saí. Durante esses 25 anos nunca mais deixei de pisar no palco, sou viciada nessa história.

AZOUGUE: Você se considera perfeccionista?

TS: Não. Na minha vida normalmente eu não sou, mas com as minhas personagens sou até demais, se eu não acreditar no personagem não farei com que o público acredite. Tenho que vivê-lo com a maior intensidade da minha vida. Durante o dia-a-dia eu sou completamente estabanada, desorientada. Meus personagens me trazem uma certa preocupação porque eu tenho que mostrar ao público o melhor, isso é que vale hoje às pessoas me chamarem de atriz que é uma palavra pesada, fico extremamente orgulhosa, pois dentro de Mossoró é a única que as pessoas chamam de atriz. Passei 10 anos para poder deixar alguém me chamar de atriz.

AZOUGUE: Quanto tempo você leva para incorporar uma personagem e se desvincular dela?

TS: Cada uma tem um processo. Quando um diretor me dá uma personagem eu como, durmo, ando, penso, falo, fico doente para poder achar o feeling (‘sentido’) da personagem, embora a gente nunca aprimore a personagem. A gente trabalha nela e não está bom, trabalha mais um pouco e não está bom, é uma coisa que nunca chega ao fim. Para me desvincular da personagem é outro processo, por exemplo, faço uma lavadeira na peça. A Viagem do Barquinho eu entro e saio sorrindo, já em Medeia tenho vontade de ficar escondida uns dez minutos antes e depois da peça para poder voltar ao normal, pois sou completamente tomada pela personagem. Quando é dia de apresentação tenho que chegar ao local umas quatro horas antes para que eu fique calma por que não consigo fazer as outras coisas normalmente. É um sofrimento pra mim quando elas chegam e quando elas vão embora. É por isso que eu não tenho o juízo muito certo (risos).

AZOUGUE: Por tudo isso as pessoas lhe consideram uma das melhores atrizes da cidade e você, o que nos diz?

TS: Considero-me aprendiz. Você nunca é bom, sempre está em aprimoramento, crescimento. Neste tempo que trabalho como atriz, fiz personagens que as pessoas reconheceram e por isso me denominam dessa forma, mas eu preciso aprender mais, muito mais.

AZOUGUE: Qual foi a sensação do primeiro trabalho? Você mesmo nervosa, com medo, se sentiu capaz? Você disse: eu vou fazer porque eu posso?

TS: O ser humano é atrevido, não é? Você sabe que tá no ponto, mas como já disse nunca está bom. A primeira sensação foi de brincadeira. Dez anos depois foi que vim notar que teatro é a brincadeira mais séria do mundo. Antes eu brincava de interpretar e as pessoas brincavam de viver aquela personagem, depois que notei que isso é sério e passei a lidar melhor com os sentimentos humanos foi que passei a levar muito a sério. Antes sentia vazio, hoje é diferente.

AZOUGUE: Tony Silva prefere trabalhar no lar ou no palco?

TS: No palco, claro! No lar não tem novidade. Admiro demais as donas-de-casa, as meninas que ajudam. Veja bem: você está lavando uma xícara, enxuga, guarda, aí vem uma outra pessoa e suja e você tem que fazer tudo de novo. Tem que ter muita paciência e não tenho esse esmero todo.

AZOUGUE: Nunca quis ser mãe?

TS: Sou mãe das minhas personagens, dos meus sobrinhos, mas sou meio abusada, não tenho muito punho. Conto piada para meus sobrinhos e também mando parar quando acho necessário. Com a família geralmente temos outra personagem do que com as outras pessoas. Nunca quis ser mãe porque acho que é querer se perpetuar demais, ser muito mais eterno. Não seria uma boa mãe, seria muito relaxada. Nunca tive esse sonho. Comigo não funciona essa coisa de ser eterno. Somente o que vai ser eterno de mim são as marcas que eu vou deixar.

AZOUGUE: Como mulher, qual a vaidade, a frescurinha que você tem?

TS: Valha... Frescurinha? Não sei, acho que eu sou bissexual (risos). Mas eu gosto de roupa, é a única coisa que eu digo não quero essa roupa hoje, vou vestir aquela outra. Pano faz isso comigo.

AZOUGUE: Foi divulgado que você iria passar uma temporada no sudeste do país para se aperfeiçoar. Conte se aconteceu ou não.

TS: Divulgam muita coisa da minha vida, às vezes coisa que eu nem sei se vai acontecer. Disseram que eu ia para a Globo, só se for para Globo Rural. Mas a história de ir para o sudeste foi verdadeira, Gabriel (foi uns dos diretores do Auto da Liberdade) me convidou. Mas tenho em mim uma coisa que diz que se é para eu ir para a terra dos outros batalhar como um cão feroz, matando um leão por dia, faço isso na minha casa. Agora se chegarem e me derem condições de vida lá para estudar, aprender, aí vou com o maior prazer. Caso contrário nunca vou sair de Mossoró e mesmo que venham convites não fixarei residência lá. Vou um tempo, faço o trabalho e volto para minha casa. A melhor coisa do mundo é o lar da gente o cheirinho do nosso pano, a gente vê a limpeza, a sujeirinha, as formigas, tudo, a gente conhece a cidade da gente. Sou apaixonada por Mossoró e sei que tenho uma parcela de contribuição para o desenvolvimento dessa cidade. Se precisarem do meu nome um dia para que a cidade cresça eu dou.

AZOUGUE: É justo Mossoró estar concorrendo ao título de Capital Brasileira da Cultura – 2007?

TS: É justo demais, minha filha. Enquanto outras cidades se destacam pela violência, Mossoró se destaca pelos sentimentos, pela cultura, pela arte. Nós estamos aqui para isso.

AZOUGUE: Mas você não acha que ainda falta muita coisa, subsídios para os artistas, por exemplo?

TS: Para que Mossoró ganhe esse título cada um de nós tem que se conscientizar do que é ser cidadão mossoroense. Porque se você fuma e joga uma coxia no esgoto, isso é questão de educação, é cultural isso. Aí quando chove, alaga a cidade inteira. Nós temos uma obrigação para com a cidade que a gente vive. Seja a menor contribuição, é necessário que a gente reconheça que não depende só de autoridades, mas de cada um de nós, que a gente se comprometa com essa cidade.

AZOUGUE: Você já sofreu preconceito por ser mulher, ou por ser negra, ou quando você tinha condições financeiras abaixo do que você tem hoje e qual foi a que mais lhe machucou?

TS: Sofro preconceito desde o dia em que nasci, da minha família mesmo. Minha mãe sempre diz, por exemplo, pra eu arrumar o cabelo por que se não eu vou assustar o povo na rua. Isso é uma forma de preconceito, mas são coisas da minha mãe, ela foi criada com isso. Mas a que mais me chocou foi quando estávamos numa turnê pelo Nordeste com o grupo Nocaute à Primeira Vista, com a peça Capitães de Areia e pegamos um ônibus aqui em Mossoró estávamos indo para Natal. Fomos conversando, contando piada e o senhor que ia dirigindo, já devia ter seus 60 anos, não estava muito bem, pelo menos acho que não. Ele parou o ônibus e todos estavam brincando, mas eu era a única negra e mulher, ele veio direto a mim e pôs o dedo em riste mandando eu me calar. Fiquei tão surpresa e tão sem reação que fui descendo na cadeira feito uma criança assustada, não sabia o que fazer naquela hora. Se eu não me calasse ele pararia o ônibus de novo e me colocaria para fora. Pegou todo mundo de surpresa. Organizei-me, após chorar bastante. Quando chegamos a Natal fui à gerência declarei a minha queixa, liguei para o gerente e quando eu estava conversando com ele o motorista veio até nós e disse as mesmas coisas... “Negrinha...” Ele só não disse que eu era santa, até porque eu ainda tenho que viver essa personagem (risos). Mas creio eu que ele perdeu o emprego por um ato banal, se dirigir a mim por umas 2 ou 3 vezes no ônibus. Fecho os olhos e vejo o dedo dele no meu nariz assim e eu parecendo um bicho acuado. Porém, a gente vai tirando de letra, porque na verdade o Brasil é um país preconceituoso. Você só não sofre preconceito se você tiver dinheiro, se não for branco. Quem diz que Pelé é negro? Que Ronaldinho é feio? Ninguém. Esse país é a união de três etnias diferentes e é o mais preconceituoso. MAS ESTOU AQUI PARA DIZER A ELES PARA CALAREM A BOCA (enfática).

AZOUGUE: Aqui em Mossoró, mesmo tendo toda essa admiração, sendo respeitada, já sofreu preconceito?

TS: Por parte dos próprios negros. Sério. De algumas pessoas ditas intelectuais que são tão cruéis quanto um analfabeto. Mas a gente vai dizendo para eles por onde é o caminho, de onde vem o cabelo dele, o nariz atarracado, o pé sem cava, o beiço grosso, a mão disforme porque ele é assim. Às vezes a gente diz as coisas brincando, mas às vezes dá uma revolta grande porque você olha para uma pessoa que é negra também e ela fica desfazendo de você. Gente, não é só a cor da pele que identifica a gente. Às vezes o camarada é branquinho e tem as suas características de um negro e é isso que faz a beleza desse país.

AZOUGUE: Como foi a seleção para o filme ‘Desencantos do Diabo’?

TS: Eu estava uns dois meses em Natal fazendo o teste para o filme “Desencantos do Diabo” com Moncho Rodrigues, um camarada europeu chamado Galego, e eu passei e fiz o filme que juntava pessoas de estados diferentes, eu de Mossoró, Beto de Natal, um menino de Fortaleza que eu não me lembro o nome, mas me falou: Tony estão fazendo uma audição pra um filme de Rosemberg Cariri e Gustavo, que eu acho o cara mais bacana dessa cidade dentro da área da arte, que é um cara que compreende a gente muito bem e eu tenho a felicidade de ser amiga dele, e ele me ajudou a fazer meu book, então eu mandei esse material pra Fortaleza e com uma semana Rosemberg manda me chamar, e esse personagem era pra Zezé Mota, não sei se eu fui escolhida porque era mais pertinho e iria sair mais barato, só sei que ele mandou me chamar e fiquei uma semana na cidade, ele me deu assistência e eu fiz o teste, eu, ele e o cameraman e foi uma coisa inédita na minha vida, pois o teste em Natal foi em conjunto, era muita gente e nesse eu fiz exatamente eu com Rosemberg, ele manda pra mim o roteiro do filme diz qual é o personagem que ele quer, eu memorizo, faço, mas eu tive a sensação que não iria passar, eu tenho aquele medo, todos os personagens que eu vou fazer eu tenho medo, mas com uma semana ele mandou dizer que a personagem era minha. Eu fui fazer o filme sem saber nada, é completamente diferente o set de filmagem da área de teatro, existe um exagero no teatro e o filme tem do natural ao naturalíssimo, essa personagem tem toda a energia, mas não pode passar exageradamente, como a gente faz no teatro pra ver a olho nu. E assim eu fui entrando, peguei companheiros maravilhosos que se chamam Dira Paz e Chico Dias que sabiam que eu não sabia nada de cinema, eles que já eram cobras criadas em filme, e foram me conduzindo, me orientando, até que eu fiz a personagem, tanto que me assombrei com ela quando fui pra Brasília, que eu fui indicada como atriz coadjuvante e eu vi a minha cara numa tela enorme e isso fica eternizado pra gente, e pra mim valeu a pena fazer, foi o primeiro cachê grande que eu recebi, ele disse assim: “quanto é que você faz? Nós temos tanto”. E como eu não tenho idéia do preço das coisas eu fiquei e fiz esse filme e foi muito bacana. Depois fui convidada pra fazer “Fabião das Queimadas, poeta da liberdade”, um documentário com um menino de Natal, Buca Dantas, que está pensando em fazer outro filme, eu não sei como vai ser, não me deu nenhuma resposta ainda, mas foi outra coisa completamente diferente, a gente já começa a ter um comportamento e isso é um aprendizado, a gente está sempre aprendendo, a gente não sabe de nada.

AZOUGUE: De todos os personagens que você já fez, qual você acha que merece ser eternizado, qual é o inesquecível?

TS: Eu acho que não tenho um especial, eu eternizo todos eles, pois são emoções completamente diferentes, cada texto que vem é uma forma diferente, você está com uma forma diferente pra fazer. Pra mim todos os personagens são muito difíceis e são eternizados, é tanto que eles atravessam milhões de anos.

AZOUGUE: Você falou que não deseja ter filhos, por que você quer eternizar os seus trabalhos e não quer se eternizar, mas você consegue viver sozinha, pois muitas mulheres têm dificuldade de conviver consigo mesma, você consegue, você gosta de viver sozinha?

TS: Às vezes, depende da minha menopausa! Mas eu tenho um namorado eterno, eu tenho um camarada com quem eu namoro há muito tempo, mas a gente tem um namoro meio complicado, quando a gente está junto a gente namora, quando está distante finge que nem existe, mas eu vou vivendo, vou me enamorando com outras pessoas, achando linda, sonhando, sabe aquele amor platônico? Ah... Eu gostaria tanto de namorar fulano de tal, mas ele não olha pra mim, então eu vou olhando pra ele sozinha! E assim eu vou vivendo, no sonho! Eu não sei, eu acho que ninguém vai querer namorar comigo, porque eu sou completamente desorientada, pra eu mangar de uma pessoa são dois minutos, a mesma coisa a pessoa faz comigo, aí acaba tudo. Há dez anos eu arranjei um namorado, ele era picolezeiro e mamãe tinha ódio! E ele era daqueles que eu digo: eu vou pra tal canto e não vai dar pra você ir não. Quando eu chegava no local quem estava lá, era ele, eu tinha ódio! E infernizava minha vida, querendo escolher a personagem que eu iria fazer porque ele era meu namorado e eu dizia pra ele: meu amor, eu deixo você em dois tempos, o teatro é meu eterno namorado! E se eu passar pela rua e me embelezar por uma figura e ela se embelezar por mim eu vou namorar, pois eu não vou me fixar a namoro não porque não existe mais isso, pois eu não permito que alguém me diga: não essa noite você não vai fazer teatro. Quando você gosta do teatro ele é seu marido, seu namorado, ele é seus finais de semana, é tudo, e quem é que vai querer! Ninguém agüenta não! E agora com a menopausa eu brigo até comigo mesma, saio brigando com meus companheiros de trabalho que convivem mais comigo do que minha própria família.

AZOUGUE: Como atriz você prefere fazer espetáculo pra adulto ou pra criança?

TS: Para os dois, mas a criança é mais exigente, a criança não tem barreira pra dizer não, ela diz. O sucesso da personagem Dona Nicácia do alto do oratório de Santa Luzia depende de uma menina chamada Dara, a mãe a levava para assistir os ensaios e os seus olhos até brilhavam. No dia em que a personagem ficou mais madura, ela veio pra mim e disse: “Tony, me arrepiei”! Chega me deu um nó, pois se eu consegui chegar no coração de uma criança eu consigo atingir um adulto, porque quando a criança não gosta, ela não gosta mesmo, o adulto tolera, mas a criança faz logo uma bagunça. O adulto engole e tem logo que esquecer, porque quem engole muita coisa ruim tem que botar pra fora, se não faz mal ao coração.

AZOUGUE: Como Tony Silva lida com a crença?

TS: Eu fui católica, fui criada assistindo a missa, se não assistisse não poderia sair de casa. Já fui protestante da Igreja Batista e, graças a Deus e a Urucum, hoje eu sou humanista, e a religião é completamente diferente, é onde eu me sinto bem, onde eu gosto de estar com aquelas pessoas, cada igreja tem sua particularidade. Eu sou humanista hoje e creio que serei pro resto da vida, porque eu gosto da forma, os deuses todos, o respeito pela natureza, para cada coisa da natureza existe um deus. E lá não tem a questão do preconceito, mas tem pobreza, pois a humana é uma religião descendente do candomblé, nasceu na Guanabara em 1935, no estado do Rio de Janeiro, e daí foi disseminando pra cá.

AZOUGUE: E Deus?

TS: Deus é tudo, Deus é universo, porque eu não sei quem fez tudo isso, e se quem fez isso foi Deus então pra mim Deus é tudo, porque eu gosto demais do Sol, da Lua, do vento, da água, do céu, da Terra, da planta, de tudo, então Deus é tudo!

AZOUGUE: Praia ou montanha?

TS: Os dois, a praia eu tenho medo porque eu fico tonta com toda aquela beleza, mas a praia me dá a sensação de liberdade, já na montanha eu tenho a sensação de purificação e estar perto da natureza é muito bacana.

AZOUGUE: Se Tony Silva pudesse escolher entre ser homem ou mulher na próxima vida, o que Tony Silva escolheria e como seria essa pessoa?

TS: Eu queria voltar do mesmo jeito, como mulher, que eu acho que é o ser mais perfeito da natureza, é ela que consegue reproduzir todos os bens que existem na face da terra. Eu sou apaixonada pelo ser mulher, só não sou delicada, pois eu acho bonito a mulher ser delicada, mas eu não sou. O homem também é perfeito, mas a mulher é mais porque a mulher tem um jeitinho, uma coisa perfeita, e reproduzir um ser, povoar esse mundo, eu acho isso lindo!

AZOUGUE: Uma música que definiria Tony.

TS: A música que me definiria é Tocando em Frente, de Almir Satter. “Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais...” (os olhos da atriz se enchem de lágrimas).

AZOUGUE: Algum comentário?

TS: (chorando) Não. Porque às vezes a gente luta tanto e se pergunta: “Meu Deus, pra quê?” O que significa a gente estar todo dia na luta, pra que isso? Se alguém souber explicar me diga. Estou sensível, mas sou assim. Eu rio, choro, esculhambo, eu sou a imperfeição do ser humano, tudo que o ser humano tem eu tenho. Às vezes olham pra mim: “Valha, você é atriz, né”?! Eu respondo: sou. “Você passa na televisão, né”?! Eu digo: já passei (você só é artista se aparecer na televisão). Mas o artista é igual a qualquer ser humano, para muitas pessoas é como se ele fosse intocável e isso não é verdade, mas trabalhamos para melhorar a vida enquanto estamos aqui.


FOTOS: NILTON CÉSAR


aline@azougue.com

 

Site melhor visualizado com I.E. 5.0 ou posterior e 800x600px
Copyright©, 2004-2006 www.azougue.com - Todos os Direitos Reservados
Projeto - Caby da Costa Lima