Anotações, auto-reflexões
e Unsicherheit
Roosevelt
de Holanda
De
vez em quando, de modo bastante íntimo, anoto
frases, palavras, pensamentos para depois pensar no que
fazer com minhas anotações. Em geral, liberto-as
nos meus textos. Faço aqui uma mostra disso. Perdura
no mundo um amor radical. Não o amor de liberdade
e autonomia, como o de Sartre e Simone de Beauvoir, mas
um amor como o dos românticos, de tentativa de fusão
e de perseverança. Isto é certo? Qual o melhor?
Não sei. Eu, incorrigível que sou, prefiro
o amor romântico. Só os artistas se dedicam à invenção,
enquanto os demais homens e mulheres restringem suas vidas à rotina
objetiva, às futilidades e ao realismo. Acho que
sou um desses. Alguns
acreditam que amar um escritor é amar o
que ele escreve e que é impossível amar um
escritor se não se ama, também, a sua obra.
Mas há quem prefira pensar que amar um escritor é amar
que ele escreva. Não importa o quê. Importa
que não pare. Conceito aplicável a qualquer
artista. Não há riqueza que não seja
vida e por isso mesmo vivida. Mas o primeiro e primordial
sucesso na vida é ser feliz. Só que, na prosaica
banalidade do mundo, é preciso antes aceitar ser
finito: estar aqui, para depois estar em nenhum outro lugar.
O amor
radical (não confundir com paixão) é a
capacidade de se escapar de si para se instalar em outro
lugar, desmentindo tudo aquilo que se é. É algo
filho da precariedade e do conflito — uma mistura
de conseqüências imprevisíveis. O amor é o
fascínio recíproco de duas pessoas por aquilo
que elas têm de menos dizível, de menos socializável.
O amor, enfim, está além das palavras — e
por isso todo relato (ou conceituação, como
aqui ensaio fazer) de amor se torna, sempre, um pouco ridículo,
já que pretende dizer algo que não pode ser
dito.
Às vezes sinto-me estrangeiro não só em
minha pátria ou em outro qualquer país, mas
dentro de mim mesmo. Pois há muitos em mim — nada
do que é humano me é indiferente. Sou eu
diante de minhas contradições (e anotações).
Parodiando Drummond, em seu “Desdobramento de Adalgisa”,
sinto-me às vezes em tantas direções
que por nenhuma me defino, mas certamente em todas me resumo.
Vivo em permanente aporia.
É do que deixa de ser pintado (ou de pintar) que
o pintor faz surgir a sua pintura. Na pintura, na escultura,
na música e na literatura, ou em qualquer outra
manifestação artística, a arte surge
não do que se acumula, mas do que se descarta. É nas
escolhas que faço e não naquilo que dispenso,
que não aceito e desprezo, que traço o meu
perfil.
Às vezes tento, no idioma em que escrevo, encontrar
uma língua que fale de alma para alma, resumindo
tudo, sons, perfumes, cores, temperaturas, aragens, pensamento
agarrando pensamento e puxando o mistério para a
claridade. Alcançando este outro que em mim se pensa,
para que ele possa, a seu turno, abrir outras perspectivas
para o seu tempo. Prevalecem imagens caracterizadas pela
justaposição de frases nominais, entremeadas
de impressões feitas a partir de associações
sonoras e deslizamentos semânticos que se resumem
numa palavra: visão. Eta ferro!, disso nem eu nem
ninguém sai imune. Ufa! — Quanta confusão!
E, para complicar, quando acabar a fanfarra não
se voltará à antiga falta de harmonia que
nunca existiu.
Unsicherheit
= incerteza, insegurança, fraqueza,
instabilidade, falta de garantias. Todas estas acepções
estão contidas nesta mais que concisa “palavrinha” alemã (que
ninguém me pergunte como se pronuncia tamanha concentração
de consoantes). Incapazes de conter as marés de
insegurança e desamparo diante de tudo, tentamos
desesperadamente erguer quebra-mares de ilusões
até com palavras. Os alemães também.
Tudo para enfrentar a incerteza, a insegurança,
a falta de garantias de que se compõe a vida. A
esperança é a de que surja algo para barrar
a onda de barbarismos que torna a vida humana “imunda,
brutal e curta” (como o filósofo inglês
Thomas Hobbes — 1588-1679 — descreveu a vida
na ausência da ordem civilizada), libertando finalmente
os seres humanos dos azares da contingência, e protegendo-os
dos golpes do destino, das catástrofes. Daí tanta
Unsicherheit a nos incomodar.
Mas
não nos iludamos, a natureza está longe
de ser domada, submetida à vontade humana. Se as
ações humanas tiveram um efeito mais notável
sobre a natureza foi o de torná-la ainda mais ameaçadora
e menos previsível que antes. Seus golpes continuam
a ser incertos, inconstantes, pouco previsíveis,
algumas vezes mortais, e talvez sejam ainda mais severos
do que no passado. É o que anunciam, pelo menos,
os ecólogos. A vida insulta — mas também
afaga (ainda bem, felizmente).
Roosevelt
Holanda – Jornalista mossoroense que há décadas
reside no Rio de Janeiro
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