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Flávio:
sempre o conheci atrás de um balcão. Arrendando
o Travessia você deixou triste o seu amigo Borjão.
(Ricardo Borges).
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Comecei a conviver com Flávio na escola primária
de Maria Gurgel, onde também ensinava a sua irmã
Elza. Depois de concluir os estudos voltei a Mossoró
e encontrei-o como dono de restaurante, com as mesmas características
de criança simpática. Sempre com um dedo de prosa,
costumava visitar as mesas dos clientes, onde o respeito imperava.
No Travessia, enxerguei os melhores pratos e em Flávio
uma pessoa que todos gostam. (Laíre Rosado).
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Flávio
Gurgel é um dos mais dignos cartões de créditos
intitulados de “bom amigo” da terrinha Mossoró.
(Evandro Praxedes)
...
Flávio Gurgel, com a identidade que sempre guardou com
o público mossoroense, se mostrou ao longo do tempo um
notívago inveterado. E isso, se foi bom para o Flávio,
foi melhor ainda para nossa cidade, pois lhe possibilitou a
passagem por tantas e tão boas casas noturnas e restaurantes
mais famosos de Mossoró. Ele tem marcado época.
Já deixou o seu nome assinalado na constelação
dos grandes restauranteurs da história mossoroense, por
último com o seu inolvidável “Travessia”.
(Emery Costa)
...
Flávio,
Um homem comum, dando o melhor de si para cumprir sua missão
de pai afetivo, de companheiro amoroso, de amigo fiel, de homem
íntegro... Que consegue através do amor que tem
no espírito, na alma, ser feliz do seu jeito e transferir
essa felicidade através da sua tão peculiar forma
de nos fazer sorrir. Agradecemos a Deus por tê-lo ao nosso
lado, nos orgulhamos e o amamos muito por ser quem ele é,
um homem comum!!!!
(Maria Augusta, Ana Katarina, Patrícia Cristina)
Azougue
– Com 17 de idade já atrás de um balcão
servindo comida?
Flávio
Gurgel
– Só que um pouco antes eu fazia a entrega de queijo,
manteiga, de casa em casa, na cidade de Caraúbas. Eu
trabalhava na fazenda do meu avô, que ficava distante
do município, algo em torno de 11 quilômetros.
Em Mossoró, por volta de 1957, meu pai era arrendatário
do famoso Pavilhão Vitória e com o seu prematuro
falecimento, em 1961, fui nomeado por minha mãe o “cabeça”
da família, que somava 11 irmãos. Alugamos uma
lanchonete, denominada de Brasil, por trás hoje da Casa
Porcino. Foi uma parada muito difícil, me transferindo
depois para o Clube Ipiranga e por aí vai.
Azougue
– Dava para conciliar trabalho com estudos?
Flávio
Gurgel
– Não é que desse. Tinha que dar. Meus pais
sempre abriram os nossos olhos com relação à
cultura. A vaca podia tossir, mas tempo tinha que existir para
os estudos. Comecei o bê-á-bá com a minha
tia Maria e alguns colegas de classe, tipo Laíre Rosado,
Raimundo Júnior, Kerenski Monte, Kátia Monte,
entre outros. O nome da escola era Jesus Maria José e
ficava situada à rua Coronel Gurgel. O tempo passou e
fiz o curso básico de contabilidade na União Caixeiral.
Azougue
– Primeiro canudinho na mão e aí?
Flávio
Gurgel
– Como falei anteriormente, veio o Clube Ipiranga, passei
por lá vários carnavais, com clientes sempre marcantes,
tipo João Fernandes, Aldemir Fernandes, Leodécio
Néo, enfim uma gama de gente boa. Fui para a churrascaria
O Sujeito, depois ACDP, retornei ao Sujeito na época
com o nome de USE.
Flávio
Gurgel – Tempo bom aquele?
Flávio
Gurgel
– Demais, Caby. Era trabalho, muito trabalho, associado
à diversão, com o olho sempre no estudo, tanto
é que me formei em economia na URRN, hoje UERN.
Azougue
- Vamos puxar para a atualidade, seguindo no universo de restaurantes.
Quais as outras empreitadas?
Flávio
Gurgel
– Eu já era casado com dona Maria Augusta e construí
em sociedade com o meu cunhado Carlinhos, o Flavio’s,
e paralelo a isso, fornecia alimentação à
Petrobras me vendo obrigado a passar um período de aproximadamente
1 ano na cidade de Chã de Pila, em Alagoas, e também
em Aracaju. Retornei e num acordo com Carlinhos, transformei
a minha cota da empresa, em aluguel, passando a arrendar o Laçador.
Azougue
- Como nasceu a sua grande marca? O restaurante Travessia.
Flávio
Gurgel
– Eu comecei a construí-lo em 1988 e somente no
dia 10 de maio de 1992 foi que promovi a sua inauguração,
permanecendo até o último dia do mês de
maio, quando resolvi pendurar os pratos, talheres e etc.
Azougue
– Muitos sabores e também dissabores?
Flávio
Gurgel
– Olha, Caby, eu vou falar sério. Posso? (nova
e grande risada). Muitos sabores. É muito bom você
conviver com gente saudável, de caráter admirável.
Nesse item eu lhe digo que sinto uma grande saudade, principalmente
das domingueiras, quando rolava de tudo que era bom. Mas, nada
me impede de agora buscar o reencontro com os amigos tipo Anchieta
Fernandes, Pedro Almeida, Miguel Barra, Barreto, Paulinho da
Honda, Noguchi, você e tantos outros. Aliás, os
que não foram citados que me perdoem, pois são
tantos que fica difícil enumerá-los e fazer as
devidas citações.
Azougue
– As más línguas falam que os “órfãos
do Travessia” estão fazendo fila para lhe processar?
Flávio
Gurgel
– É. Eu já soube disso. Tem até processo
vindo de Fortaleza do Borjão. Agora, eu já fui
intimado para uma audiência com o pessoal do sal, que
se reunia para a carneirada das quartas-feiras. Acho que vai
ter acordo. Eu vou propor a Evandro, Lucivan e Luciano Praxedes
e mais José Joaquim o seguinte: de ano em ano eu mando
um carneiro assado para eles e semanalmente um pacotinho de
algodão doce, e como sobremesa 3 alfenins. Lembro: 3
alfenins para cada um. Tá vendo aí, como eu sou
mão aberta (risos).
Azougue
– Conte-me pelo menos um lance acontecido no Travessia,
que ficará para a posteridade.
Flávio
Gurgel
– Esse foi de lascar. Veja: por volta das 22h, chegou
um cara e pediu uma caipirinha. Pouco tempo depois só
tinha ele de cliente, aliás, taxá-lo de cliente
é massacrar aquelas pessoas que sempre estavam por lá.
Pois bem: lá para a meia-noite, ele me pediu a segunda
caipirinha. Eu disse: “Gente boa, não dá
mais para lhe atender. Eu estou fechando o restaurante”.
Ele, com cara de zangado, disse, eu posso pagar os 2 reais no
cartão? Caby, se ele pensou que ia me sacanear saiu ferrado.
Deixei-lhe uma marca. Processei o pagamento no cartão
em 4 parcelas de 0,50 centavos. Olha, até o mês
de setembro ele vai se lembrar de mim. Isso é para ele
deixar de ser besta.
Azougue – Como é ser casado há 37
anos e nunca ter brigado com a mulher? Dá pra explicar?
Flávio
Gurgel
– Você sabe que eu entendo muito de tática
de futebol (risos). Eu já falei para minha grande e eterna
patroa, Maria Augusta, que ela deveria também ver mais
futebol na TV. Olha, Caby (novo riso), tem o ataque, não
tem? Tem a defesa. Certo? Eu não ataco. Maria, às
vezes briga e eu naturalmente me defendo e ela, por sua vez,
diz que eu brigo. Vou te confidenciar um segredo: Tô tomando
banho e ela chega de mansinho: “Flávio, hoje é
o aniversario da nossa filha Ana Katarina. Tudo bem. Troquei
de roupa e fui até a cama de Patrícia, nossa filha
mais nova, e disse: “E aí baixinha, parabéns
pelo aniversário”. Olha, só porque eu troquei
os parabéns, ela brigou e ainda briga até hoje.
Vou te confidenciar outro segredo: “Eu acho que quando
ela estiver lendo esta entrevista vai ter briga de novo e se
você estiver presente perceberá que eu não
brigo, apenas me defendo”. Só isso e nada mais
que isso. (Mais risada).
Azougue
– Pelo visto você gosta muito de futebol. Costuma
ir ao estádio?
Flávio
Gurgel
– Aí entra aquela velha estória: mais ou
menos. Eu fui uma vez ao velho estádio Benjamim Constant
e me lembro que nesse dia morreu um jogador. Eu não sei
se o apelido dele era Cabeça ou Pescoço, eu sei
bem que ele era marchante ou então o seu pai é
quem era. Ao Nogueirão eu fui na inauguração.
Menino, quando eu vi aquele bicho grande, eu senti foi medo.
Demorei pouco, Caby, eu tive um medo danado de me perder. Você
também é testemunha que eu não perco um
jogo do Brasil na Copa do Mundo, às vezes eu nem sei
quem é o seu adversário, mas eu tô lá,
ligadão. Tem mais, vez por outra passo em frente ao estádio,
portanto sou o desportista mais ou menos, ou menos risos)...
ou mais.
Obs)
– Consultei Geraldino Felipe, que me informou ter morrido
um torcedor e não jogador, que era apelidado de Zé
Cabeça, num jogo entre Baraúnas x Salinista, no
ano 1963.
Azougue – Ninguém lhe viu com raiva. Qual
o segredo desse equilíbrio?
Flávio
Gurgel
– Em primeiro lugar creio muito em Deus e essa fé
sempre me levou a acreditar que não existe problema sem
solução. Se hoje, aquilo que estava programado
não deu certo, certamente amanhã dará.
Não busco criar obstáculos, mas nunca deixei de
entender que eles poderão surgir a qualquer momento.
Eu sou um cara que chora sem reclamar e que rir sem se entusiasmar.
Meu amigo Caby, A maioria das pessoas aprendeu a ter paciência.
Mas, uma coisa é você ter paciência e outra
é você saber administrá-la.
Azougue
– Obrigado pela entrevista.
Flávio
Gurgel
– Caby, eu posso lhe fazer duas perguntas?
Azougue
– Claro, fique à vontade.
Flávio
Gurgel
– O que é que eu devo fazer com aqueles vales que
você assinou? Você já arranjou algum doido
igual a mim que lhe venda campari fiado?
Azougue
– A entrevista movida a dois por um tubo de campari foi
encerrada.
Flavio
Gurgel
– (e-mail-.phatgurgel@ig.com.br)
caby@azougue.com.
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