A ARTE DE CURAR QUE NÃO PODE SER ESQUECIDA.
Nenhuma transformação social significativa tem uma causa única. Observando meus trinta e três anos de experiência médica, percebo que algo muito importante parece estar desaparecendo. Uma tradição de três mil anos, que envolvia médico e paciente no mesmo vínculo de confiança, está sendo substituída por um novo tipo de relacionamento. Os cuidados médicos estão sendo norteados pelo gerenciamento das seguradoras, e a arte de ouvir, substituída pelos processos tecnológicos.
Os médicos já não mais se dedicam aos indivíduos de per si: ocupam-se de suas partes orgânicas, fragmentadas e disfuncionais, Por certo, uma das razões dessa situação é a introdução de tecnologias cada vez mais sofisticadas. Em comparação com as imagens nítidas produzidas pela ultrassonografia, ressonância magnética, tomografia computadorizada, endoscopia e angiografia, o relato do paciente é inseguro, confuso, subjetivo e aparentemente irrelevante.
Além disso, a obtenção de um relato completo leva muito tempo. Segundo alguns médicos, a tecnologia tornou-se sucedâneo da conversa com o paciente. O declínio do respeito ao médico acelera-se ainda mais com a arrogância extraordinária instalada nos estudantes de medicina. A sociedade dá muito mais credito à tecnologia do que ao ouvir e aconselhar. Além de dedicar menos tempo à conversa com o paciente, as atuais práticas médicas se concentram no agudo e no urgente, indiferentes à prevenção da doença e à promoção da saúde. Embora a prevenção seja reconhecida como o método mais custo-efetivo de encarar a doença, ela é completamente negligenciada, por exigir muito tempo.
Nunca a falta de diálogo e atenção foi tão evidente como a que se observa hoje. Nunca foram solicitados tantos exames para um diagnóstico o que gera ansiedade e insegurança do paciente. Não estou aqui afirmando que o avanço tecnológico seja deixado de lado, em absoluto, mas precisa ser melhor estudado para ser interpretado de forma correta para diminuir o volume de exames. O conversar e ouvir mais o paciente nos forçarão a estudar mais e reaprendermos a diagnosticar por meio da arte de ser médico. A anamnese ainda é a mais importante forma de chegarmos a um diagnóstico ou hipóteses diagnósticas, restringindo a quantidade de exames a serem solicitados. Necessitamos sempre nos colocar no lugar do paciente para podermos entender os seus anseios, compartilharmos da dor, entender a família e respeitarmos a sua privacidade. Sim, eu disse respeito a privacidade do paciente.
Essa forma de agir deve ser implementada o mais rápido no meio médico a fim de que o diagnóstico do paciente não se torne motivo de noticiário salvo, desejo do mesmo. Meu intuito aqui é deixar uma mensagem, uma idéia em meio a uma época conturbada onde a forma clássica e correta de praticar a cura e o tratamento da doença vêm sendo substituída pelos métodos de auxilio ao diagnóstico. A prática da medicina com feição humana numa época de involução pessoal para o cárcere do “eumismo “. Não se esqueça doutor, que o médico demonstra suas credenciais de profissional dedicado quando, na primeira visita, ouve atentamente o paciente. Esse método, que exige a convocação de todas as sensibilidades, é o instrumento de diagnóstico mais poderoso do arsenal médico.
Com efeito, aquele que anota cuidadosamente a história médica do paciente consegue diagnóstico correto em setenta por cento dos casos. Isso é muito mais evidente do que todos os exames que dispomos hoje em dia. Talvez os realistas de sangue-frio achem tudo isso uma baboseira romântica, mas nem mesmo o realista pode ser indiferente por muito tempo aos grandes dividendos econômicos. A maneira menos dispendiosa de chegar ao diagnóstico é o médico envolver-se por completo na plena presença humana. O exercício da Medicina é antes de tudo uma “Arte” agregada a difícil decisão de qual seria o melhor exame auxiliar a ser solicitado para somar com os dados obtidos pela anamnese e uma interpretação correta dos exames da bioquímica e imagem para a elucidação diagnóstica. Não podemos deixar que a Ate de Curar seja puramente mecânica.
Dr. Hipólito de Sousa Monte – CRM 2354 –
Cirurgião geral com interesse na área oncológica e digestiva.
Especialização; Massachusetts General Hospital – Universidade Harvard – Boston – Cirurgia geral e Vídeolaparoscopia –
Universidade de Strasbourg – França – Vídeolaroscopia –
Universidade Livre de Berlim – Alemanha – Cirurgia Geral –
Instituto Karolinska – Estocolmo – Suécia – Cirurgia Geral –
Hospital Monte Klinikum – Rua do Líbano, 747, Meireles –
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