Mossoró-RN, de 2005
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Flávio: sempre o conheci atrás de um balcão. Arrendando o Travessia você deixou triste o seu amigo Borjão. (Ricardo Borges).

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Comecei a conviver com Flávio na escola primária de Maria Gurgel, onde também ensinava a sua irmã Elza. Depois de concluir os estudos voltei a Mossoró e encontrei-o como dono de restaurante, com as mesmas características de criança simpática. Sempre com um dedo de prosa, costumava visitar as mesas dos clientes, onde o respeito imperava. No Travessia, enxerguei os melhores pratos e em Flávio uma pessoa que todos gostam. (Laíre Rosado).

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Flávio Gurgel é um dos mais dignos cartões de créditos intitulados de “bom amigo” da terrinha Mossoró. (Evandro Praxedes)

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Flávio Gurgel, com a identidade que sempre guardou com o público mossoroense, se mostrou ao longo do tempo um notívago inveterado. E isso, se foi bom para o Flávio, foi melhor ainda para nossa cidade, pois lhe possibilitou a passagem por tantas e tão boas casas noturnas e restaurantes mais famosos de Mossoró. Ele tem marcado época. Já deixou o seu nome assinalado na constelação dos grandes restauranteurs da história mossoroense, por último com o seu inolvidável “Travessia”. (Emery Costa)

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Flávio,
Um homem comum, dando o melhor de si para cumprir sua missão de pai afetivo, de companheiro amoroso, de amigo fiel, de homem íntegro... Que consegue através do amor que tem no espírito, na alma, ser feliz do seu jeito e transferir essa felicidade através da sua tão peculiar forma de nos fazer sorrir. Agradecemos a Deus por tê-lo ao nosso lado, nos orgulhamos e o amamos muito por ser quem ele é, um homem comum!!!!
(Maria Augusta, Ana Katarina, Patrícia Cristina)

Azougue – Com 17 de idade já atrás de um balcão servindo comida?

Flávio Gurgel – Só que um pouco antes eu fazia a entrega de queijo, manteiga, de casa em casa, na cidade de Caraúbas. Eu trabalhava na fazenda do meu avô, que ficava distante do município, algo em torno de 11 quilômetros. Em Mossoró, por volta de 1957, meu pai era arrendatário do famoso Pavilhão Vitória e com o seu prematuro falecimento, em 1961, fui nomeado por minha mãe o “cabeça” da família, que somava 11 irmãos. Alugamos uma lanchonete, denominada de Brasil, por trás hoje da Casa Porcino. Foi uma parada muito difícil, me transferindo depois para o Clube Ipiranga e por aí vai.

Azougue – Dava para conciliar trabalho com estudos?

Flávio Gurgel – Não é que desse. Tinha que dar. Meus pais sempre abriram os nossos olhos com relação à cultura. A vaca podia tossir, mas tempo tinha que existir para os estudos. Comecei o bê-á-bá com a minha tia Maria e alguns colegas de classe, tipo Laíre Rosado, Raimundo Júnior, Kerenski Monte, Kátia Monte, entre outros. O nome da escola era Jesus Maria José e ficava situada à rua Coronel Gurgel. O tempo passou e fiz o curso básico de contabilidade na União Caixeiral.

Azougue – Primeiro canudinho na mão e aí?

Flávio Gurgel – Como falei anteriormente, veio o Clube Ipiranga, passei por lá vários carnavais, com clientes sempre marcantes, tipo João Fernandes, Aldemir Fernandes, Leodécio Néo, enfim uma gama de gente boa. Fui para a churrascaria O Sujeito, depois ACDP, retornei ao Sujeito na época com o nome de USE.

Flávio Gurgel – Tempo bom aquele?

Flávio Gurgel – Demais, Caby. Era trabalho, muito trabalho, associado à diversão, com o olho sempre no estudo, tanto é que me formei em economia na URRN, hoje UERN.

Azougue - Vamos puxar para a atualidade, seguindo no universo de restaurantes. Quais as outras empreitadas?

Flávio Gurgel – Eu já era casado com dona Maria Augusta e construí em sociedade com o meu cunhado Carlinhos, o Flavio’s, e paralelo a isso, fornecia alimentação à Petrobras me vendo obrigado a passar um período de aproximadamente 1 ano na cidade de Chã de Pila, em Alagoas, e também em Aracaju. Retornei e num acordo com Carlinhos, transformei a minha cota da empresa, em aluguel, passando a arrendar o Laçador.

Azougue - Como nasceu a sua grande marca? O restaurante Travessia.

Flávio Gurgel – Eu comecei a construí-lo em 1988 e somente no dia 10 de maio de 1992 foi que promovi a sua inauguração, permanecendo até o último dia do mês de maio, quando resolvi pendurar os pratos, talheres e etc.

Azougue – Muitos sabores e também dissabores?

Flávio Gurgel – Olha, Caby, eu vou falar sério. Posso? (nova e grande risada). Muitos sabores. É muito bom você conviver com gente saudável, de caráter admirável. Nesse item eu lhe digo que sinto uma grande saudade, principalmente das domingueiras, quando rolava de tudo que era bom. Mas, nada me impede de agora buscar o reencontro com os amigos tipo Anchieta Fernandes, Pedro Almeida, Miguel Barra, Barreto, Paulinho da Honda, Noguchi, você e tantos outros. Aliás, os que não foram citados que me perdoem, pois são tantos que fica difícil enumerá-los e fazer as devidas citações.

Azougue – As más línguas falam que os “órfãos do Travessia” estão fazendo fila para lhe processar?

Flávio Gurgel – É. Eu já soube disso. Tem até processo vindo de Fortaleza do Borjão. Agora, eu já fui intimado para uma audiência com o pessoal do sal, que se reunia para a carneirada das quartas-feiras. Acho que vai ter acordo. Eu vou propor a Evandro, Lucivan e Luciano Praxedes e mais José Joaquim o seguinte: de ano em ano eu mando um carneiro assado para eles e semanalmente um pacotinho de algodão doce, e como sobremesa 3 alfenins. Lembro: 3 alfenins para cada um. Tá vendo aí, como eu sou mão aberta (risos).

Azougue – Conte-me pelo menos um lance acontecido no Travessia, que ficará para a posteridade.

Flávio Gurgel – Esse foi de lascar. Veja: por volta das 22h, chegou um cara e pediu uma caipirinha. Pouco tempo depois só tinha ele de cliente, aliás, taxá-lo de cliente é massacrar aquelas pessoas que sempre estavam por lá. Pois bem: lá para a meia-noite, ele me pediu a segunda caipirinha. Eu disse: “Gente boa, não dá mais para lhe atender. Eu estou fechando o restaurante”. Ele, com cara de zangado, disse, eu posso pagar os 2 reais no cartão? Caby, se ele pensou que ia me sacanear saiu ferrado. Deixei-lhe uma marca. Processei o pagamento no cartão em 4 parcelas de 0,50 centavos. Olha, até o mês de setembro ele vai se lembrar de mim. Isso é para ele deixar de ser besta.


Azougue – Como é ser casado há 37 anos e nunca ter brigado com a mulher? Dá pra explicar?

Flávio Gurgel – Você sabe que eu entendo muito de tática de futebol (risos). Eu já falei para minha grande e eterna patroa, Maria Augusta, que ela deveria também ver mais futebol na TV. Olha, Caby (novo riso), tem o ataque, não tem? Tem a defesa. Certo? Eu não ataco. Maria, às vezes briga e eu naturalmente me defendo e ela, por sua vez, diz que eu brigo. Vou te confidenciar um segredo: Tô tomando banho e ela chega de mansinho: “Flávio, hoje é o aniversario da nossa filha Ana Katarina. Tudo bem. Troquei de roupa e fui até a cama de Patrícia, nossa filha mais nova, e disse: “E aí baixinha, parabéns pelo aniversário”. Olha, só porque eu troquei os parabéns, ela brigou e ainda briga até hoje. Vou te confidenciar outro segredo: “Eu acho que quando ela estiver lendo esta entrevista vai ter briga de novo e se você estiver presente perceberá que eu não brigo, apenas me defendo”. Só isso e nada mais que isso. (Mais risada).

Azougue – Pelo visto você gosta muito de futebol. Costuma ir ao estádio?

Flávio Gurgel – Aí entra aquela velha estória: mais ou menos. Eu fui uma vez ao velho estádio Benjamim Constant e me lembro que nesse dia morreu um jogador. Eu não sei se o apelido dele era Cabeça ou Pescoço, eu sei bem que ele era marchante ou então o seu pai é quem era. Ao Nogueirão eu fui na inauguração. Menino, quando eu vi aquele bicho grande, eu senti foi medo. Demorei pouco, Caby, eu tive um medo danado de me perder. Você também é testemunha que eu não perco um jogo do Brasil na Copa do Mundo, às vezes eu nem sei quem é o seu adversário, mas eu tô lá, ligadão. Tem mais, vez por outra passo em frente ao estádio, portanto sou o desportista mais ou menos, ou menos risos)... ou mais.

Obs) – Consultei Geraldino Felipe, que me informou ter morrido um torcedor e não jogador, que era apelidado de Zé Cabeça, num jogo entre Baraúnas x Salinista, no ano 1963.


Azougue – Ninguém lhe viu com raiva. Qual o segredo desse equilíbrio?

Flávio Gurgel – Em primeiro lugar creio muito em Deus e essa fé sempre me levou a acreditar que não existe problema sem solução. Se hoje, aquilo que estava programado não deu certo, certamente amanhã dará. Não busco criar obstáculos, mas nunca deixei de entender que eles poderão surgir a qualquer momento. Eu sou um cara que chora sem reclamar e que rir sem se entusiasmar. Meu amigo Caby, A maioria das pessoas aprendeu a ter paciência. Mas, uma coisa é você ter paciência e outra é você saber administrá-la.

Azougue – Obrigado pela entrevista.

Flávio Gurgel – Caby, eu posso lhe fazer duas perguntas?

Azougue – Claro, fique à vontade.

Flávio Gurgel – O que é que eu devo fazer com aqueles vales que você assinou? Você já arranjou algum doido igual a mim que lhe venda campari fiado?

Azougue – A entrevista movida a dois por um tubo de campari foi encerrada.

Flavio Gurgel – (e-mail-.phatgurgel@ig.com.br)

caby@azougue.com.

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