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FRANCISCO
FERREIRA SOUTO FILHO – (SOUTINHO).
Azougue
– Uma vida toda dedicada à atividade salineira?
Soutinho
– E diga-se que os primeiros passos foram dados
pelo meu pai, um comerciante dos famosos secos e molhados, que
viu ser o sal o grande pendor da cidade de Areia Branca, terra
onde nasci. Em determinado período ele começou
a arrendar salinas, depois efetuou as suas compras e tinha o
objetivo de aumentar a produção do sal, tanto
é que quando ele morreu deixou uma produção
de aproximadamente 32 mil toneladas de sal por ano, um fato
jamais imaginável para a época, isso em mais ou
menos 1945. Quando ele faleceu, eu tinha 21 anos de idade e
passei a absorver as suas atividades.
Azougue
– O Banco Mossoró nasceu com o seu pai, senhor
Francisco Ferreira Souto?
Soutinho
– Exatamente. Na época em Mossoró
existia apenas o Banco S. Gurgel, cujo proprietário era
o senhor Sebastião Gurgel. Alguns comerciantes se reuniram
com o objetivo de fundar um concorrente e faltou para a sua
criação exatos 1 mil contos de réis. Os
senhores Pedro Fernandes Ribeiro, Osmildo Juvino, Henrique Lima
e um outro cujo nome não lembro. Meu pai, mesmo sem saber
ler e escrever, foi designado presidente, isso no ano de 1936
e tinha os seus sócios como auxiliares diretos.
Azougue
– Quando foi que o senhor Soutinho fincou pé em
Mossoró?
Soutinho
– Em 1950, por conta do falecimento do meu pai.
Naquele instante eu estudava em Recife e logo na chegada abracei
a atividade salineira.
Azougue
– Antes o senhor residiu no Rio de Janeiro?
Soutinho
– É verdade. De Recife para a cidade maravilhosa
com o único objetivo de estudar e tirando esse fato,
me divertia praticando natação no colégio
interno. Nós íamos para a piscina às 2h
da madrugada, um frio danado. Depois que o colégio fechou,
mudamos para as Paineiras, mas, olhe bem (risos), eu não
torço pelo Fluminense, não. Na verdade, tenho
uma quedinha pelo Flamengo.
Azougue
– O que ocasiona a instabilidade na atividade salineira?
Soutinho
– O excesso do produto faz com que haja uma concorrência
acirrada, e muitas vezes até desnecessária. Sabe
aquela guerra de um querendo tomar o cliente do outro. Se existisse
o respeito, o sal estava no patamar financeiro verdadeiramente
merecedor. Olha, se geograficamente o sal estivesse postado
em São Paulo, ele naturalmente teria o preço viável.
Para que você tenha uma idéia, antes das grandes
inundações nos parques, registradas no mês
de abril, a tonelada tinha o valor de 30 reais, e hoje atingiu
a 65 reais. O que entendemos, já era para estar nesse
valor há muito tempo. Infelizmente o retrato da desunião
que impera há anos traz conseqüências terríveis
para todos nós.
Azougue
– A sua experiência lhe permite ver mudanças
no quadro?
Soutinho
– Acho muito difícil isso acontecer, até
porque existem muitas transformações no quadro
empresarial da produção. Hoje, por exemplo, o
grande capital está com a Salinor, e que antes pertencia
a Henrique Lajes e por aí vai. Existem produtores independentes
que não moram por aqui, conseqüentemente não
conhecem o nosso dia-a-dia.
Azougue
– Como o senhor viu a insolvência do Banco de Mossoró?
Soutinho
- Nós tínhamos um banco regional que
ia muito bem obrigado. O Banco Central nos obrigou a abrirmos
espaços em Natal. Era aquela história, ou crescia
ou fechava. Depois de Natal, Caicó, Fortaleza, João
Pessoa, Recife, até aí tudo bem, o sobrenome Souto
tinha uma boa identificação. O passo em falso
aconteceu quando chegamos a São Paulo e Rio de Janeiro,
a partir daí perdemos todos os caminhos. Confesso que
eu nunca tive carisma para banco, as minhas atenções
sempre foram voltadas para a produção. O que eu
entendo é que se tivéssemos ficado apenas no Rio
Grande do Norte as alterações que por acaso viessem
a existir sempre seriam extremamente positivas, porém,
repito, o Banco Central deu o ultimato. Ou você cruza
fronteiras potiguares ou fecha e, lamentavelmente, fechamos.
Teve também o aspecto de ter que confiar em administradores
que eu não conhecia. Quando você confia numa pessoa
muitas vezes se decepciona, imaginem então sem conhecê-la.
Azougue
– Como é a sua convivência com a política?
Soutinho
– Sabe aquela convivência que você
acha ruim (risos), mas eu não tinha como fugir e (risos),
mesmo assim, sempre arranjava um jeito de dar uma escapulida.
O problema é que a minha esposa, Edite Souto, tem verdadeira
paixão por política. Ela vai aos comícios,
e eu não saio daqui. Fico vendo televisão. E para
falar a verdade, na época de Aluízio Alves, das
famosas “senadoras”, eu ainda cheguei a ir a alguns.
As “senadoras” chegavam à minha casa, eu
olhava para um lado e outro e na primeira oportunidade (risos)
caía fora.
Azougue
– Quer dizer então que a diversão do senhor
Soutinho sempre foi o trabalho?
Soutinho
– Vou te falar uma coisa. Eu nunca discuti com
absolutamente ninguém. Nunca fui de beber, nunca fumei
e lhe digo que aos 82 anos de idade não consegui sequer
aprender a dançar.
Azougue
– Como o senhor Soutinho analisa a cidade de Mossoró?
Soutinho
– Uma cidade pólo, considerada por muitos
como grande e em condições de ser o ponto de equilíbrio
comercial da região. Falta a Mossoró um bom administrador,
aquele que realmente ajude aos que querem trabalhar. Quem não
percebeu ainda que o aeroporto Dix-sept Rosado está impedindo
o desenvolvimento da cidade? O viável, entendo, seria
se construir um aeroporto nas proximidades da Maisa, ou então
na vizinha Baraúna. Será que ainda não
perceberam isso? Os senhores já imaginaram quais os frutos
que seriam colhidos com toda aquela atual área do aeroporto
em condições de edificação? O crescimento
seria de uma importância incomum para Mossoró,
porém a prefeitura nada diz e nada faz.
Azougue
– Sendo prefeito, o senhor Soutinho levaria essa idéia
adiante?
Soutinho
– Sem nenhuma sombra de dúvidas, seria
um dos primeiros atos da minha administração.
Azougue
– Já pensa em parar de trabalhar?
Soutinho
– Nem pensar, ainda estou muito jovem (risos).
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caby@azougue.com
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