Mossoró-RN, de 2005
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ASSIS DA USIBRAS

Chamá-lo de trabalhador incansável é no mínimo um ato de justiça, defini-lo como exemplo de um bom filho não é fazer-lhe nenhum favor. Os caminhos das vitórias buscados ante as vicissitudes sempre encontradas e honestamente percorridas fazem de Francisco de Assis Silva, “Assis da Usibras”, um grande vencedor. Caracterizo-o como um homem que constantemente está “vivendo, deixando viver e aprendendo a viver”. O Mossoroense, em parceria com o site www.azougue.com, lhe propicia a condição de um conhecimento melhor sobre Assis da Usibras.

Azougue – A condição de eterno trabalhador se deve ao fato de você ter nascido exatamente no Dia do Trabalho, 1º de maio?


Assis – (riso esboçado) Não, na verdade essa condição herdei do meu pai. Porém, pode aí existir uma coincidência, já que uma data muitas vezes fala mais alto. Veja, eu nasci no primeiro dia de maio de 1944 e aos 5 anos de idade fui para Itaú, tendo chegado em Mossoró quando completei 10 anos, me tornando aluno interno no Colégio dos Padres, onde hoje funciona o Banco do Brasil, depois retornei a Itaú e em 1958, mais uma vez, vim para Mossoró, agora como semi-interno do mesmo colégio e no ano seguinte os meus pais vieram em definitivo para a nossa Mossoró. Concluí o ginásio e neste período o meu pai comprou um posto de combustíveis que tinha o nome de ESSO e aí, sim, eu comecei a batalha da vida, aos 16 anos de idade. O negócio era o seguinte: ou você trabalhava ou estudava. Não dava para conciliar as duas coisas. Eu busquei a primeira opção, porém em Itaú, por volta de 1954, eu já carregava água em oito latinhas partidas ao meio. Abastecia a minha casa e servia outras residências, ganhando com isso algum dinheiro. Depois chegou a era do jumento e parei mais de desenvolver a força física. A sina pelo trabalho teve como espelho o senhor Otávio Ferreira da Silva, meu pai, um incansável batalhador.

Azougue – Toda criança geralmente gosta de futebol. Isso não aconteceu com você?


Assis– De certa forma sim, porém se eu tivesse que sobreviver como jogador pode ter certeza que já teria morrido de fome (risos). Com 18, 20 anos, participei de peladas no campo do Tião, tendo as agradáveis companhias do já falecido, Clóvis Marques, Pedrinho da Flama, Lupércio Luiz, Edmilson Rodrigues de Paula, Amadeu Vale, enfim uma gama de gente boa.

Azougue – De administrador a proprietário de posto. E depois?

Assis– Eu era solteiro e morava com os meus pais e não me via como dirigente maior daquele segmento. Paralelamente eu comprava castanha e quando completei 30 anos falei para o seu Otávio que ia cuidar da minha vida, ele contra-argumentou que o posto era meu, pois quem tinha segurado a barra e pago a empresa tinha sido eu. As minhas atenções já tinham se mirado ao universo comercial da castanha e também negociava com carros. Hoje nós contamos com uma rede de 8 postos de combustíveis, sendo 6 em Mossoró, 1 em Areia Branca, e 1 em Baraúna.

Azougue – O leque empresarial continuou sendo ampliado?

Assis– É verdade. Passamos a atuar no ramo de transportes de combustíveis, firmamos contrato com a Petrobras para o deslocamento de cargas. Neste período eu vi que uma fábrica de castanha seria viável, mesmo me faltando conhecimento necessário do assunto. Com a idéia já fixa, propus uma sociedade ao empresário Edmur Rosado, um amigo de infância, cujo relacionamento sempre foi o melhor possível. A resposta foi positiva, nascendo então a Usibras, sendo que 7 anos depois ele me ofereceu a compra das suas ações que totalizavam 50%. Na época eu não dispunha do montante e busquei uma parceria com o empresário cearense Luiz Cidrão que, por sua vez, topou a parada e ocupou o espaço então do Edmur. Por coincidência, passados mais 7 anos fiz uma proposta que foi aceita pelo meu parceiro e tornei-me absoluto na Usibras.

Azougue – Quantos empregos são gerados pela Usibras?

Assis – Hoje bem menos que a fase inicial e esse é o efeito da tecnologia. Na época da sociedade com Edmur, o corte era manual e com o advento do corte mecanizado o número foi reduzido. Se hoje a indústria tivesse o mesmo perfil da fase inicial, teríamos algo em torno de 5 mil empregos, isso nas 2 fábricas, Mossoró e Fortaleza. No nosso universo, somos a 2ª maior do Brasil, com uma grande proximidade da 1ª, o que creio deverá ocorrer em 2008. A que ocupa a primeira posição pertence a um grupo inglês que tem o nome de Iracema e sede em Fortaleza. A Usibras tem hoje 1.600 funcionários, sendo 850 em Mossoró e 750 em Fortaleza.

Azougue – Além da Usibras, postos de combustíveis, o que mais compõe seu complexo empresarial?

Assis – Transportes, factoring com agências em Mossoró, Natal, João Pessoa e Recife, distribuidora de combustíveis em João Pessoa, Mossoró, distribuição de gás Butano em boa parte do interior potiguar, uma empresa nos Estados Unidos ligada a área de amêndoas, a All Nat, uma construtora em Fortaleza, denominada de Usibrás Empreendimentos e Construções Ltda. Em visita à França eu comprei um ultraleve e depois comprei a fábrica, trazendo-a para Fortaleza, que fabrica 4 tipos de aviões, inclusive o da marca fascionacion, e um deles era pilotado por Herbert Viana, do grupo Paralamas do Sucesso, quando, infelizmente, houve o registro do seu grave acidente. Sobre a última empresa citada, eu estou ultimando o fechamento das suas portas.

Azougue – O seu complexo conta com quantos funcionários?

Assis – As minhas empresas geram algo em torno de 2.100 empregos diretos.

Azougue – De maneira unânime você é apontado como o mais rico de Mossoró. Essa colocação te chateia?

Assis – Não, chateação nenhuma na forma como me vêem. Eu apenas nunca disse a ninguém que sou o homem mais rico de Mossoró. Primeiro, porque eu respeito à vida do próximo e não procuro saber quanto ele tem, ou deixou de ter, ou poderá ter. Segundo, eu nunca parei para mensurar o que tenho. Chatear-me não, mas de certa forma isso é até ruim e talvez o meu seqüestro tenha acontecido por conta dessa história. Ser ou não ser o homem mais rico desta amada cidade não me muda em absolutamente nada.

Azougue – Quatro anos vivendo em estado depressivo. O que significa isso?

Assis – Significa que eu não desejo o que eu passei para o meu pior inimigo, se é que ele existe. Deixa eu te explicar: eu comecei a fumar com 10 anos de idade e quando atingi os 45 fui terminantemente proibido por um médico de São Paulo de colocar um cigarro na boca. Olha que eu fumava “apenas” 4 maços por dia, em seguida veio a morte do meu melhor amigo, o meu pai, senhor Otávio.Tudo isso, além de muito trabalho, me afetou profundamente.

Azougue – De que forma a depressão se manifestou?

Assis – Percebo que você é bem detalhista. Vamos lá: eu me encontrava dormindo em apartamento de um hotel em Nova Iorque e de repente acordei com uma estranha e negativa força me dominando. Isso, por volta das 23h. Fiquei totalmente aéreo, atônito, achando que o mundo ia se acabar. A vontade que me deu foi pegar o primeiro avião para voltar ao Brasil, mas o tempo não permitia. Nos primeiros 15 dias para dormir eu tinha que encher a cara de whisky. Retornei ao Brasil e aí foi que a depressão me dominou por completo. Nada de conseguir dormir. Numa das vezes vinha com o meu ultraleve para Mossoró e no caminho muitas vezes pensei em me suicidar, fazendo o avião descer de bico no solo. Para a minha salvação, no aeroporto estava o psiquiatra Genário Freire de Medeiros, que atendendo solicitação da minha esposa me aguardava. Comecei o tratamento, existindo aos poucos uma melhora, porém quando bebia, lá vinha a tal depressão se atracar comigo. Foram 5 meses de muita angústia. Quando deixei completamente de beber, novos horizontes se abriram, mas foram 4 anos de muita aflição. Há 15 anos que não sei qual é o sabor do álcool.

Azougue – O seqüestro é mais uma página negativa na sua vida. Como ele seu deu?

Assis – Quando houve o primeiro seqüestro em Mossoró, do senhor Carlos Amorim, eu fiquei muito preocupado e antes de me tornar uma vítima procurei a Polícia Federal e conversei sobre o assunto. Queria saber como esse terrível crime era desenvolvido. Eu costumava caminhar diariamente e nas proximidades do Posto Brasil percebi que a toda hora um carro com a placa “brasil”, com 4 caras dentro, me seguia. Lembro que o fato se deu no dia 16 de novembro de 2005. Fiquei um pouco perturbado, mas continuei a caminhada. Chegando ao contorno o carro Santana pára na minha frente, descendo 3 caras, se identificando como policiais federais, todos de arma em punho e coletes da PF. Jogaram-me na mala e sei bem que rodei sem saber onde estava por umas 3h. Chegando ao destino programado, me encapuzaram e deixaram-me num quarto escuro. Detalhe: tiraram a minha máscara-capuz e amarraram uma das minhas pernas numa corrente. Nos primeiros 15 dias a coação psíquica foi de deixar qualquer um louco e na verdade eu quis até morrer. Agressão física não houve, agora o tratamento verbal com cutucadas de fuzil AR-15 era constante, me recordo que numa das vezes mandei que eles atirassem.

Azougue – Como era processada a sua alimentação?

Assis – No começo até que tudo caminhou bem, me davam frutas, porém a medida que o tempo passava, aí o massacre era acelerado. Olha, eu não vejo nenhuma relação desse seqüestro que durou 37 dias com a minha cidade. O estado do Ceará, sim é um dos alvos mais preferidos dos bandidos. Nesse período o que ouvi de música do cantor Daniel, pô, não está escrito em nenhum gibi.

Azougue – Você acreditava ser libertado?

Assis – Sinceramente que não, até porque a pouca oportunidade que me davam para comunicação com meus familiares era através de cartas, quatro no total, e algo muito vago. O meu cativeiro ficava a 10 quilômetros da minha fábrica em Aquiraz, exatamente num sítio em Pindoretama. O resgate pedido era superior aos 4 milhões de reais. Quando no 37º dia escuto a zoada de que a polícia havia chegado e etc. e tal, eu não acreditei, achando que era mais uma carga emocional. Só acreditei mesmo quando vi o sol e me desamarraram. Eram policiais civis do RN e CE que desvendaram a situação e todos os dias agradeço a Deus por estar vivo.

Azougue – Você tem amigos?

Assis – Sim, não só amigos, como muitos e bons amigos. Quando cheguei ao meu apartamento encontrei muitos deles e soube que diariamente eles se encontravam e faziam orações. O Luiz Cidrão, por exemplo, chorava quase todos os dias e só não faço citações sobre os de Mossoró para não cometer nenhuma injustiça.

Azougue - 63 anos de idade e todos os dias vai à casa da sua mãe?

Assis – Estando em Mossoró eu vou lá pela manhã, à tarde e à noite. D. Rita Bessa da Silva completará 86 anos de idade no dia 15 de maio próximo.

Azougue – Grato pela entrevista.

Assis – Eu denomino de espetacular o trabalho que você desenvolve no www.azougue.com e o agradecimento é meu.

assis@dunorte.com
caby@azougue.com

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