|

MANOEL BARRETO FILHO (empresário e desportista)
O seu maior orgulho como desportista é ter dado o primeiro título estadual ao Potiguar e ser denominado pela torcida de “eterno presidente”. Correto nos atos e uma dignidade tremenda quando comenta traições. Carrega no dia-a-dia a marca da humildade e sempre a palavra de incentivo dita aos que buscam aquele lugar merecido, por mais sacrifícios que o caminho a ser percorrido possa apresentar. Do hotel cinco estrelas ao mais pobre dos ambientes, nenhuma mudança de comportamento. Um papo com um dos expoentes da nossa cidade: Manoel Barreto Filho.
Azougue – Uma passagem insólita. Ser filho de um refém de Lampião. Verdade?
Manoel Barreto – Correto. Em 1927 o meu pai tinha 27 anos de idade, e ao sair de uma fazenda com destino a Martins, quando havia percorrido cerca de dois quilômetros, foi surpreendido pelo grupo de Virgulino Lampião que pediu quatro contos de réis para liberá-lo. Ele não tinha esse dinheiro e passou a fazer parte da turma que esteve no mês de junho em Mossoró, inclusive, o responsável pela sua guarda era o Colchete, que foi morto aqui. No vizinho estado do Ceará, o meu pai, senhor Manoel Barreto Leite, se mostrava diferente dos demais e ao chegar na cidade de Limoeiro do Norte foi apresentado ao padre Manoel Lucena, que tomou conhecimento da situação e o ajudou na libertação. Argumentou ao rei do cangaço que não existia condição do pagamento do resgate. O meu pai por muitas vezes disse que Lampião era um cara educado e que sempre o tratou muito bem. Aproximadamente um mês depois ele retornou a Martins.
Azougue - Como se deu a vinda para Mossoró?
Manoel Barreto – Em Martins só existia o quinto ano primário e como papai mantinha relações comerciais com membros dos grupos Alfredo e Tertuliano Fernandes, ele juntou a fome com a vontade de comer e exatamente no dia 7 de abril de 1954 nós chegamos a Mossoró, com o detalhe de que a minha irmã Ezilda já era interna no Colégio das Irmãs. Aos 14 anos assumi o meu primeiro emprego no Armazém Caxias, ao mesmo tempo em que estudava na Escola Técnica de Comércio União Caixeiral.
Azougue – Uma das suas grandes marcas é a empresa Almeida Aires?
Manoel Barreto – Da qual tenho o maior dos orgulhos. Eu já tinha 17 anos e recebi convite do senhor Cleodon Almeida para infiltrar-me no ramo de peças de carro, isso em 1957. Tempos depois tornei-me genro do seu Cleodon, permanecendo na empresa até o último dia de sua existência, que se deu no ano 1995. Em meio a esse período, ao lado do meu irmão, Flávio Barreto, abri a Transportadora São Cristóvão, cujo segmento era o transporte exclusivo de combustíveis. Tempos depois passamos a desenvolver trabalho para a Petrobras, cuja parceria sobreviveu 17 anos.
Azougue – A São Cristóvão era considerada uma empresa de muito conceito, geradora de um número elevado de empregos. Certo?
Manoel Barreto – Corretíssimo. Nós atuávamos no Ceará, Rio Grande do Norte e Maceió. Chegamos a contar com uma frota de cerca de 250 carros e em determinados períodos tínhamos mais de 700 funcionários.
Azougue – Na política o seu nome sempre esteve em cena, porém nenhuma candidatura aconteceu? Por quê?
Manoel Barreto – Como empresário e presidente de clube, por quatro vezes à frente da ACDP, é natural ser foco da mídia e não obstante isso as minhas sempre boas relações com os políticos, cuja fonte original chamava-se aquele a quem sempre considerei a maior expressão desta terra, Vingt Rosado. Acertos do bloco de Vingt me indicavam candidato a deputado estadual, com Laíre, já deputado, sendo o candidato a prefeito. Laíre não obteve sucesso na sua candidatura e logo em seguida Geraldo Melo, apoiado por todos os liderados de Vingt, foi eleito governador. Essa era a situação: Eu e Frederico Rosado candidatos a deputado estadual e depois me foi apresentada a argumentação de que Laíre necessitava de mais candidatos a deputado estadual para que somassem à sua candidatura a deputado federal. Eu não aceitei a situação e me desliguei do grupo, existindo então a minha primeira desistência e o desligamento do PMDB.
Azougue – A partir daí, o que houve?
Manoel Barreto – Pouco tempo depois eu recebi um convite do presidente municipal do PFL, Carlos Augusto, marido da então prefeita Rosalba Ciarlini. Filiei-me ao partido, com quatro nomes colocados para a vaga de prefeito nas eleições seguintes. Eu, Luiz Pinto, Rútilo Coelho e Dehuel Vieira Diniz. Quem estivesse à frente nas pesquisas seria o indicado e até então eu ostentava a melhor colocação através da opinião pública. Fui chamado por Carlos Augusto, que me disse ser Luiz Pinto a bola da vez, já que tinha a condição de vice-prefeito e restrições eram feitas ao meu nome, exatamente por ter pertencido ao PMDB. Falei que tinha vindo para somar e concordei com a situação. Aí ele argumentou que o vice seria escolhido através de uma nova pesquisa, que me mostrava a condição de primeiro colocado vindo em segundo João Batista Xavier, depois Dehuel e em quarto Rútilo Coelho. Disse-me que o partido precisava de alguém da esquerda e em função disso o melhor nome seria o de João Batista Xavier. Perguntou-me: “Você topa abrir mão dessa candidatura e fazer uma dobradinha comigo nas eleições seguintes. Eu saio para federal e você para estadual?”. Aceitei o que me foi apresentado Um dia antes da convenção para a escolha dos candidatos do PFL, recebi a visita de Carlos Augusto que informou ser Mário Rosado, filho de Dix-huit, e não ele o candidato a deputado federal e falou: “Se você quiser o candidato a estadual é você, não eu”. Abri mão e mais uma vez as minhas aspirações tiveram que ser adiadas. A minha possível terceira entrada deixou de existir em função de Carlos ter adoecido. Rosalba seria a candidata a federal e eu iria dividir os votos para estadual com Betinho Rosado. Uma reunião definitiva ficou programada com Betinho, fui a Natal só que ele não foi. Passei dois meses tentando o contato com ele e não consegui. Vi que o tapete me foi puxado e pulei fora. Aí depois tudo mudou, com Rosalba saindo para vice-governadora, Betinho para federal e novamente me abriram o espaço, existindo até um telefonema do a época governador José Agripino. Não dava mais (risos), realmente não dava. O ponto final foi dado naquele momento. Agora eu pretendo um dia ser candidato, quando (novo riso) é que eu não sei.
Azougue – E a paixão pelo Potiguar?
Manoel Barreto – Essa é eterna e cheia de glórias e a maior delas foi ter sido campeão estadual em 2004, quando do meu quarto mandato de presidente. É aquele lance em que tudo, absolutamente tudo, até o erro termina em acerto. Nós não fizemos contratações vultosas, até pelos nossos limites financeiros. Veja, a maior emoção que eu tive na minha vida foi quando chegamos de Natal, ao grande Alto de São Manoel, e vi aquela multidão, sem nenhuma facção política, todos irmanados. Confesso que deu um entalo na garganta e as lágrimas desceram. Nem em comício em vi tamanha multidão.
Azougue – Qual a maior tristeza como desportista?
Manoel Barreto – Olha, aqui no meu condomínio tem um cara de nome Lucivan Praxedes, que é gente de primeira qualidade. Agora, como torcedor é choco e põe choco nisso. Também não poderia ser diferente, pois não só torce pelo Flamengo, como também pelo Baraúnas (risos). Determinado dia, num clássico Potiguar x Baraúnas, fizemos uma aposta na qual o perdedor usaria a camisa do time vitorioso. Pois é, deu Baraúnas. Eu embromei o quanto pude para ver se ele se esquecia. Tava caminhando tudo bem, até que mais ou menos dois meses depois chega ele, acompanhado de Vilmar Pereira, ex-presidente do Potiguar. Começamos a tomar umas e outras, ele saiu furtivamente para casa, trouxe a camisa tricolor e, com aquele famoso, sem eira nem beira mandou ver: “Você pensou que eu havia me esquecido. Chegou a hora de honrar a dívida”. Eu ainda tentei enganá-lo, mas não teve jeito. Vesti a camisa e olha (risada disparada), até hoje eu sinto uma coceira danada. Mas, um dia, um dia ele me paga.
caby@azougue.com
|