Mossoró-RN, de 2008
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Anotações, auto-reflexões e Unsicherheit

Roosevelt de Holanda

De vez em quando, de modo bastante íntimo, anoto frases, palavras, pensamentos para depois pensar no que fazer com minhas anotações. Em geral, liberto-as nos meus textos. Faço aqui uma mostra disso. Perdura no mundo um amor radical. Não o amor de liberdade e autonomia, como o de Sartre e Simone de Beauvoir, mas um amor como o dos românticos, de tentativa de fusão e de perseverança. Isto é certo? Qual o melhor? Não sei. Eu, incorrigível que sou, prefiro o amor romântico. Só os artistas se dedicam à invenção, enquanto os demais homens e mulheres restringem suas vidas à rotina objetiva, às futilidades e ao realismo. Acho que sou um desses.

Alguns acreditam que amar um escritor é amar o que ele escreve e que é impossível amar um escritor se não se ama, também, a sua obra. Mas há quem prefira pensar que amar um escritor é amar que ele escreva. Não importa o quê. Importa que não pare. Conceito aplicável a qualquer artista. Não há riqueza que não seja vida e por isso mesmo vivida. Mas o primeiro e primordial sucesso na vida é ser feliz. Só que, na prosaica banalidade do mundo, é preciso antes aceitar ser finito: estar aqui, para depois estar em nenhum outro lugar.

O amor radical (não confundir com paixão) é a capacidade de se escapar de si para se instalar em outro lugar, desmentindo tudo aquilo que se é. É algo filho da precariedade e do conflito — uma mistura de conseqüências imprevisíveis. O amor é o fascínio recíproco de duas pessoas por aquilo que elas têm de menos dizível, de menos socializável. O amor, enfim, está além das palavras — e por isso todo relato (ou conceituação, como aqui ensaio fazer) de amor se torna, sempre, um pouco ridículo, já que pretende dizer algo que não pode ser dito.

Às vezes sinto-me estrangeiro não só em minha pátria ou em outro qualquer país, mas dentro de mim mesmo. Pois há muitos em mim — nada do que é humano me é indiferente. Sou eu diante de minhas contradições (e anotações). Parodiando Drummond, em seu “Desdobramento de Adalgisa”, sinto-me às vezes em tantas direções que por nenhuma me defino, mas certamente em todas me resumo. Vivo em permanente aporia.

É do que deixa de ser pintado (ou de pintar) que o pintor faz surgir a sua pintura. Na pintura, na escultura, na música e na literatura, ou em qualquer outra manifestação artística, a arte surge não do que se acumula, mas do que se descarta. É nas escolhas que faço e não naquilo que dispenso, que não aceito e desprezo, que traço o meu perfil.

Às vezes tento, no idioma em que escrevo, encontrar uma língua que fale de alma para alma, resumindo tudo, sons, perfumes, cores, temperaturas, aragens, pensamento agarrando pensamento e puxando o mistério para a claridade. Alcançando este outro que em mim se pensa, para que ele possa, a seu turno, abrir outras perspectivas para o seu tempo. Prevalecem imagens caracterizadas pela justaposição de frases nominais, entremeadas de impressões feitas a partir de associações sonoras e deslizamentos semânticos que se resumem numa palavra: visão. Eta ferro!, disso nem eu nem ninguém sai imune. Ufa! — Quanta confusão! E, para complicar, quando acabar a fanfarra não se voltará à antiga falta de harmonia que nunca existiu.

Unsicherheit = incerteza, insegurança, fraqueza, instabilidade, falta de garantias. Todas estas acepções estão contidas nesta mais que concisa “palavrinha” alemã (que ninguém me pergunte como se pronuncia tamanha concentração de consoantes). Incapazes de conter as marés de insegurança e desamparo diante de tudo, tentamos desesperadamente erguer quebra-mares de ilusões até com palavras. Os alemães também. Tudo para enfrentar a incerteza, a insegurança, a falta de garantias de que se compõe a vida. A esperança é a de que surja algo para barrar a onda de barbarismos que torna a vida humana “imunda, brutal e curta” (como o filósofo inglês Thomas Hobbes — 1588-1679 — descreveu a vida na ausência da ordem civilizada), libertando finalmente os seres humanos dos azares da contingência, e protegendo-os dos golpes do destino, das catástrofes. Daí tanta Unsicherheit a nos incomodar.

Mas não nos iludamos, a natureza está longe de ser domada, submetida à vontade humana. Se as ações humanas tiveram um efeito mais notável sobre a natureza foi o de torná-la ainda mais ameaçadora e menos previsível que antes. Seus golpes continuam a ser incertos, inconstantes, pouco previsíveis, algumas vezes mortais, e talvez sejam ainda mais severos do que no passado. É o que anunciam, pelo menos, os ecólogos. A vida insulta — mas também afaga (ainda bem, felizmente).

Roosevelt Holanda – Jornalista mossoroense que há décadas reside no Rio de Janeiro


 

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