Mossoró-RN, de 2005
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JOÃOZINHO

Ele é aquele cidadão que torce pelos amigos e os aplaude. É aquele cara que não compactua com atos de improbidade e a eles aplica a nobre lei do silêncio. É aquele homem que está sempre medindo os seus passos e alertando o próximo para a trilha do caminho justo. É o tipo brincalhão da hora certa e o sempre amigo de todas as horas. É assim que vejo João Marques Neto, “o Joãozinho da Fábrica de Cimento”.

Azougue - Você foi um menino bem presepeiro?

João Marques - Põe presepeiro nisso. Eu me recordo que quando tinha 8 ou 9 anos, mais ou menos em 1958, o Sesi funcionava na rua Souza Machado, próximo à casa em que morávamos. Determinado dia, à noite, ia existir uma exposição de bolos que eram feitos pelas senhoras mestras em culinária, com prêmios para as primeiras colocações. Eu, Judson Barbosa, hoje odontólogo no Estado do Acre, Ronaldo Sólon e Lacerda, este último neto de Zé Rodrigues, no período da tarde nós destravamos as janelas do Sesi e comemos tudo que era de bolo, beliscamos todos eles e ainda fomos para a geladeira pegar refrigerantes. Era alguma coisa em torno de 20 bolos e, além disso, ainda levamos pedaços para as nossas mães. À noite foi uma confusão danada, chamaram a polícia e como éramos 10 irmãos, então tinha que ter um filho de seu Né. Eu, claro, neguei tudo, mas a surra que o meu pai me deu foi grande. Essa é uma das muitas presepadas que aprontei quando menino.

Azougue - Com o tempo veio o período da bola?

João Marques - E que período bonito. Tempo que não se tinha dinheiro, carro nem pensar, quando muito um ou outro tinha uma bicicleta. No tempo da bola, a porta da minha casa ficava quase a noite toda encostada. 10 irmãos e cada um chegando sem nenhum tipo de preocupação. Eu sempre fui ligado em futebol, ia ao estádio Benjamim Constant. Via o Potiguar, Baraúnas, Salinistas e por aí vai. Ainda cheguei a treinar no aspirante do Potiguar, mas o consumo maior era na quadra da ACDP. Tempo extraordinariamente bom. Na turma tinha Hipólito Monte, o Popó, hoje conceituado médico em Fortaleza, o seu irmão Anchieta Costa Lima, Breno, filho de Bibiu Gurgel, Adelino, que se tornou profissional do Treze de Campina Grande, Hélio Cabral, Flávio Barreto, Jacques Vidal, Borjão, Miguel Couto, esse jogava fácil, Ferreira, Francimar Amorim, Genário, Eduardo Marques, Paulinho da Honda, que era muito bom de bola. O briguento da turma era Otílio Barrão, e os pernas-de-pau eram Breno e Sérgio, filhos de seu Dodoca, dono da Sorveteria Mossoró. Se um dia numa mesa esse pessoal estivesse todo reunido, com certeza seria uma alegria marcante para todos.

Azougue - A sua marca é Joãozinho da Fábrica de Cimento?

João Marques - Isso é típico de Mossoró. É Zé Carlos da Disco Fitas, Rafael da Agrotec, Pedrinho da Flama, Joãozinho da Fábrica de Cimento. Olha, quando saiu o primeiro saco de cimento da fábrica eu já estava lá. Eu iniciei na Itapetinga no dia 14 de julho de 1972, na função de notista e um dos funcionários do alto escalão era Carlos Augusto Rosado e o gerente da empresa era o senhor Emerson Azevedo, que terminou como superintendente. Trabalhei com o dr. Carlos Fernandes, que é casado com a filha do saudoso Juca Paiva, e que foi diretor de futebol do Baraúnas, com quem mantenho contato telefônico semanal e que é superintendente da Região Norte. Veja bem, são 33 anos e como tal não dá para fugir dessa marca, até porque ela me honra muito.

Azougue - De notista a gerente administrativo. O caminho foi longo?

Azougue - Eu, como já frisei, comecei extraindo notas fiscais e o senhor Éder Medeiros era o caixa. Ele desligou-se do cargo, sobrando para mim a vaga. Depois, Carlos Augusto Rosado demitiu-se do cargo de assistente administrativo e o convite me foi feito para suprir esse espaço. Passei pelos departamentos de recursos humanos, financeiro, até chegar à gerência administrativa, onde estou há 15 anos. Houve um momento em que um convite me foi feito para eu me transferir para Ribeirão Preto, em São Paulo, eu aceitei, passei alguns dias lá, mas posteriormente entendi que melhor seria ficar em Mossoró.

Azougue - O fim da vida de solteiro acabou quando?

João Marques - Eu conheci a minha esposa, Fátima, na Itapetinga. Ela começou na empresa exatamente no mesmo dia que eu. Ela só passou 3 anos, uma vez que foi aprovada num concurso do Banco do Brasil, indo atuar em Macau. Algumas vezes o namoro acabava, mas logo era reiniciado. No dia 18 de junho de 1977 nós enfrentamos o altar e hoje temos 3 filhos. Lissa Cristina, João Paulo e João Eduardo. O mais novo, de 22 anos, João Eduardo, foi campeão mundial de jiu-jítsu na categoria puma, como faixa azul, título conquistado em 2002, no Rio de Janeiro, e em 2003 tornou-se bicampeão só que na categoria galo, como faixa marrom, também na cidade maravilhosa.

Azougue - A cidade de Mossoró já está no patamar que merece?

João Marques - Ainda não, mas está no caminho certo. Observe que há alguns anos, quando se terminava o científico, a primeira coisa a fazer era uma transferência para Natal, Fortaleza, etc. Nós hoje temos boas faculdades, e só de Direito são 3, cerca de 6 escolas de idiomas, recentemente ganhamos a Faculdade de Medicina. O avanço na área da educação foi muito bom e caminha a passos largos. Houve também uma melhora substancial no que concerne à saúde. Alguns segmentos não acompanham o mesmo ritmo, mas as perspectivas estão bem abertas.

Azougue - Você é emotivo?

João Marques - Joga emotividade nisso. Eu choro até nas cenas tristes das novelas. Sou chorão igual a um menino na ausência da mãe.

Azougue - Os seus amigos lhe caracterizam como um “bem para todos”. Você se vê amigos de todos?

João Marques Neto - Eu aprendi com os meus pais. Éramos 12 irmãos e seu Né e Donana tratavam a todos sem distinção. Eu sou aquele cara que nunca brigou, nunca discutiu com ninguém. Quando percebo que alguém busca em mim a incompatibilidade, eu silencio e simplesmente me afasto.

Azougue - Cite uma pessoa por quem você tem a mais profunda admiração?

João Marques - Uma não, duas. Pela sua capacidade, pela sua inteligência incomum, eu coloco Emerson Azevedo. Um outro cidadão por quem tenho muita afeição, pela forma como se dedica às causas, pela nobreza nas palavras e atos e que tive a honra de conviver dentro da minha casa é Milton Marques de Medeiros.

Azougue - Você falou que nunca discutiu, nunca brigou. Mas tem alguém com quem você não quer conversa sob hipótese alguma?

João Marques - Caby, existe sim e mais de uma. Essas pessoas sabem que já me feriram, só que eu não guardo mágoa. Apenas coloco-as numa poça de isolamento. Há um outro detalhe: se eu não gostar de alguém, eu evito até de citar o seu nome.

Azougue - Foram muitas as pessoas que lhe machucaram?

João Marques Neto - Quando essa entrevista estiver no ar eu estarei completando 56 anos de idade (5 de dezembro) e dizer que existem apenas 5 pessoas com as quais não quero papo, convenhamos que não é um número muito alto.

Azougue - Marido exemplar, manicaca. Como é a parada?

João Marques - Manicaca, nada, de maneira nenhuma. Sou muito eu, sempre falo mais alto. Agora (risos), obediente sim. Se a dona Fátima diz que o chão está sujo eu finjo que não escuto, assobio, canto e mando a vassoura. Limpando-o. Manicaca não (risos novamente), obediente sim.

Azougue - Um dia desagradável?

João Marques - Eu vou falar, apesar de não gostar de lembrar. Às 22h do dia14 de agosto de 2004, Dia dos Pais, o meu filho João Eduardo viajava para Baraúna com dois colegas, Marcelo Rosado e Adriano Cardoso Nogueira, o carro capotou, com Adriano hoje estando com uma perna mais curta que a outra, teve fratura do fêmur, e hoje conta apenas com um rim. O meu filho sofreu uma pancada muito forte na cabeça desmaiando imediatamente. Foi um choque muito grande para todos nós, mas graças a Deus eles estão aí bem vivos.

Azougue - Você acompanha o www.azougue.com desde o seu início, o que significa dizer que foi um prazer tremendo lhe entrevistar.

João Marques - Caby, o que eu lhe digo é muito simples e também muito verdadeiro: Eu gosto de ser seu amigo.

jomarques@mikrocenter.com.br

caby@azougue.com

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