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ALCINDO
JÚNIOR - IVANILMA
Da
adolescência, o sabor da boa herança do equilíbrio.
Ensinando matemática, comentando futebol, no papo da
roda de amigos, essas características fazem o seu admirável
cartão de apresentação. Alcindo Júnior
não reclama, é prudente e puxa para a mais curta
distância os erros e acertos, analisando-os sempre de
maneira extremamente racional. É, indiscutivelmente,
um dos maiores desportistas de Mossoró. Vamos à
entrevista, então...
AZOUGUE
- Fale-me um pouco da sua infância.
Alcindo
- Acho que a condução das nossas vidas não
depende exclusivamente de nós, muitos fatos são
traçados pelo destino. Com 10 anos de idade eu e meus
8 irmãos ficamos órfãos de pai. Nós
tivemos que nos desdobrar para que pudéssemos superar
essa adversidade, com disposição, coragem e determinação.
A fatalidade da perda do nosso pai fez surgir uma supermãe.
Criar 9 filhos numa escala de 11 meses a 13 anos, convenhamos
que não é uma tarefa das mais fáceis, com
o detalhe, que D. Maria Lopes de Araújo, conhecida como
Maria da Paz, era uma simples professora do ensino primário,
ganhando o equivalente a um salário mínimo hoje
e recebendo seus vencimentos de 10 em 10 meses. A nossa sorte
é que seu Zeca de Belo agüentava os “pregos”
pacientemente. E vem o lado emocional, afetivo. Na verdade,
você viver uma adolescência sem a convivência
de um pai, é traumático, os momento de solidão,
depressão, carência chegam muito rapidamente e
machucam muito. Com o passar do tempo percebi que o amadurecimento
veio muito cedo e posso lhe afirmar que com 14 anos eu já
tinha a postura de uma pessoa com 19 anos. Acho que não
tive adolescência. Passei de criança para adulto.
Fui vendedor de cavaco chinês, entregador de jornal (Jornal
do Commercio), ambulante de cigarro, etc. Tudo por necessidade.
Hoje me sinto realizado, sem preconceitos e muito grato a tantos
que nos ajudaram.
AZOUGUE
- Professor de matemática há 31 anos. Os números
desde cedo lhe fascinavam?
Alcindo
- O meu interesse pela matemática aconteceu de uma maneira
natural. Desde a época de D. Bidica (minha primeira professora),
período da palmatória, da tabuada e etc., eu tinha
uma facilidade muito grande no desenvolvimento das operações
e isso surpreendia a todos. Os meus colegas gostavam de história,
geografia, português, eu não. A matemática
me atraía e eu mergulhei neste universo por necessidade
de satisfação de ego.
AZOUGUE
- Alguns estudiosos dizem que a matemática não
é uma ciência exata. Eles estão certos?
Alcindo
- Estão errados. A matemática é uma ciência
milenar e o que existe, às vezes, são pequenas
ciladas que ela apresenta e que podem de alguma forma induzir
alguém a pensar que não seja uma ciência
exata. Algumas situações podem parecer que não
exista uma exatidão, mas isso é um ledo engano.
A matemática é uma ciência extremamente
exata.
AZOUGUE
- A outra paixão na sua vida é o esporte?
Alcindo
- Sim, é sim. Desde os tempos do jogo (risos) de bila.
Eu sempre tive uma boa aproximação com o esporte,
agora é claro que o futebol está em primeiro lugar.
Eu lhe digo sem medo de errar, que se eu tivesse aberto mão
dos meus estudos, com certeza teria vestido a camisa de um time
de futebol profissional. Mas graças a Deus não
o fiz.
AZOUGUE
- Você se vê como um desportista nato?
Alcindo
- Sim, vejo o esporte de maneira bem racional. Observo que através
dele o jovem pode carrear uma ação extremamente
cultural. Não o vejo como uma forma de se angariar, de
se obter vantagens pessoais. O esporte é para mim algo
de fundamental importância para o crescimento acima de
tudo de caráter. Eu sou, como você já frisou
em rodas de amigos, aquele cara que vai aos estádios
até em dia de treinos. O esporte tem que ser visto, principalmente
pelo poder público, até como uma terapia ocupacional
para a juventude.
AZOUGUE
- De atleta amador a torcedor, dirigente de futebol e também
comentarista esportivo. O esporte sempre presente na sua vida?
Alcindo
- Foram fases de muita importância indistintamente. Fui
atleta amador, continuo torcedor. Eu fui vice-presidente do
Potiguar em 1997, quando você, Caby, foi presidente e
me fez o convite. Em 1998, então, passei a comentar futebol
na sua equipe da Rádio Rural.
AZOUGUE
- Você se considera um comentarista de primeira linha?
Alcindo
- É difícil comentar o próprio trabalho.
Tenho escutado mais críticas positivas do que negativas.
Alguns ouvintes anônimos e amigos têm me dito que
desempenho bem o meu papel. Desliguei-me da Rádio Rural,
fui para a Rádio Difusora em 1999, atendendo convite
de Júnior Praxedes. Lá estou até hoje e
nunca me pediram para que eu me retirasse. Se os comentários
não agradassem, com certeza outro já estaria no
meu lugar.
AZOUGUE
- Quem é muito bom como comentarista esportivo no RN?
Alcindo
- Gosto muito do Lupércio Luis. Ele é um comentarista
espetacular, principalmente na leitura do jogo. Lupércio
para ser absoluto deveria ser um pouco mais contundente no extra-campo.
A sua facilidade de expressão é algo admirável.
AZOUGUE
- Quem você gostaria de ter na sua equipe de esportes?
Alcindo
- Já trabalhei ao lado de bons profissionais no rádio.
Dentre tantos cito: Caby, Julimar, Sérgio Oliveira, Chapinha,
Jota, Ítalo. De outros fui ouvinte assíduo: Paulo
José, Franklin Machado, Roberto Machado, José
Augusto e José Lira. Como ouvinte acho imprescindível
o plantão. Se tivesse uma equipe de esportes gostaria
de ter como plantonista José Lira da Globo-Cabugi. Ele
é um profissional espetacular e o acompanho desde a época
da Poty.
AZOUGUE
- Qual o comparativo que você faz do futebol mossoroense
do ano 97 e o atual?
Alcindo
- A condução do futebol até 1997, quando
administramos o Potiguar, era um tanto amadorística.
Talvez possa parecer presunçoso afirmar, mas acho que
fomos um marco de um início do real profissionalismo
que começa vivenciar o futebol mossoroense. Um detalhe:
Até aquele momento todo equipe comprava o seu próprio
material esportivo. Demos o pontapé inicial com parceria
com a POKER e começamos a falar em patrocínios
e parcerias. Naquela oportunidade falávamos em adquirir
um terreno para a construção de um Centro de Treinamento
(CT). Demos apoio às categorias de base que até
ali eram tocadas com o esforço de Leó Diniz e
o saudoso Damião Corina. Chegamos a contratar até
um treinador para o time de juniores (Júnior Miranda).
Foi uma grande contribuição. Hoje o Baraúnas
apostando neste trabalho já está até exportando
jogadores para a Europa. Tudo que fizemos em 1997 foi sem nenhum
respaldo do poder público. Hoje o nosso futebol está
bem mais profissional do que antes. Os dirigentes avançaram
bem e precisam avançar mais. O poder público entendeu
que o futebol pode ser um grande parceiro. Eles estão
no caminho certo e Mossoró esportiva agradece.
AZOUGUE
- Qual o melhor jogador que Mossoró já teve?
Alcindo
- Não é do seu tempo, porque eu sou um pouco mais
velho que você. O jogador que mais me impressionou foi
China, centroavante do Potiguar. Agora na fase do Nogueirão,
eu aponto o Nivaldo Dantas, um zagueiro de qualidades incomuns.
Foi um Gamarra dos anos 70/80.
AZOUGUE
- O melhor goleiro?
Alcindo
- Itamar pela elasticidade, pela firmeza e pela coragem nas
disputas de bolas com os atacantes.
AZOUGUE
- Um grande dirigente a nível estadual?
Alcindo
- Vou citar três: pela tradição, carisma,
aceitação, crédito com o torcedor, Manoel
Barreto. Atualmente o trabalhado de João Dehon merece
ser destacado. Pegou o Baraúnas numa situação
dificílima, abarrotado de questões trabalhistas,
endividado, desacreditado e o está transformando em um
clube profissional. No entanto, acho Eduardo Rocha, do América
de Natal, o dirigente mais arrojado nos últimos tempos.
Ele fez uma autêntica revolução levando
o América à Série A do Campeonato Brasileiro.
Ele é o grande dirigente do futebol norte-rio-grandense
nos últimos 20 anos.
AZOUGUE
- A maior falha no futebol de Mossoró?
Alcindo
- Para se acompanhar o crescimento do nosso futebol mossoroense
é preciso que a Liga Desportiva Mossoroense (LDM) avance
com a mesma rapidez que os clubes estão avançando.
A LDM não tem acompanhado esse ritmo, E entendo que as
dificuldades não dependem apenas do administrador. Ela
não tem como continuar nos moldes atuais, dependendo
de rendas e de boa vontade. A estrutura tem que ter um tamanho
maior e é necessário que o poder público
se envolva cada vez mais. Não de favor, mas como parceiro
AZOUGUE
- 26 anos lecionando da Esam. Escola Superior de Agricultura
de Mossoró. Antes, um autêntico cartão postal
da cidade, hoje já não mais se comenta essa identidade.
Por quê?
Alcindo
- Eu não vejo bem assim. A Esam, cresceu, progrediu e
continua crescendo, apesar de em determinados momentos ter sido
atrapalhada por decisões políticas internas. A
Esam podia ser hoje bem maior que do que já é,
se não houvesse tanta politicagem dentro da instituição.
Num certo período 90% do corpo docente da instituição
tinha curso de pós-graduação, e de repente,
por quase 10, 12 anos, a instituição deixou de
mandar, por questões meramente políticas, novos
professores para fora em busca do enriquecimento curricular.
Isso causou um retrocesso muito grande. Essa fase passou, felizmente,
e a Esam entrou novamente nos eixos, a crescer com mais intensidade.
Hoje ela transformou-se em Universidade - UFERSA, Universidade
Federal Rural do Semi-Árido - e por aí entendo
que ela voltará a deslanchar e servirá novamente
como referência para Mossoró.
AZOUGUE
- Os critérios no peso de voto para eleições
na Esam, agora Ufersa, estão corretos?
Alcindo
- Não! A relação 70% professores, 15% alunos
e 15% funcionários é injusta e favorece o segmento
dos professores. Também não acho correto se pensar
no voto universal (um por um). Veja bem, um segmento por si
só não pode definir a eleição. Na
instituição, o aluno é passageiro o professor
é efetivo. Seria muito sem sentido que a categoria de
alunos escolhesse isoladamente quem vai governar. Observe: Se
eu tenho 1.000 alunos e apenas 80 professores, então
tem que existir uma equivalência para que igualdade das
classes aconteça. O viável, o lógico, o
racional, seria uma paridade de 33,33...% para cada uma das
classes.
AZOUGUE - Professor e comentarista Alcindo Júnior,
para o AZOUGUE e os internautas, com certeza, o papo valeu.
Alcindo
- Valeu! Sou internauta diário do azougue, e vejo a seção
de entrevistas como a mais importante do site pela diversidade
de pensamentos apresentados e pelos entrevistados de bom nível.
Fiquei lisonjeado com o convite. Nossa amizade vem de longas
datas, e pra mim sempre vale a pena colaborar com você.
A oportunidade de expressar o pensamento em público é
sempre boa para um educador por profissão e para um radialista
por paixão. Gostaria de dizer aos que lerem essa entrevista
que as críticas serão bem-vindas. Valeu, azougue!
alcindo@ufersa.edu.br
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