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RICARDO ROSADO
Recordo-me que ele me dizia que eu tinha como características o drible curto de Rivelino, a visão de campo de Gérson, a explosão de Jairzinho, o raciocínio rápido e todas as qualidades que o Pelé tinha. Viajei em um ônibus e ao chegar a Vitória, Espírito Santo, descobri que a minha trouxa (risos) tinha se extraviado. Tendo como companheiros da empreitada Vicente Serejo, Rogério Cadengue, Albimar Furtado, Valdecir Santana. “Ser criticado por um filho da mãe de um chinês, que não entendia absolutamente nada de bola”. Um total de 17 profissionais atua na Faz Propaganda e tenho como sócio um cidadão por demais discretíssimo, que fala cinco idiomas, inclusive japonês. O blog Fator RRH é um recomeço. Uma volta ao exercício diário do jornalismo.
Azougue.com - Traquinagem, bola e estudos, o seu universo na infância?
Ricardo Rosado – Isso mesmo, com um destaque especial para a bola e cheguei à condição de jogador de futebol profissional. Eu ganhei dinheiro tratando bem à gorduchinha. Aqui em Mossoró as peladas eram no Diocesano, num campinho perto da linha do trem, na avenida Rio Branco, e também na rua em que eu morava, Nísia Floresta. E quando nos transferimos para Natal passamos a morar em frente à sede do ABC. Joguei nas categorias infantil, juvenil, adulto, seleção do Colégio Atheneu e em 1972, já no Rio de Janeiro, vesti a camisa do time da empresa Álcalis, recebendo um salário “astronômico”. Eu era ponta esquerda, ou meia, e me lembro que tinha um garotinho, isso em Natal, que até nos treinamentos pedia o meu autógrafo. Acho que ele deve ter juntado uns 300. Recordo-me que ele me dizia que eu tinha como características o drible curto de Rivelino, a visão de campo de Gérson, a explosão de Jairzinho, o raciocínio rápido e todas as qualidades que o Pelé tinha. Não tenho mais visto este fã, colhi apenas notícias de que hoje ele é um dos mais conceituados jornalistas do Brasil e se chama Alex Medeiros (risos).
Azougue.com – Por que a mudança para Natal?
Ricardo Rosado – O meu pai, senhor Doquinha Holanda, tinha apenas 33 anos quando foi abruptamente assassinado, deixando com a dona Ada a criação de seis filhos, e o mais velho, Carlos Álber, tinha 8. Depois vinha a famosa escadinha. A verdade é que meus avós, tios e minha mãe temiam que existisse o ato de revanche, que um de nós buscasse a vingança. Esta preocupação teve como consequência a mudança para Natal. Sabe amigo, logo quando do lançamento da página Do Bumba, neste azougue.com, eu me emocionei ao ver uma foto da minha mãe. Dona Ada, que enviuvou aos 27 anos de idade e na humilde e bonita condição de professora primária de grupo escolar, conseguiu da maneira mais digna possível criar, educar e dar caráter a todos nós. A senhora Ada Rosado foi o que se pode chamar de mãe e pai ao mesmo tempo.
Azougue.com – Em 1972 a viagem para o Rio de Janeiro. Qual o seu objetivo?
Ricardo Rosado – Eu vivia aquela fase confusa, sem saber exatamente o que queria. Eu me via como um rebelde sem causa e olha que pelo princípio da viagem a coisa tendia mais a degringolar. Observe: viajei em um ônibus e ao chegar a Vitória, Espírito Santo, descobri que a minha trouxa (risos) tinha se extraviado. Amigo, passei a noite toda com a roupa do corpo e a minha sorte é que conheci um senhor de nome Tusca, uma espécie de administrador da rodoviária. Resumindo: fiquei uma semana morando em sua casa, recebendo o tratamento de um filho, tendo inclusive me viabilizado um dinheiro para que eu pudesse chegar a Cabo Frio e até hoje (risos) não tenho notícias da minha trouxinha. Passei seis meses no Rio de Janeiro, tendo trabalhado como garçom de uma lanchonete e também como jogador de futebol. Concluí que eu não sabia ainda o que queria, mas tinha a consciência de que sabia o que não queria e aquele universo não me satisfazia, quando resolvi retornar a Natal.
Azougue.com – E aí, Natal em definitivo?
Ricardo Rosado – Sim, e na capital potiguarl eu já havia trabalhado como raspador de tarja na Farmácia Santos Reis, localizada à rua Ulisses Caldas, e olha, amigo, a coisa que eu achava mais difícil do mundo era um cliente encostar no balcão, fazer o seu pedido e o balconista ir direto ao medicamento. Eu ficava me perguntando: “Como é que pode, aqui tem mais de cinco mil caixas de remédios e os funcionários já decoraram tudo?” (risos). Depois foi que tomei conhecimento que era tudo produzido em ordem alfabética. E mais: foi mão-de-obra decifrar a caligrafia dos médicos, mas consegui, foi uma experiência agradabilíssima. Bom, ainda no RJ a minha tia Maria do Carmo me levou para conversar com umas freiras e uma delas me submeteu a uma espécie de teste vocacional e me sugeriu que trilhasse os caminhos do jornalismo. Abracei a ideia, fiz vestibular, fui aprovado, obtendo a quinta colocação, tendo como companheiros da empreitada Vicente Serejo, Rogério Cadengue, Albimar Furtado, Valdecir Santana e mais um bocado de gente boa.
Azougue.com – Após a formatura houve demora para o primeiro emprego?
Ricardo Rosado – Não, até porque quando eu concluí a faculdade, no ano 1977, eu já tinha determinado conceito na área, vez que já havia trabalhado como repórter estagiário na TV Universitária e oficialmente já com o canudo na mão, a minha carteira profissional foi assinada pela primeira vez na Tribuna do Norte.
Azougue.com – Muita concorrência no mercado?
Ricardo Rosado – Nada. As opções eram muito restritas. Existia o Diário de Natal, a Tribuna do Norte, A República buscava o seu ressurgimento na época do governo Cortez Pereira. A mídia impressa era composta por esses três jornais. A única emissora de televisão era a TV U, e nada de rádio FM e essa passagem foi por demais importante, porque eu virei professor universitário, coisa que jamais havia residido em minha mente. Embora já ensinando, tive que fazer o concurso para entrar, fiz mestrado na USP e nesses termos passei 35 anos em sala de aula, conquistando a minha aposentadoria no mês de dezembro passado.
Azougue.com – Em quais órgãos você trabalhou?
Ricardo Rosado – Vamos lá. Diário de Natal, Tribuna do Norte, A República, correspondente de O Globo por cinco anos, Folha de S. Paulo por quatro anos, Rádio Trairi, que depois recebeu a denominação de Tropical, TV Universitária, TV Ponta Negra.
Azougue.com – Nada de aparecer na telinha?
Ricardo Rosado – Aí, amigo velho, a estória é interessante. Veja: na Copa do Mundo de 74, se eu não estou enganado, o comentarista da TV U era o Franklin Machado, que não apareceu para atuar em um jogo do Brasil. Eu estava “fazendo hora em um bar”, esperando o início da partida e de repente me aparece o Rogério Cadengue, dizendo: “Ricardo, o Franklin faltou e você vai ter que comentar”. Para ajudar ao companheiro fui à luta, comentei na telinha tudo e depois partimos para a comemoração num restaurante chinês, na avenida Hermes da Fonseca. Sento-me e lá vem o desgraçado de um chinês, olhando para Cadengue e disparando: “Assisti o programa de vocês, gostei dos comentários, olhou para mim e frisou: ‘mas você fala muito ruim’”. Você já imaginou, Caby, ser criticado por um filho da mãe de um chinês, que não entendia absolutamente nada de bola? Entendi que meu final de carreira ia ser triste, pendurei o microfone e com ele também a telinha (risos).
Azougue.com – Na época muitos amigos, mas qual o grande amigo?
Ricardo Rosado – A minha geração era muito travada. Nós tínhamos na Fundação José Augusto um programa chamado Xeque-Mate, que se transformou na válvula de escape de insatisfação que a cidade tinha em relação ao Governo, a ditadura militar. Obrigatoriamente nós éramos muito formais, mas tinha o lado da molecagem e o grande mestre da turma era o Rogério Cadengue, um cara por demais envolvente, resolvido, metia a cara, era uma liderança e, sem dúvidas, o mais amigo, apesar de aqui, acolá, a gente ter tempo para uma briguinha.
Azougue.com – Como nasceu a Faz Propaganda?
Ricardo Rosado – Em 1985 fui convidado para ser redator da Garra Propaganda, de propriedade de Públio José, depois virei sócio, e em 1987 eu fui procurado por Idalmi, um músico de extraordinárias qualidades, que atuava no grupo Impacto V, e Carlos Rocha que tinham proposta de montar uma agência de publicidade, cujo nome já veio na bagagem. Topei a parada, depois a sociedade foi dissolvida e resolvi tocar o barco. A FAZ Propaganda já atingiu a marca dos 22 anos e com uma seguidora sanguínea que se chama Luanda, minha filha de 27 anos, que é formada em publicidade. Um total de 17 profissionais atua na Faz, e tenho como sócio um cidadão por demais discretíssimo, que fala cinco idiomas, inclusive japonês, respeitado por tudo e todos, de nome Roberto Solino, cuja parceria já soma a idade da Faz.
Azougue.com – Um jornalista que você gosta de ler?
Ricardo Rosado – São muitos. Eu gostava de Canindé Queiroz, infelizmente ele não escreve mais. E cito ainda Vicente Serejo, além daquele que me pedia autógrafos no tempo do Ricardo Rosado, lembrado sempre para a seleção brasileira, Alex Medeiros.
Azougue - O blog www.fatorrrh.com.br tem exatamente o perfil do jornalista Ricardo Rosado?
Ricardo Rosado –O blog Fator RRH é um recomeço, uma volta ao exercício diário do jornalismo.
Nos últimos 22 anos me dediquei ao ensino, cuidei da agência de propaganda e me afastei do jornalismo, com pequenas passagens e comentários em TV, alguns artigos e crônicas publicados. Mas não passou disso. Evidente que o jornalista Ricardo Rosado de Holanda mudou. Mudei, mudou o jornalismo, mudaram as fontes, mudaram os meios e o acesso às informações. Diria que há uma maior democratização da comunicação, maior interatividade entre produtor e receptor e que o tipo de jornalismo praticado por mim nos anos 70 e 80 era completamente diferente. Sou da época da ditadura militar, onde os limites e bloqueios existiam em maior intensidade. Mudou o país, mudou o mundo. O blog é uma tentativa de entrar em sintonia com as mudanças. Só de lembrar que agora vou disputar mercado com todos os ex-alunos com quem convivi em sala de aula durante os últimos 30 anos, já é um desafio e tanto. Ainda estou engatinhando e criei um projeto que tem pelo menos um ano para se solidificar, como um espaço jornalístico amplo, plural, democrático e ético.
Se possível, bem feito.
Vou tentar, do meu jeito.
Azougue.com - O nosso abraço e o agradecimento pela atenção
Ricardo Rosado - Eu sou quem agradeço a atenção do azougue, que é um dos meus sites favoritos e que todos os dias o acesso.
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ricardo@fazpro.com.br
caby@azougue.com
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