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ASSIS
DA USIBRAS
Chamá-lo
de trabalhador incansável é no mínimo um
ato de justiça, defini-lo como exemplo de um bom filho
não é fazer-lhe nenhum favor. Os caminhos das
vitórias buscados ante as vicissitudes sempre encontradas
e honestamente percorridas fazem de Francisco de Assis Silva,
“Assis da Usibras”, um grande vencedor. Caracterizo-o
como um homem que constantemente está “vivendo,
deixando viver e aprendendo a viver”. O Mossoroense, em
parceria com o site www.azougue.com, lhe propicia a condição
de um conhecimento melhor sobre Assis da Usibras.
Azougue
– A condição de eterno trabalhador se deve
ao fato de você ter nascido exatamente no Dia do Trabalho,
1º de maio?
Assis – (riso esboçado) Não,
na verdade essa condição herdei do meu pai. Porém,
pode aí existir uma coincidência, já que
uma data muitas vezes fala mais alto. Veja, eu nasci no primeiro
dia de maio de 1944 e aos 5 anos de idade fui para Itaú,
tendo chegado em Mossoró quando completei 10 anos, me
tornando aluno interno no Colégio dos Padres, onde hoje
funciona o Banco do Brasil, depois retornei a Itaú e
em 1958, mais uma vez, vim para Mossoró, agora como semi-interno
do mesmo colégio e no ano seguinte os meus pais vieram
em definitivo para a nossa Mossoró. Concluí o
ginásio e neste período o meu pai comprou um posto
de combustíveis que tinha o nome de ESSO e aí,
sim, eu comecei a batalha da vida, aos 16 anos de idade. O negócio
era o seguinte: ou você trabalhava ou estudava. Não
dava para conciliar as duas coisas. Eu busquei a primeira opção,
porém em Itaú, por volta de 1954, eu já
carregava água em oito latinhas partidas ao meio. Abastecia
a minha casa e servia outras residências, ganhando com
isso algum dinheiro. Depois chegou a era do jumento e parei
mais de desenvolver a força física. A sina pelo
trabalho teve como espelho o senhor Otávio Ferreira da
Silva, meu pai, um incansável batalhador.
Azougue
– Toda criança geralmente gosta de futebol.
Isso não aconteceu com você?
Assis– De certa forma sim, porém
se eu tivesse que sobreviver como jogador pode ter certeza que
já teria morrido de fome (risos). Com 18, 20 anos, participei
de peladas no campo do Tião, tendo as agradáveis
companhias do já falecido, Clóvis Marques, Pedrinho
da Flama, Lupércio Luiz, Edmilson Rodrigues de Paula,
Amadeu Vale, enfim uma gama de gente boa.
Azougue
– De administrador a proprietário de posto.
E depois?
Assis– Eu era solteiro e morava com os
meus pais e não me via como dirigente maior daquele segmento.
Paralelamente eu comprava castanha e quando completei 30 anos
falei para o seu Otávio que ia cuidar da minha vida,
ele contra-argumentou que o posto era meu, pois quem tinha segurado
a barra e pago a empresa tinha sido eu. As minhas atenções
já tinham se mirado ao universo comercial da castanha
e também negociava com carros. Hoje nós contamos
com uma rede de 8 postos de combustíveis, sendo 6 em
Mossoró, 1 em Areia Branca, e 1 em Baraúna.
Azougue
– O leque empresarial continuou sendo ampliado?
Assis– É verdade. Passamos a atuar
no ramo de transportes de combustíveis, firmamos contrato
com a Petrobras para o deslocamento de cargas. Neste período
eu vi que uma fábrica de castanha seria viável,
mesmo me faltando conhecimento necessário do assunto.
Com a idéia já fixa, propus uma sociedade ao empresário
Edmur Rosado, um amigo de infância, cujo relacionamento
sempre foi o melhor possível. A resposta foi positiva,
nascendo então a Usibras, sendo que 7 anos depois ele
me ofereceu a compra das suas ações que totalizavam
50%. Na época eu não dispunha do montante e busquei
uma parceria com o empresário cearense Luiz Cidrão
que, por sua vez, topou a parada e ocupou o espaço então
do Edmur. Por coincidência, passados mais 7 anos fiz uma
proposta que foi aceita pelo meu parceiro e tornei-me absoluto
na Usibras.
Azougue – Quantos empregos são gerados
pela Usibras?
Assis
– Hoje bem menos que a fase inicial e esse é
o efeito da tecnologia. Na época da sociedade com Edmur,
o corte era manual e com o advento do corte mecanizado o número
foi reduzido. Se hoje a indústria tivesse o mesmo perfil
da fase inicial, teríamos algo em torno de 5 mil empregos,
isso nas 2 fábricas, Mossoró e Fortaleza. No nosso
universo, somos a 2ª maior do Brasil, com uma grande proximidade
da 1ª, o que creio deverá ocorrer em 2008. A que
ocupa a primeira posição pertence a um grupo inglês
que tem o nome de Iracema e sede em Fortaleza. A Usibras tem
hoje 1.600 funcionários, sendo 850 em Mossoró
e 750 em Fortaleza.
Azougue
– Além da Usibras, postos de combustíveis,
o que mais compõe seu complexo empresarial?
Assis
– Transportes, factoring com agências em
Mossoró, Natal, João Pessoa e Recife, distribuidora
de combustíveis em João Pessoa, Mossoró,
distribuição de gás Butano em boa parte
do interior potiguar, uma empresa nos Estados Unidos ligada
a área de amêndoas, a All Nat, uma construtora
em Fortaleza, denominada de Usibrás Empreendimentos e
Construções Ltda. Em visita à França
eu comprei um ultraleve e depois comprei a fábrica, trazendo-a
para Fortaleza, que fabrica 4 tipos de aviões, inclusive
o da marca fascionacion, e um deles era pilotado por Herbert
Viana, do grupo Paralamas do Sucesso, quando, infelizmente,
houve o registro do seu grave acidente. Sobre a última
empresa citada, eu estou ultimando o fechamento das suas portas.
Azougue
– O seu complexo conta com quantos funcionários?
Assis – As minhas empresas geram algo
em torno de 2.100 empregos diretos.
Azougue
– De maneira unânime você é apontado
como o mais rico de Mossoró. Essa colocação
te chateia?
Assis
– Não, chateação nenhuma
na forma como me vêem. Eu apenas nunca disse a ninguém
que sou o homem mais rico de Mossoró. Primeiro, porque
eu respeito à vida do próximo e não procuro
saber quanto ele tem, ou deixou de ter, ou poderá ter.
Segundo, eu nunca parei para mensurar o que tenho. Chatear-me
não, mas de certa forma isso é até ruim
e talvez o meu seqüestro tenha acontecido por conta dessa
história. Ser ou não ser o homem mais rico desta
amada cidade não me muda em absolutamente nada.
Azougue
– Quatro anos vivendo em estado depressivo. O que significa
isso?
Assis
– Significa que eu não desejo o que eu
passei para o meu pior inimigo, se é que ele existe.
Deixa eu te explicar: eu comecei a fumar com 10 anos de idade
e quando atingi os 45 fui terminantemente proibido por um médico
de São Paulo de colocar um cigarro na boca. Olha que
eu fumava “apenas” 4 maços por dia, em seguida
veio a morte do meu melhor amigo, o meu pai, senhor Otávio.Tudo
isso, além de muito trabalho, me afetou profundamente.
Azougue
– De que forma a depressão se manifestou?
Assis
– Percebo que você é bem detalhista.
Vamos lá: eu me encontrava dormindo em apartamento de
um hotel em Nova Iorque e de repente acordei com uma estranha
e negativa força me dominando. Isso, por volta das 23h.
Fiquei totalmente aéreo, atônito, achando que o
mundo ia se acabar. A vontade que me deu foi pegar o primeiro
avião para voltar ao Brasil, mas o tempo não permitia.
Nos primeiros 15 dias para dormir eu tinha que encher a cara
de whisky. Retornei ao Brasil e aí foi que a depressão
me dominou por completo. Nada de conseguir dormir. Numa das
vezes vinha com o meu ultraleve para Mossoró e no caminho
muitas vezes pensei em me suicidar, fazendo o avião descer
de bico no solo. Para a minha salvação, no aeroporto
estava o psiquiatra Genário Freire de Medeiros, que atendendo
solicitação da minha esposa me aguardava. Comecei
o tratamento, existindo aos poucos uma melhora, porém
quando bebia, lá vinha a tal depressão se atracar
comigo. Foram 5 meses de muita angústia. Quando deixei
completamente de beber, novos horizontes se abriram, mas foram
4 anos de muita aflição. Há 15 anos que
não sei qual é o sabor do álcool.
Azougue
– O seqüestro é mais uma página negativa
na sua vida. Como ele seu deu?
Assis
– Quando houve o primeiro seqüestro em Mossoró,
do senhor Carlos Amorim, eu fiquei muito preocupado e antes
de me tornar uma vítima procurei a Polícia Federal
e conversei sobre o assunto. Queria saber como esse terrível
crime era desenvolvido. Eu costumava caminhar diariamente e
nas proximidades do Posto Brasil percebi que a toda hora um
carro com a placa “brasil”, com 4 caras dentro,
me seguia. Lembro que o fato se deu no dia 16 de novembro de
2005. Fiquei um pouco perturbado, mas continuei a caminhada.
Chegando ao contorno o carro Santana pára na minha frente,
descendo 3 caras, se identificando como policiais federais,
todos de arma em punho e coletes da PF. Jogaram-me na mala e
sei bem que rodei sem saber onde estava por umas 3h. Chegando
ao destino programado, me encapuzaram e deixaram-me num quarto
escuro. Detalhe: tiraram a minha máscara-capuz e amarraram
uma das minhas pernas numa corrente. Nos primeiros 15 dias a
coação psíquica foi de deixar qualquer
um louco e na verdade eu quis até morrer. Agressão
física não houve, agora o tratamento verbal com
cutucadas de fuzil AR-15 era constante, me recordo que numa
das vezes mandei que eles atirassem.
Azougue
– Como era processada a sua alimentação?
Assis – No começo até que
tudo caminhou bem, me davam frutas, porém a medida que
o tempo passava, aí o massacre era acelerado. Olha, eu
não vejo nenhuma relação desse seqüestro
que durou 37 dias com a minha cidade. O estado do Ceará,
sim é um dos alvos mais preferidos dos bandidos. Nesse
período o que ouvi de música do cantor Daniel,
pô, não está escrito em nenhum gibi.
Azougue
– Você acreditava ser libertado?
Assis
– Sinceramente que não, até porque
a pouca oportunidade que me davam para comunicação
com meus familiares era através de cartas, quatro no
total, e algo muito vago. O meu cativeiro ficava a 10 quilômetros
da minha fábrica em Aquiraz, exatamente num sítio
em Pindoretama. O resgate pedido era superior aos 4 milhões
de reais. Quando no 37º dia escuto a zoada de que a polícia
havia chegado e etc. e tal, eu não acreditei, achando
que era mais uma carga emocional. Só acreditei mesmo
quando vi o sol e me desamarraram. Eram policiais civis do RN
e CE que desvendaram a situação e todos os dias
agradeço a Deus por estar vivo.
Azougue
– Você tem amigos?
Assis
– Sim, não só amigos, como muitos
e bons amigos. Quando cheguei ao meu apartamento encontrei muitos
deles e soube que diariamente eles se encontravam e faziam orações.
O Luiz Cidrão, por exemplo, chorava quase todos os dias
e só não faço citações sobre
os de Mossoró para não cometer nenhuma injustiça.
Azougue
- 63 anos de idade e todos os dias vai à casa
da sua mãe?
Assis
– Estando em Mossoró eu vou lá
pela manhã, à tarde e à noite. D. Rita
Bessa da Silva completará 86 anos de idade no dia 15
de maio próximo.
Azougue
– Grato pela entrevista.
Assis
– Eu denomino de espetacular o trabalho que você
desenvolve no www.azougue.com e o agradecimento é meu.
assis@dunorte.com
caby@azougue.com
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