Mossoró-RN, de 2005
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Cláudia Regina

 

Muita energia positiva para você leitor/internauta do azougue.com. A entrevista de hoje é de encantar. Conversamos com uma pessoa que é simplesmente uma grande mulher. Ela é graduada em Direito pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e em Serviço Social pela Universidade Federal do Ceará (UFC). É pós-graduada em “Qualidade nas Políticas Públicas” pela UFC e tem um papo agradabilíssimo. Tenho o prazer de mostrar um pouco de Cláudia Regina, a vice-prefeita de Mossoró e uma mulher que ama o que faz.

Azougue - Onde, quando nasceu e nome completo?

Cláudia Regina: Cláudia Regina Freire de Azevedo, nasci na zona rural de Aracati - Ceará, no dia 28 de agosto de 1964.

Azougue - Nome dos pais?

CR - José Maria Freire de Andrade e Zaira Costa Freire.

Azougue - Casada? Quantos filhos?

CR - Casada com Vagner Carlos de Araújo Azevedo, que é funcionário do Banco do Brasil, e tenho dois filhos: Paulo Rafael de 15 anos e Victor Vagner de 17 anos.

Azougue - Como foi sua infância e sua adolescência?

CR - A minha infância foi igual à de toda criança do interior, convivendo no dia a dia da cidade, brincando e se divertindo. Minha infância foi toda em Aracati, morávamos em frente a uma Igreja Católica com a convivência muito grande com a igreja, pois minha casa era vizinho à casa paroquial de Aracati. Então, isso proporcionou uma convivência com os padres, com os movimentos católicos e também com os movimentos de conscientização a partir da formação de catequistas, mas também com muita brincadeira de meio de rua, muita formação de grupos. Nós sempre tivemos a tendência muito grande, desde pequeno, de nunca estarmos sozinhos, inclusive nós formamos um conjunto musical que animava as festas religiosas. Mas também atuava junto com um grupo de jovens, que fazia parte, de uma forma muito definitiva, da tomada de decisões da cidade, desde a participação direta das enchentes de Aracati até o trabalho com os senhores do grupo Vicentino, um grupo ligado à Igreja Católica. Nós sempre participamos ativamente na cidade, contribuindo com a nossa formação, mas sempre com esse sentimento de estar agrupado e de poder contribuir de alguma forma.

Azougue - Qual era o nome do grupo e qual era sua função dentro do grupo musical?

CR - (Gargalhadas). Eu tocava guitarra, diga-se de passagem, muito ruim. O grupo não tinha nome, mas ele animava a igreja e o meu trabalho era muito mais manter o grupo vivo. O grupo funcionava como atrativo para o jovem e aí nos aplicávamos um trabalho de conscientização com o reconhecimento do jovem em seu contexto e mostrando a importância do jovem na sociedade.

Azougue - Quando surgiu a vontade de fazer assistência social?

CR - Com certeza essa vontade veio com a influência da minha família, pois minha mãe tinha uma tendência natural, não de fazer caridade, mas sim ajudar às pessoas para que elas próprias conduzissem seu caminho, dando meios para que elas se levantassem. Na adolescência isso veio com mais força e com a vontade de fazer Serviço Social. Mas eu creio que esse é um sentimento nato, a faculdade veio só com a necessidade de se aprimorar e de melhorar ainda mais o nosso trabalho, mas a vontade de ajudar é nata.

Azougue - Você é mulher, grandona, simpática, eu queria saber no que isso te atrapalhou e no que isso te ajudou?

CR – Primeiro temos que tirar esse estereótipo de que ser mulher, nordestina e ser forasteira, pois quem vem de outro estado é considerado forasteiro, possa ser um obstáculo para a gente atender àquele que queremos atender. Que existe o preconceito existe, mas eu fui criada sabendo que só fazem da gente o que a gente deixa que façam. Então não podemos fazer com que isso nos impeça de atingir nosso objetivo. Eu acho que esse estereótipo não deve existir, principalmente numa cidade onde a primeira mulher votou, onde uma mulher conduziu um manifesto contra as estruturas tradicionais da época, como foi o caso do Motim das Mulheres, então não podemos permitir que essas marcas se apaguem. Eu senti esse preconceito não aqui na cidade, mas eu tive um episódio no Rio de Janeiro onde, quando eu me apresentei como de Mossoró no Rio Grande do Norte, alguns já puxaram o canto da boca, como se uma mulher nordestina não tivesse condições de fazer defesas e colocar posicionamentos, e quando eu acabei minha defesa me perguntaram onde era Mossoró! Eu achei que isso era uma agressão e uma afronta. A partir desse episódio eu passei a me identificar somente depois de acabar minha argumentação, pois achei que o caminho era mais fácil se as pessoas vissem primeiro minhas colocações pra depois eu me identificar. Como realmente o foi. Então, eu creio que devemos acabar com esse estigma de que tudo deve ser resolvido no cenário nacional, pois nós temos uma história que precisa ser defendida e a nossa região tem seus valores e sua importância. Essa foi a única vez que eu senti essa discriminação e que eu senti a necessidade de usar artifícios. Recentemente, já como vice-prefeita, estive em Macaé, onde eu utilizei esse artifício. Tratava-se de um evento internacional, que falava do petróleo, e nós tivemos lá um posicionamento a respeito da questão social da aplicabilidade dos recursos, a partir de como os municípios conduzem, e quando eu argumentei que nós precisávamos defender os royalties do petróleo, pois o petróleo não é um recurso renovável, e precisava de uma alternativa para que com o término deste recurso a população possa se manter. Quando eu acabei de falar, o representante do Espírito Santo levantou-se e disse que louvava a defesa que nós tínhamos feito, pois o sentimento que o sul e o sudeste têm é que os nordestinos só comem camaleão. Então eu quero mostrar o quanto é forte essa discriminação por ser nordestino e por ser mulher, por isso você tem que se fazer respeitar pelo que você está dizendo. Você vê muito nos indicadores que a mulher recebe duas vezes menos que o homem e nós não podemos dizer que isso acontece na nossa cidade, porque quem paga melhor são as instituições públicas, tendo a mesma quantidade de homens e mulheres. Entretanto, a mulher sai prejudicada porque, por exemplo, o segundo órgão que mais emprega aqui é a fruticultura irrigada, que possui a grande maioria empregados homens. É um espaço que as mulheres têm que lutar para que tenha os mesmos direitos do homem. Nós ainda temos que quebrar o estereótipo de que a mulher só serve para o trabalho doméstico e para ser secretária. Às vezes as pessoas estranham o fato de eu ter um secretário, mas nós temos de acabar com essa história de que tem coisa que só homem pode fazer e coisa que só mulher pode fazer. Nós não estamos dentro das estatísticas que pagam pior, mas existem muitas áreas de trabalho restritas para a mulher.

Azougue – Cláudia, o que te faz se sentir em casa? O que a deixa relaxada?

CR - O lugar de relaxamento é a minha casa. Eu não posso relaxar em nenhum outro lugar se não houver a paz dentro de casa, pois eu e meu marido conduzimos a nossa casa como um verdadeiro “porto seguro”. Mas um lugar da natureza que me faz relaxar é o mar, até porque eu nasci na beira da praia e me traz várias mensagens naquele vai e vem das ondas. Mensagens que nos dizem o seguinte: “Que o quê está ruim hoje, amanhã pode não estar”, pois a onda quando volta ela já não volta igual ao jeito que foi, e que cada momento é único, pois amanhã pode não ser igual.

Azougue - Com quantos anos se casou e quando teve o primeiro filho?

CR - Casei com 18 anos e tive meu primeiro filho aos 22 anos, porque nós sempre tivemos o sentimento de que uma família não se constrói sem estar preparado para trazer alguém ao mundo. Se você está trazendo alguém ao mundo, você tem que ter segurança para dar conforto para sua família e eu e Vagner sempre conversamos muito sobre isso.

Azougue - Os meninos estão estudando em Natal, e a saudade como é que fica?

CR - Primeiro, Aline, vão ser sempre os meninos! Pra começar eu gostaria de dizer que eu tive a satisfação, com todas as dificuldades de hoje em dia, de ter um filho passando no primeiro vestibular de Engenharia Mecânica na UFRN, com apenas dezessete anos. Mas a saudade é muito grande, pois em todos os lugares que nós íamos, estávamos sempre os quatro juntos, eu, Vagner e os dois meninos. E por toda essa nossa união, todo esse laço forte foi que Rafael, o mais novo, sentiu a necessidade de acompanhar o irmão. Então eu e Vagner decidimos abrir mão dos dois, ao ver Rafael sofrendo aqui porque estava longe do irmão. O sofrimento é grande, o aperto no peito é grande, mas é com a certeza de estar fazendo o melhor pra eles.

Azougue - Já está preparada pra ser sogra?

CR - Estou e essa preparação vem desde quando Victor tinha apenas cinco anos de idade. Pois nesse período nós fizemos uma reforma na casa e eu brincava com Vagner, porque já havíamos feito uma entrada independente na casa, pensando nisso, os filhos iriam crescer e eles precisavam ter a sua vida pessoal, assim como a mãe precisava saber quantas pessoas iriam tomar café da manhã. Eu penso que a família sobrevive a partir dos agregados que chegam, das noras, dos netos, agora tudo tem seu tempo, tudo tem sua hora e tudo tem que ser feito com muita responsabilidade.

Azougue - O que Cláudia Regina gosta de assistir, não como política e sim como mulher, o que gosta de ver na TV, ouvir no rádio e de ler?

CR - Primeiro, quero dizer que é muito bom, no relaxamento, pegar uma revista que tenha temas variados, que interessam a todas nós, de como fazer uma maquiagem, de como cozinhar bem, porque eu sou uma consumidora impulsiva, de tudo que você pode imaginar, de literatura. Uma literatura que traz um embasamento teórico na área social, no direito, na justiça, de relações humanas, que eu gosto muito, isso é trabalho. Na hora de ser mulher, eu não vou ficar aqui dizendo que eu pego uma revista que traga temas que falam de política social ou uma de amenidades, porque no relaxamento eu pego uma de amenidades. Pego, pois eu quero saber o que está se usando, o que está se vestindo, afinal à imagem também é muito importante. Quanto à televisão e ao rádio, no momento que eu quero absorver informações eu procuro jornais, programas com debates, mas a gente tem que separar relaxamento do trabalho, senão você acaba enlouquecendo, e sou apaixonada por música, adoro ouvir música. Uso muito a música, uso a yoga, como uma alternativa de refúgio, de relaxamento, mas como todas as mulheres, gosto de revistas e programas de amenidades.

Azougue - Do que sente falta da época anterior a de ser vice-prefeita?

CR - A questão do meu dia-a-dia pessoal não mudou nada. Não vou dizer a você que não é uma coisa que você deva adequar, porque você tem que adequar. Agora quero dizer a você que não me causa o menor constrangimento ser abordada na rua, muito pelo contrário, me incomoda se as pessoas não me cumprimentarem. O medo que eu tinha era de quando eu me tornasse vice-prefeita eu não pudesse ter o meu dia-a-dia normal, não poder ir a uma loja no centro da cidade fazer uma compra, porque eu gosto de ter o controle das situações que dependem somente de mim, então isso eu faço com muita normalidade. Eu tenho uma ação muito direta nos bairros de cidade de Mossoró junto nos movimentos sociais e junto à igreja, continuo fazendo isso independente de ser vice-prefeita ou não! Não participo somente como vice-prefeita, mas também como cidadã. Continuo com minha vida pessoal, continuo saindo com meu marido à noite me reunindo com amigos normalmente. Muitas vezes as pessoas estranham porque acham que você tem que chegar com todo o aparato de vice-prefeita. Tanto que nesta última sexta-feira eu fui convidada a um evento como vice-prefeita e logo depois me reuni com meu marido e um grupo de funcionários do Banco do Brasil em um barzinho para sentar e jogar conversa fora. Às pessoas têm que dissociar, o aparato de vice-prefeita vai embora e entra a cidadã. Uma coisa que me incomoda na função de vice-prefeita é que esta função é muito protocolar, ela não tem uma ação direta de execução, e isso nos primeiros meses me causou um rebuliço, uma coisa interna. Isso porque eu sou uma pessoa de ação muito direta, eu não sou aquela que manda resolver o problema, eu sou aquela que vai lá e resolve. Então, eu tive que me situar quanto a isso, pois eu não estava em nenhum atendimento direto. Mas eu contorno isso através de ações sociais, jurídicas, como voluntariado de uma forma independente.

Azougue - A política está chegando e nós sabemos que as prefeituras se mobilizam. E Cláudia Regina vai continuar na política ou vai continuar com seus trabalhos sociais?

CR - Nós não podemos separar as atividades política partidária da política social, pois as duas se entrelaçam. Nós só não podemos ter bandeiras únicas e deixar de realizar alguma ação porque o outro partido levantou aquela situação, nós devemos defender politicamente todas as situações. Agora a minha posição de vice-prefeita e de presidente do PFL é uma situação de política partidária atuante. Eu não vou deixar de participar, até porque eu gosto, e muitas coisas que nós conseguimos avançar nas políticas sociais vieram através da política partidária e da indicação de alguns partidos. Portanto, nós não podemos dissociar isso, vou trabalhar e atuar nas políticas sociais como sempre faço, mas também neste momento de política partidária estarei com a bandeira levantada, a bandeira que prega o desenvolvimento, que prega a liberdade de expressão e que prega, principalmente, a tomada de atitudes que podem melhorar o Rio Grande do Norte.

Azougue - Quais foram as dificuldades que você sentiu para chegar ao cargo de vice-prefeita?

CR - Eu não posso apontar dificuldades até porque para mim a condição de vice-prefeita é muito nova. José Agripino disse uma coisa muito interessante: “Vice não se escolhe, vice se convida”, eu creio que fui escolhida diante desse quadro de convite, mas tomando por base o trabalho, tudo que a gente faz pela cidade de Mossoró com a contribuição que nós podemos dar para a melhoria da cidade. Por isso, eu não posso pontuar dificuldades, eu só pontuo que nós fomos convidados e estamos aqui com muito orgulho.

Azougue - O que você acha que tem de mais feminino em você? Você é vaidosa? Como Cláudia Regina se olha no espelho?

CR - Primeiro, eu não sei se usaria o termo vaidosa, mas eu digo que é procurar estar agradável aos olhos. Toda mulher olha primeiro para o rosto, pois o rosto é o primeiro contato e se nós levarmos em consideração que cada momento é único, veremos que quando você passa por uma dificuldade você dá aquele sorriso mal dado, você não agrada muito àquela pessoa, a sua imagem já fica arranhada. Portanto, quando olho para o espelho eu procuro estar com a aparência serena, porque eu acho que a maior deficiência que as pessoas têm hoje é de atenção, é de carinho, é de respeito. E se você não está com a aparência serena as pessoas não se encostam em você pra poder até dividir as angústias. Eu digo isso porque as pessoas esperam que eu esteja serena e tranqüila, pois elas esperam uma divisão dessa serenidade. A maioria das pessoas que vem aqui é somente para conversar, para dividir as suas angústias e suas necessidades. Então, as pessoas esperam isso e quando você está serena, você está mais bonita e o seu olho tem um brilho maior.

Azougue - Cláudia Regina por Cláudia Regina.

CR - É essa pessoa expansiva que tem o desejo nato de servir, não só porque entrou na política partidária, mas a vontade de servir. Santa Teresinha sempre dizia que o maior desejo de pessoa é de servir e de ser útil para as outras. Portanto, Cláudia Regina por Cláudia Regina é expansiva, sem máscaras, sem retoques e eu acho que é isso que as pessoas esperam de todos.

Azougue - Deixe duas frases, uma que você usa para reflexão e outra para os leitores do azougue.

CR - Para os leitores do azougue.com eu queria dizer não uma frase formatada, mas sim que o país está passando por uma crise muito grande e que nós enquanto cidadãos, enquanto mossoroenses, temos a obrigação de dentro da nossa área de competência encontrar as soluções para as crises que passam pela nossa cidade. Então a frase seria: Preste atenção no que está em torno, tome atitudes, porque a melhoria e o desenvolvimento da nossa cidade não são só responsabilidade do Estado, mas de todos nós. Então, que possamos nos agrupar, pois juntos somos fortes e separados com certeza somos fracos.

E a frase que sempre me norteia, como eu tive uma formação muito religiosa, eu não saio de casa antes de pedir proteção a Deus para o nosso dia e uma frase que eu uso muito que é “o Senhor é minha fortaleza e o meu refúgio”. Independente a que religião pertençamos, façamos a procura do Deus que está dentro de cada um de nós, que nos orienta, que nos rege, com certeza encontraremos o nosso refúgio.

Azougue - Tem alguma pergunta que não fizemos e que a senhora gostaria que fosse feita?

CR - Não. Pelo contrário, gostei muito da entrevista que mostrou um pouco da Cláudia pessoa, mulher, coisa que na maioria das entrevistas a gente não tem a oportunidade de esclarecer. Gostei muito mesmo.

FOTOS: DANIEL MORAIS

ALINE@AZOUGUE.COM

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