Mossoró-RN, de 2008
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FRANCISCO FERREIRA SOUTO FILHO – (SOUTINHO).

Azougue – Uma vida toda dedicada à atividade salineira?

Soutinho – E diga-se que os primeiros passos foram dados pelo meu pai, um comerciante dos famosos secos e molhados, que viu ser o sal o grande pendor da cidade de Areia Branca, terra onde nasci. Em determinado período ele começou a arrendar salinas, depois efetuou as suas compras e tinha o objetivo de aumentar a produção do sal, tanto é que quando ele morreu deixou uma produção de aproximadamente 32 mil toneladas de sal por ano, um fato jamais imaginável para a época, isso em mais ou menos 1945. Quando ele faleceu, eu tinha 21 anos de idade e passei a absorver as suas atividades.

Azougue – O Banco Mossoró nasceu com o seu pai, senhor Francisco Ferreira Souto?

Soutinho – Exatamente. Na época em Mossoró existia apenas o Banco S. Gurgel, cujo proprietário era o senhor Sebastião Gurgel. Alguns comerciantes se reuniram com o objetivo de fundar um concorrente e faltou para a sua criação exatos 1 mil contos de réis. Os senhores Pedro Fernandes Ribeiro, Osmildo Juvino, Henrique Lima e um outro cujo nome não lembro. Meu pai, mesmo sem saber ler e escrever, foi designado presidente, isso no ano de 1936 e tinha os seus sócios como auxiliares diretos.

Azougue – Quando foi que o senhor Soutinho fincou pé em Mossoró?

Soutinho – Em 1950, por conta do falecimento do meu pai. Naquele instante eu estudava em Recife e logo na chegada abracei a atividade salineira.

Azougue – Antes o senhor residiu no Rio de Janeiro?

Soutinho – É verdade. De Recife para a cidade maravilhosa com o único objetivo de estudar e tirando esse fato, me divertia praticando natação no colégio interno. Nós íamos para a piscina às 2h da madrugada, um frio danado. Depois que o colégio fechou, mudamos para as Paineiras, mas, olhe bem (risos), eu não torço pelo Fluminense, não. Na verdade, tenho uma quedinha pelo Flamengo.

Azougue – O que ocasiona a instabilidade na atividade salineira?

Soutinho – O excesso do produto faz com que haja uma concorrência acirrada, e muitas vezes até desnecessária. Sabe aquela guerra de um querendo tomar o cliente do outro. Se existisse o respeito, o sal estava no patamar financeiro verdadeiramente merecedor. Olha, se geograficamente o sal estivesse postado em São Paulo, ele naturalmente teria o preço viável. Para que você tenha uma idéia, antes das grandes inundações nos parques, registradas no mês de abril, a tonelada tinha o valor de 30 reais, e hoje atingiu a 65 reais. O que entendemos, já era para estar nesse valor há muito tempo. Infelizmente o retrato da desunião que impera há anos traz conseqüências terríveis para todos nós.

Azougue – A sua experiência lhe permite ver mudanças no quadro?

Soutinho – Acho muito difícil isso acontecer, até porque existem muitas transformações no quadro empresarial da produção. Hoje, por exemplo, o grande capital está com a Salinor, e que antes pertencia a Henrique Lajes e por aí vai. Existem produtores independentes que não moram por aqui, conseqüentemente não conhecem o nosso dia-a-dia.

Azougue – Como o senhor viu a insolvência do Banco de Mossoró?

Soutinho - Nós tínhamos um banco regional que ia muito bem obrigado. O Banco Central nos obrigou a abrirmos espaços em Natal. Era aquela história, ou crescia ou fechava. Depois de Natal, Caicó, Fortaleza, João Pessoa, Recife, até aí tudo bem, o sobrenome Souto tinha uma boa identificação. O passo em falso aconteceu quando chegamos a São Paulo e Rio de Janeiro, a partir daí perdemos todos os caminhos. Confesso que eu nunca tive carisma para banco, as minhas atenções sempre foram voltadas para a produção. O que eu entendo é que se tivéssemos ficado apenas no Rio Grande do Norte as alterações que por acaso viessem a existir sempre seriam extremamente positivas, porém, repito, o Banco Central deu o ultimato. Ou você cruza fronteiras potiguares ou fecha e, lamentavelmente, fechamos. Teve também o aspecto de ter que confiar em administradores que eu não conhecia. Quando você confia numa pessoa muitas vezes se decepciona, imaginem então sem conhecê-la.

Azougue – Como é a sua convivência com a política?

Soutinho – Sabe aquela convivência que você acha ruim (risos), mas eu não tinha como fugir e (risos), mesmo assim, sempre arranjava um jeito de dar uma escapulida. O problema é que a minha esposa, Edite Souto, tem verdadeira paixão por política. Ela vai aos comícios, e eu não saio daqui. Fico vendo televisão. E para falar a verdade, na época de Aluízio Alves, das famosas “senadoras”, eu ainda cheguei a ir a alguns. As “senadoras” chegavam à minha casa, eu olhava para um lado e outro e na primeira oportunidade (risos) caía fora.

Azougue – Quer dizer então que a diversão do senhor Soutinho sempre foi o trabalho?

Soutinho – Vou te falar uma coisa. Eu nunca discuti com absolutamente ninguém. Nunca fui de beber, nunca fumei e lhe digo que aos 82 anos de idade não consegui sequer aprender a dançar.

Azougue – Como o senhor Soutinho analisa a cidade de Mossoró?

Soutinho – Uma cidade pólo, considerada por muitos como grande e em condições de ser o ponto de equilíbrio comercial da região. Falta a Mossoró um bom administrador, aquele que realmente ajude aos que querem trabalhar. Quem não percebeu ainda que o aeroporto Dix-sept Rosado está impedindo o desenvolvimento da cidade? O viável, entendo, seria se construir um aeroporto nas proximidades da Maisa, ou então na vizinha Baraúna. Será que ainda não perceberam isso? Os senhores já imaginaram quais os frutos que seriam colhidos com toda aquela atual área do aeroporto em condições de edificação? O crescimento seria de uma importância incomum para Mossoró, porém a prefeitura nada diz e nada faz.

Azougue – Sendo prefeito, o senhor Soutinho levaria essa idéia adiante?

Soutinho – Sem nenhuma sombra de dúvidas, seria um dos primeiros atos da minha administração.

Azougue – Já pensa em parar de trabalhar?

Soutinho – Nem pensar, ainda estou muito jovem (risos).

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