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Tony
Silva
Salve, salve leitor/internauta
do azougue.com. A página Mulher traz para você
uma entrevista muito bacana com Maria Lúcia da Silva,
mais conhecida como Tony Silva, atriz mossoroense que encanta
a nossa cidade e o nosso país com seus bons trabalhos.
Numa conversa agradabilíssima ela nos contou como é
a vida de artista em Mossoró, um pouco da sua vida pessoal
e muito mais. Confira então Tony Silva na página
Mulher.
AZOUGUE:
Quem é Tony Silva?
TONY
SILVA:
‘Vixe’ é tão difícil dizer.
Eu tento ser um ser humano e tento contribuir com a minha cidade
dessa forma, a forma que escolhi foi o teatro. Trabalho na área
social na FUNDAC (Fundação Estadual da Criança
e do Adolescente) e trabalho no teatro muito mais.
AZOUGUE:
E em qual cidade você nasceu, quando e qual é o
seu nome completo?
TS:
Vou
começar pelo meu nome que é a primeira vez que
me perguntam numa entrevista. Meu nome é Antonia Lúcia
da Silva, que significa Não Tem Luz da Silva (risos),
pois o Antonia é sempre o antônimo de não
ter alguma coisa, Lúcia é luz então Não
Tem Luz da Silva. Nasci em Mossoró, em 14/11/1959, tenho
apenas 47 anos de idade e 25 de teatro.
AZOUGUE:
Por que Tony? Quem colocou esse nome em você? Ou foi você
que arranjou artisticamente?
TS:
Eu
estudava no Estadual (Escola Estadual Professor Jerônimo
Rosado) fazia o primário ou colegial, não lembro
bem. Eu tinha um professor chamado Rosado e ele dava aula de
educação física e eu fazia a maior brincadeira
nas aulas dele, imitando o ator Tony Tornado que na época
estava no auge e eu dançava igual a ele. Daí meu
professor começou a me chamar de Tony e isso não
foi eu que induzi, naturalmente a cidade foi me conhecendo como
Tony Silva. Dia desses, eu estava lendo na revista Papangu um
rapaz falando que só mesmo em Mossoró tem uma
mulher com o nome de Tony. Isso é preconceito. Tony é
um nome tanto masculino como feminino. Eu adoro esse nome porque
Tony é metade do meu nome Antonia.
AZOUGUE:
Como foi sua infância?
TS:
Como a de todo pobre, correndo no meio da rua, brincando com
homens e mulheres, brincando de tique, sou dessa época,
das brincadeiras de roda, amores platônicos. Meu pai era
marceneiro, minha mãe costureira, os dois trabalhavam
para poder nos dar estudo. Somos cinco filhos, dois homens e
três mulheres. As mulheres conseguiram chegar à
faculdade e eu fiz a errada, fiz faculdade de Educação
Física porque jogava handebol. Isso aconteceu porque
eu sempre fui desorientada (doidinha), fiz também Técnica
de Engenharia Agrícola, na antiga Esam (hoje UFERSA –
Universidade Federal Rural do Semi-Árido). Acho que eu
fui a única professora de educação física
que consegui passar nas matérias teóricas sem
saber das práticas. Eu sou péssima nadadora. Arrependo-me
muito de ter feito essa faculdade e se hoje eu fosse fazer uma
faculdade faria para Artes Cênicas com certeza. Depois
de velha não tem mais como você não definir
as coisas.
AZOUGUE:
Sua adolescência foi conseqüência da infância
ou já foi diferente?
TS:
Foi diferente, porque as coisas vão mudando. Eu tive
o prazer de viver todas as etapas. Fui criança, pré-adolescente,
não pulei nenhuma delas, passei por todas até
me tornar essa moleca que sou hoje.
AZOUGUE:
Mas, não parece que você tem 47 anos...
TS:
Não.
Ah! Obrigada. Sabe o que é formol (risos). Brincadeira.
A receita é beber muita água, viva em Mossoró.
AZOUGUE:
De onde veio a vontade de ser atriz, trabalhar com o imaginário
das pessoas?
TS:
Na
verdade eu não tive a vontade. Eu sempre fui muito curiosa,
na época estudava com Aécio Cândido e Crispiniano
Neto e eles falaram para mim que iam escrever uma peça
chamada Circo, a Alegria do Povo e eu iria participar. Aí
eu disse: Certo eu vou! Nesse período eu estava terminando
a faculdade e tive que viajar no projeto Rondon, passei 40 dias
fora e já tinha o texto mais ou menos montado na cabeça.
Quando eu cheguei, eles disseram que íamos estrear, aí
foi que me deu medo, uma ansiedade, um medo de desistir e de
não desistir. Sei que na hora H, Aécio deu um
empurrãozinho e dele nunca mais saí. Durante esses
25 anos nunca mais deixei de pisar no palco, sou viciada nessa
história.
AZOUGUE:
Você se considera perfeccionista?
TS:
Não. Na minha vida normalmente eu não sou, mas
com as minhas personagens sou até demais, se eu não
acreditar no personagem não farei com que o público
acredite. Tenho que vivê-lo com a maior intensidade da
minha vida. Durante o dia-a-dia eu sou completamente estabanada,
desorientada. Meus personagens me trazem uma certa preocupação
porque eu tenho que mostrar ao público o melhor, isso
é que vale hoje às pessoas me chamarem de atriz
que é uma palavra pesada, fico extremamente orgulhosa,
pois dentro de Mossoró é a única que as
pessoas chamam de atriz. Passei 10 anos para poder deixar alguém
me chamar de atriz.
AZOUGUE:
Quanto tempo você leva para incorporar uma personagem
e se desvincular dela?
TS:
Cada uma tem um processo. Quando um diretor me dá uma
personagem eu como, durmo, ando, penso, falo, fico doente para
poder achar o feeling (‘sentido’) da personagem,
embora a gente nunca aprimore a personagem. A gente trabalha
nela e não está bom, trabalha mais um pouco e
não está bom, é uma coisa que nunca chega
ao fim. Para me desvincular da personagem é outro processo,
por exemplo, faço uma lavadeira na peça. A Viagem
do Barquinho eu entro e saio sorrindo, já em Medeia tenho
vontade de ficar escondida uns dez minutos antes e depois da
peça para poder voltar ao normal, pois sou completamente
tomada pela personagem. Quando é dia de apresentação
tenho que chegar ao local umas quatro horas antes para que eu
fique calma por que não consigo fazer as outras coisas
normalmente. É um sofrimento pra mim quando elas chegam
e quando elas vão embora. É por isso que eu não
tenho o juízo muito certo (risos).
AZOUGUE:
Por tudo isso as pessoas lhe consideram uma das melhores atrizes
da cidade e você, o que nos diz?
TS:
Considero-me aprendiz. Você nunca é bom, sempre
está em aprimoramento, crescimento. Neste tempo que trabalho
como atriz, fiz personagens que as pessoas reconheceram e por
isso me denominam dessa forma, mas eu preciso aprender mais,
muito mais.
AZOUGUE:
Qual foi a sensação do primeiro trabalho? Você
mesmo nervosa, com medo, se sentiu capaz? Você disse:
eu vou fazer porque eu posso?
TS:
O ser humano é atrevido, não é? Você
sabe que tá no ponto, mas como já disse nunca
está bom. A primeira sensação foi de brincadeira.
Dez anos depois foi que vim notar que teatro é a brincadeira
mais séria do mundo. Antes eu brincava de interpretar
e as pessoas brincavam de viver aquela personagem, depois que
notei que isso é sério e passei a lidar melhor
com os sentimentos humanos foi que passei a levar muito a sério.
Antes sentia vazio, hoje é diferente.
AZOUGUE:
Tony Silva prefere trabalhar no lar ou no palco?
TS:
No palco, claro! No lar não tem novidade. Admiro demais
as donas-de-casa, as meninas que ajudam. Veja bem: você
está lavando uma xícara, enxuga, guarda, aí
vem uma outra pessoa e suja e você tem que fazer tudo
de novo. Tem que ter muita paciência e não tenho
esse esmero todo.
AZOUGUE:
Nunca quis ser mãe?
TS:
Sou mãe das minhas personagens, dos meus sobrinhos, mas
sou meio abusada, não tenho muito punho. Conto piada
para meus sobrinhos e também mando parar quando acho
necessário. Com a família geralmente temos outra
personagem do que com as outras pessoas. Nunca quis ser mãe
porque acho que é querer se perpetuar demais, ser muito
mais eterno. Não seria uma boa mãe, seria muito
relaxada. Nunca tive esse sonho. Comigo não funciona
essa coisa de ser eterno. Somente o que vai ser eterno de mim
são as marcas que eu vou deixar.
AZOUGUE:
Como mulher, qual a vaidade, a frescurinha que você tem?
TS:
Valha... Frescurinha? Não sei, acho que eu sou bissexual
(risos). Mas eu gosto de roupa, é a única coisa
que eu digo não quero essa roupa hoje, vou vestir aquela
outra. Pano faz isso comigo.
AZOUGUE:
Foi divulgado que você iria passar uma temporada no sudeste
do país para se aperfeiçoar. Conte se aconteceu
ou não.
TS:
Divulgam
muita coisa da minha vida, às vezes coisa que eu nem
sei se vai acontecer. Disseram que eu ia para a Globo, só
se for para Globo Rural. Mas a história de ir para o
sudeste foi verdadeira, Gabriel (foi uns dos diretores do Auto
da Liberdade) me convidou. Mas tenho em mim uma coisa que diz
que se é para eu ir para a terra dos outros batalhar
como um cão feroz, matando um leão por dia, faço
isso na minha casa. Agora se chegarem e me derem condições
de vida lá para estudar, aprender, aí vou com
o maior prazer. Caso contrário nunca vou sair de Mossoró
e mesmo que venham convites não fixarei residência
lá. Vou um tempo, faço o trabalho e volto para
minha casa. A melhor coisa do mundo é o lar da gente
o cheirinho do nosso pano, a gente vê a limpeza, a sujeirinha,
as formigas, tudo, a gente conhece a cidade da gente. Sou apaixonada
por Mossoró e sei que tenho uma parcela de contribuição
para o desenvolvimento dessa cidade. Se precisarem do meu nome
um dia para que a cidade cresça eu dou.
AZOUGUE:
É justo Mossoró estar concorrendo ao título
de Capital Brasileira da Cultura – 2007?
TS:
É
justo demais, minha filha. Enquanto outras cidades se destacam
pela violência, Mossoró se destaca pelos sentimentos,
pela cultura, pela arte. Nós estamos aqui para isso.
AZOUGUE:
Mas você não acha que ainda falta muita coisa,
subsídios para os artistas, por exemplo?
TS:
Para que Mossoró ganhe esse título cada um de
nós tem que se conscientizar do que é ser cidadão
mossoroense. Porque se você fuma e joga uma coxia no esgoto,
isso é questão de educação, é
cultural isso. Aí quando chove, alaga a cidade inteira.
Nós temos uma obrigação para com a cidade
que a gente vive. Seja a menor contribuição, é
necessário que a gente reconheça que não
depende só de autoridades, mas de cada um de nós,
que a gente se comprometa com essa cidade.
AZOUGUE:
Você já sofreu preconceito por ser mulher, ou por
ser negra, ou quando você tinha condições
financeiras abaixo do que você tem hoje e qual foi a que
mais lhe machucou?
TS:
Sofro
preconceito desde o dia em que nasci, da minha família
mesmo. Minha mãe sempre diz, por exemplo, pra eu arrumar
o cabelo por que se não eu vou assustar o povo na rua.
Isso é uma forma de preconceito, mas são coisas
da minha mãe, ela foi criada com isso. Mas a que mais
me chocou foi quando estávamos numa turnê pelo
Nordeste com o grupo Nocaute à Primeira Vista, com a
peça Capitães de Areia e pegamos um ônibus
aqui em Mossoró estávamos indo para Natal. Fomos
conversando, contando piada e o senhor que ia dirigindo, já
devia ter seus 60 anos, não estava muito bem, pelo menos
acho que não. Ele parou o ônibus e todos estavam
brincando, mas eu era a única negra e mulher, ele veio
direto a mim e pôs o dedo em riste mandando eu me calar.
Fiquei tão surpresa e tão sem reação
que fui descendo na cadeira feito uma criança assustada,
não sabia o que fazer naquela hora. Se eu não
me calasse ele pararia o ônibus de novo e me colocaria
para fora. Pegou todo mundo de surpresa. Organizei-me, após
chorar bastante. Quando chegamos a Natal fui à gerência
declarei a minha queixa, liguei para o gerente e quando eu estava
conversando com ele o motorista veio até nós e
disse as mesmas coisas... “Negrinha...” Ele só
não disse que eu era santa, até porque eu ainda
tenho que viver essa personagem (risos). Mas creio eu que ele
perdeu o emprego por um ato banal, se dirigir a mim por umas
2 ou 3 vezes no ônibus. Fecho os olhos e vejo o dedo dele
no meu nariz assim e eu parecendo um bicho acuado. Porém,
a gente vai tirando de letra, porque na verdade o Brasil é
um país preconceituoso. Você só não
sofre preconceito se você tiver dinheiro, se não
for branco. Quem diz que Pelé é negro? Que Ronaldinho
é feio? Ninguém. Esse país é a união
de três etnias diferentes e é o mais preconceituoso.
MAS ESTOU AQUI PARA DIZER A ELES PARA CALAREM A BOCA (enfática).
AZOUGUE:
Aqui em Mossoró, mesmo tendo toda essa admiração,
sendo respeitada, já sofreu preconceito?
TS:
Por
parte dos próprios negros. Sério. De algumas pessoas
ditas intelectuais que são tão cruéis quanto
um analfabeto. Mas a gente vai dizendo para eles por onde é
o caminho, de onde vem o cabelo dele, o nariz atarracado, o
pé sem cava, o beiço grosso, a mão disforme
porque ele é assim. Às vezes a gente diz as coisas
brincando, mas às vezes dá uma revolta grande
porque você olha para uma pessoa que é negra também
e ela fica desfazendo de você. Gente, não é
só a cor da pele que identifica a gente. Às vezes
o camarada é branquinho e tem as suas características
de um negro e é isso que faz a beleza desse país.
AZOUGUE:
Como foi a seleção para o filme ‘Desencantos
do Diabo’?
TS:
Eu estava uns dois meses em Natal fazendo o teste para o filme
“Desencantos do Diabo” com Moncho Rodrigues, um
camarada europeu chamado Galego, e eu passei e fiz o filme que
juntava pessoas de estados diferentes, eu de Mossoró,
Beto de Natal, um menino de Fortaleza que eu não me lembro
o nome, mas me falou: Tony estão fazendo uma audição
pra um filme de Rosemberg Cariri e Gustavo, que eu acho o cara
mais bacana dessa cidade dentro da área da arte, que
é um cara que compreende a gente muito bem e eu tenho
a felicidade de ser amiga dele, e ele me ajudou a fazer meu
book, então eu mandei esse material pra Fortaleza e com
uma semana Rosemberg manda me chamar, e esse personagem era
pra Zezé Mota, não sei se eu fui escolhida porque
era mais pertinho e iria sair mais barato, só sei que
ele mandou me chamar e fiquei uma semana na cidade, ele me deu
assistência e eu fiz o teste, eu, ele e o cameraman e
foi uma coisa inédita na minha vida, pois o teste em
Natal foi em conjunto, era muita gente e nesse eu fiz exatamente
eu com Rosemberg, ele manda pra mim o roteiro do filme diz qual
é o personagem que ele quer, eu memorizo, faço,
mas eu tive a sensação que não iria passar,
eu tenho aquele medo, todos os personagens que eu vou fazer
eu tenho medo, mas com uma semana ele mandou dizer que a personagem
era minha. Eu fui fazer o filme sem saber nada, é completamente
diferente o set de filmagem da área de teatro, existe
um exagero no teatro e o filme tem do natural ao naturalíssimo,
essa personagem tem toda a energia, mas não pode passar
exageradamente, como a gente faz no teatro pra ver a olho nu.
E assim eu fui entrando, peguei companheiros maravilhosos que
se chamam Dira Paz e Chico Dias que sabiam que eu não
sabia nada de cinema, eles que já eram cobras criadas
em filme, e foram me conduzindo, me orientando, até que
eu fiz a personagem, tanto que me assombrei com ela quando fui
pra Brasília, que eu fui indicada como atriz coadjuvante
e eu vi a minha cara numa tela enorme e isso fica eternizado
pra gente, e pra mim valeu a pena fazer, foi o primeiro cachê
grande que eu recebi, ele disse assim: “quanto é
que você faz? Nós temos tanto”. E como eu
não tenho idéia do preço das coisas eu
fiquei e fiz esse filme e foi muito bacana. Depois fui convidada
pra fazer “Fabião das Queimadas, poeta da liberdade”,
um documentário com um menino de Natal, Buca Dantas,
que está pensando em fazer outro filme, eu não
sei como vai ser, não me deu nenhuma resposta ainda,
mas foi outra coisa completamente diferente, a gente já
começa a ter um comportamento e isso é um aprendizado,
a gente está sempre aprendendo, a gente não sabe
de nada.
AZOUGUE:
De todos os personagens que você já fez, qual você
acha que merece ser eternizado, qual é o inesquecível?
TS:
Eu acho que não tenho um especial, eu eternizo todos
eles, pois são emoções completamente diferentes,
cada texto que vem é uma forma diferente, você
está com uma forma diferente pra fazer. Pra mim todos
os personagens são muito difíceis e são
eternizados, é tanto que eles atravessam milhões
de anos.
AZOUGUE:
Você falou que não deseja ter filhos, por que você
quer eternizar os seus trabalhos e não quer se eternizar,
mas você consegue viver sozinha, pois muitas mulheres
têm dificuldade de conviver consigo mesma, você
consegue, você gosta de viver sozinha?
TS:
Às vezes, depende da minha menopausa! Mas eu tenho um
namorado eterno, eu tenho um camarada com quem eu namoro há
muito tempo, mas a gente tem um namoro meio complicado, quando
a gente está junto a gente namora, quando está
distante finge que nem existe, mas eu vou vivendo, vou me enamorando
com outras pessoas, achando linda, sonhando, sabe aquele amor
platônico? Ah... Eu gostaria tanto de namorar fulano de
tal, mas ele não olha pra mim, então eu vou olhando
pra ele sozinha! E assim eu vou vivendo, no sonho! Eu não
sei, eu acho que ninguém vai querer namorar comigo, porque
eu sou completamente desorientada, pra eu mangar de uma pessoa
são dois minutos, a mesma coisa a pessoa faz comigo,
aí acaba tudo. Há dez anos eu arranjei um namorado,
ele era picolezeiro e mamãe tinha ódio! E ele
era daqueles que eu digo: eu vou pra tal canto e não
vai dar pra você ir não. Quando eu chegava no local
quem estava lá, era ele, eu tinha ódio! E infernizava
minha vida, querendo escolher a personagem que eu iria fazer
porque ele era meu namorado e eu dizia pra ele: meu amor, eu
deixo você em dois tempos, o teatro é meu eterno
namorado! E se eu passar pela rua e me embelezar por uma figura
e ela se embelezar por mim eu vou namorar, pois eu não
vou me fixar a namoro não porque não existe mais
isso, pois eu não permito que alguém me diga:
não essa noite você não vai fazer teatro.
Quando você gosta do teatro ele é seu marido, seu
namorado, ele é seus finais de semana, é tudo,
e quem é que vai querer! Ninguém agüenta
não! E agora com a menopausa eu brigo até comigo
mesma, saio brigando com meus companheiros de trabalho que convivem
mais comigo do que minha própria família.
AZOUGUE:
Como atriz você prefere fazer espetáculo pra adulto
ou pra criança?
TS:
Para os dois, mas a criança é mais exigente, a
criança não tem barreira pra dizer não,
ela diz. O sucesso da personagem Dona Nicácia do alto
do oratório de Santa Luzia depende de uma menina chamada
Dara, a mãe a levava para assistir os ensaios e os seus
olhos até brilhavam. No dia em que a personagem ficou
mais madura, ela veio pra mim e disse: “Tony, me arrepiei”!
Chega me deu um nó, pois se eu consegui chegar no coração
de uma criança eu consigo atingir um adulto, porque quando
a criança não gosta, ela não gosta mesmo,
o adulto tolera, mas a criança faz logo uma bagunça.
O adulto engole e tem logo que esquecer, porque quem engole
muita coisa ruim tem que botar pra fora, se não faz mal
ao coração.
AZOUGUE:
Como Tony Silva lida com a crença?
TS:
Eu fui católica, fui criada assistindo a missa, se não
assistisse não poderia sair de casa. Já fui protestante
da Igreja Batista e, graças a Deus e a Urucum, hoje eu
sou humanista, e a religião é completamente diferente,
é onde eu me sinto bem, onde eu gosto de estar com aquelas
pessoas, cada igreja tem sua particularidade. Eu sou humanista
hoje e creio que serei pro resto da vida, porque eu gosto da
forma, os deuses todos, o respeito pela natureza, para cada
coisa da natureza existe um deus. E lá não tem
a questão do preconceito, mas tem pobreza, pois a humana
é uma religião descendente do candomblé,
nasceu na Guanabara em 1935, no estado do Rio de Janeiro, e
daí foi disseminando pra cá.
AZOUGUE:
E Deus?
TS:
Deus
é tudo, Deus é universo, porque eu não
sei quem fez tudo isso, e se quem fez isso foi Deus então
pra mim Deus é tudo, porque eu gosto demais do Sol, da
Lua, do vento, da água, do céu, da Terra, da planta,
de tudo, então Deus é tudo!
AZOUGUE:
Praia ou montanha?
TS:
Os dois, a praia eu tenho medo porque eu fico tonta com toda
aquela beleza, mas a praia me dá a sensação
de liberdade, já na montanha eu tenho a sensação
de purificação e estar perto da natureza é
muito bacana.
AZOUGUE:
Se Tony Silva pudesse escolher entre ser homem ou mulher na
próxima vida, o que Tony Silva escolheria e como seria
essa pessoa?
TS:
Eu queria voltar do mesmo jeito, como mulher, que eu acho que
é o ser mais perfeito da natureza, é ela que consegue
reproduzir todos os bens que existem na face da terra. Eu sou
apaixonada pelo ser mulher, só não sou delicada,
pois eu acho bonito a mulher ser delicada, mas eu não
sou. O homem também é perfeito, mas a mulher é
mais porque a mulher tem um jeitinho, uma coisa perfeita, e
reproduzir um ser, povoar esse mundo, eu acho isso lindo!
AZOUGUE:
Uma música que definiria Tony.
TS:
A música que me definiria é Tocando em Frente,
de Almir Satter. “Ando devagar porque já tive pressa
e levo esse sorriso porque já chorei demais...”
(os olhos da atriz se enchem de lágrimas).
AZOUGUE:
Algum comentário?
TS:
(chorando) Não. Porque às vezes a gente luta tanto
e se pergunta: “Meu Deus, pra quê?” O que
significa a gente estar todo dia na luta, pra que isso? Se alguém
souber explicar me diga. Estou sensível, mas sou assim.
Eu rio, choro, esculhambo, eu sou a imperfeição
do ser humano, tudo que o ser humano tem eu tenho. Às
vezes olham pra mim: “Valha, você é atriz,
né”?! Eu respondo: sou. “Você passa
na televisão, né”?! Eu digo: já passei
(você só é artista se aparecer na televisão).
Mas o artista é igual a qualquer ser humano, para muitas
pessoas é como se ele fosse intocável e isso não
é verdade, mas trabalhamos para melhorar a vida enquanto
estamos aqui.
FOTOS: NILTON CÉSAR
aline@azougue.com
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