Mossoró-RN, de 2005
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ALCINDO JÚNIOR - IVANILMA

Da adolescência, o sabor da boa herança do equilíbrio. Ensinando matemática, comentando futebol, no papo da roda de amigos, essas características fazem o seu admirável cartão de apresentação. Alcindo Júnior não reclama, é prudente e puxa para a mais curta distância os erros e acertos, analisando-os sempre de maneira extremamente racional. É, indiscutivelmente, um dos maiores desportistas de Mossoró. Vamos à entrevista, então...

AZOUGUE - Fale-me um pouco da sua infância.

Alcindo - Acho que a condução das nossas vidas não depende exclusivamente de nós, muitos fatos são traçados pelo destino. Com 10 anos de idade eu e meus 8 irmãos ficamos órfãos de pai. Nós tivemos que nos desdobrar para que pudéssemos superar essa adversidade, com disposição, coragem e determinação. A fatalidade da perda do nosso pai fez surgir uma supermãe. Criar 9 filhos numa escala de 11 meses a 13 anos, convenhamos que não é uma tarefa das mais fáceis, com o detalhe, que D. Maria Lopes de Araújo, conhecida como Maria da Paz, era uma simples professora do ensino primário, ganhando o equivalente a um salário mínimo hoje e recebendo seus vencimentos de 10 em 10 meses. A nossa sorte é que seu Zeca de Belo agüentava os “pregos” pacientemente. E vem o lado emocional, afetivo. Na verdade, você viver uma adolescência sem a convivência de um pai, é traumático, os momento de solidão, depressão, carência chegam muito rapidamente e machucam muito. Com o passar do tempo percebi que o amadurecimento veio muito cedo e posso lhe afirmar que com 14 anos eu já tinha a postura de uma pessoa com 19 anos. Acho que não tive adolescência. Passei de criança para adulto. Fui vendedor de cavaco chinês, entregador de jornal (Jornal do Commercio), ambulante de cigarro, etc. Tudo por necessidade. Hoje me sinto realizado, sem preconceitos e muito grato a tantos que nos ajudaram.

AZOUGUE - Professor de matemática há 31 anos. Os números desde cedo lhe fascinavam?

Alcindo - O meu interesse pela matemática aconteceu de uma maneira natural. Desde a época de D. Bidica (minha primeira professora), período da palmatória, da tabuada e etc., eu tinha uma facilidade muito grande no desenvolvimento das operações e isso surpreendia a todos. Os meus colegas gostavam de história, geografia, português, eu não. A matemática me atraía e eu mergulhei neste universo por necessidade de satisfação de ego.

AZOUGUE - Alguns estudiosos dizem que a matemática não é uma ciência exata. Eles estão certos?

Alcindo - Estão errados. A matemática é uma ciência milenar e o que existe, às vezes, são pequenas ciladas que ela apresenta e que podem de alguma forma induzir alguém a pensar que não seja uma ciência exata. Algumas situações podem parecer que não exista uma exatidão, mas isso é um ledo engano. A matemática é uma ciência extremamente exata.

AZOUGUE - A outra paixão na sua vida é o esporte?

Alcindo - Sim, é sim. Desde os tempos do jogo (risos) de bila. Eu sempre tive uma boa aproximação com o esporte, agora é claro que o futebol está em primeiro lugar. Eu lhe digo sem medo de errar, que se eu tivesse aberto mão dos meus estudos, com certeza teria vestido a camisa de um time de futebol profissional. Mas graças a Deus não o fiz.

AZOUGUE - Você se vê como um desportista nato?

Alcindo - Sim, vejo o esporte de maneira bem racional. Observo que através dele o jovem pode carrear uma ação extremamente cultural. Não o vejo como uma forma de se angariar, de se obter vantagens pessoais. O esporte é para mim algo de fundamental importância para o crescimento acima de tudo de caráter. Eu sou, como você já frisou em rodas de amigos, aquele cara que vai aos estádios até em dia de treinos. O esporte tem que ser visto, principalmente pelo poder público, até como uma terapia ocupacional para a juventude.

AZOUGUE - De atleta amador a torcedor, dirigente de futebol e também comentarista esportivo. O esporte sempre presente na sua vida?

Alcindo - Foram fases de muita importância indistintamente. Fui atleta amador, continuo torcedor. Eu fui vice-presidente do Potiguar em 1997, quando você, Caby, foi presidente e me fez o convite. Em 1998, então, passei a comentar futebol na sua equipe da Rádio Rural.

AZOUGUE - Você se considera um comentarista de primeira linha?

Alcindo - É difícil comentar o próprio trabalho. Tenho escutado mais críticas positivas do que negativas. Alguns ouvintes anônimos e amigos têm me dito que desempenho bem o meu papel. Desliguei-me da Rádio Rural, fui para a Rádio Difusora em 1999, atendendo convite de Júnior Praxedes. Lá estou até hoje e nunca me pediram para que eu me retirasse. Se os comentários não agradassem, com certeza outro já estaria no meu lugar.

AZOUGUE - Quem é muito bom como comentarista esportivo no RN?

Alcindo - Gosto muito do Lupércio Luis. Ele é um comentarista espetacular, principalmente na leitura do jogo. Lupércio para ser absoluto deveria ser um pouco mais contundente no extra-campo. A sua facilidade de expressão é algo admirável.

AZOUGUE - Quem você gostaria de ter na sua equipe de esportes?

Alcindo - Já trabalhei ao lado de bons profissionais no rádio. Dentre tantos cito: Caby, Julimar, Sérgio Oliveira, Chapinha, Jota, Ítalo. De outros fui ouvinte assíduo: Paulo José, Franklin Machado, Roberto Machado, José Augusto e José Lira. Como ouvinte acho imprescindível o plantão. Se tivesse uma equipe de esportes gostaria de ter como plantonista José Lira da Globo-Cabugi. Ele é um profissional espetacular e o acompanho desde a época da Poty.

AZOUGUE - Qual o comparativo que você faz do futebol mossoroense do ano 97 e o atual?

Alcindo - A condução do futebol até 1997, quando administramos o Potiguar, era um tanto amadorística. Talvez possa parecer presunçoso afirmar, mas acho que fomos um marco de um início do real profissionalismo que começa vivenciar o futebol mossoroense. Um detalhe: Até aquele momento todo equipe comprava o seu próprio material esportivo. Demos o pontapé inicial com parceria com a POKER e começamos a falar em patrocínios e parcerias. Naquela oportunidade falávamos em adquirir um terreno para a construção de um Centro de Treinamento (CT). Demos apoio às categorias de base que até ali eram tocadas com o esforço de Leó Diniz e o saudoso Damião Corina. Chegamos a contratar até um treinador para o time de juniores (Júnior Miranda). Foi uma grande contribuição. Hoje o Baraúnas apostando neste trabalho já está até exportando jogadores para a Europa. Tudo que fizemos em 1997 foi sem nenhum respaldo do poder público. Hoje o nosso futebol está bem mais profissional do que antes. Os dirigentes avançaram bem e precisam avançar mais. O poder público entendeu que o futebol pode ser um grande parceiro. Eles estão no caminho certo e Mossoró esportiva agradece.

AZOUGUE - Qual o melhor jogador que Mossoró já teve?

Alcindo - Não é do seu tempo, porque eu sou um pouco mais velho que você. O jogador que mais me impressionou foi China, centroavante do Potiguar. Agora na fase do Nogueirão, eu aponto o Nivaldo Dantas, um zagueiro de qualidades incomuns. Foi um Gamarra dos anos 70/80.

AZOUGUE - O melhor goleiro?

Alcindo - Itamar pela elasticidade, pela firmeza e pela coragem nas disputas de bolas com os atacantes.

AZOUGUE - Um grande dirigente a nível estadual?

Alcindo - Vou citar três: pela tradição, carisma, aceitação, crédito com o torcedor, Manoel Barreto. Atualmente o trabalhado de João Dehon merece ser destacado. Pegou o Baraúnas numa situação dificílima, abarrotado de questões trabalhistas, endividado, desacreditado e o está transformando em um clube profissional. No entanto, acho Eduardo Rocha, do América de Natal, o dirigente mais arrojado nos últimos tempos. Ele fez uma autêntica revolução levando o América à Série A do Campeonato Brasileiro. Ele é o grande dirigente do futebol norte-rio-grandense nos últimos 20 anos.

AZOUGUE - A maior falha no futebol de Mossoró?

Alcindo - Para se acompanhar o crescimento do nosso futebol mossoroense é preciso que a Liga Desportiva Mossoroense (LDM) avance com a mesma rapidez que os clubes estão avançando. A LDM não tem acompanhado esse ritmo, E entendo que as dificuldades não dependem apenas do administrador. Ela não tem como continuar nos moldes atuais, dependendo de rendas e de boa vontade. A estrutura tem que ter um tamanho maior e é necessário que o poder público se envolva cada vez mais. Não de favor, mas como parceiro

AZOUGUE - 26 anos lecionando da Esam. Escola Superior de Agricultura de Mossoró. Antes, um autêntico cartão postal da cidade, hoje já não mais se comenta essa identidade. Por quê?

Alcindo - Eu não vejo bem assim. A Esam, cresceu, progrediu e continua crescendo, apesar de em determinados momentos ter sido atrapalhada por decisões políticas internas. A Esam podia ser hoje bem maior que do que já é, se não houvesse tanta politicagem dentro da instituição. Num certo período 90% do corpo docente da instituição tinha curso de pós-graduação, e de repente, por quase 10, 12 anos, a instituição deixou de mandar, por questões meramente políticas, novos professores para fora em busca do enriquecimento curricular. Isso causou um retrocesso muito grande. Essa fase passou, felizmente, e a Esam entrou novamente nos eixos, a crescer com mais intensidade. Hoje ela transformou-se em Universidade - UFERSA, Universidade Federal Rural do Semi-Árido - e por aí entendo que ela voltará a deslanchar e servirá novamente como referência para Mossoró.

AZOUGUE - Os critérios no peso de voto para eleições na Esam, agora Ufersa, estão corretos?

Alcindo - Não! A relação 70% professores, 15% alunos e 15% funcionários é injusta e favorece o segmento dos professores. Também não acho correto se pensar no voto universal (um por um). Veja bem, um segmento por si só não pode definir a eleição. Na instituição, o aluno é passageiro o professor é efetivo. Seria muito sem sentido que a categoria de alunos escolhesse isoladamente quem vai governar. Observe: Se eu tenho 1.000 alunos e apenas 80 professores, então tem que existir uma equivalência para que igualdade das classes aconteça. O viável, o lógico, o racional, seria uma paridade de 33,33...% para cada uma das classes.

AZOUGUE - Professor e comentarista Alcindo Júnior, para o AZOUGUE e os internautas, com certeza, o papo valeu.

Alcindo - Valeu! Sou internauta diário do azougue, e vejo a seção de entrevistas como a mais importante do site pela diversidade de pensamentos apresentados e pelos entrevistados de bom nível. Fiquei lisonjeado com o convite. Nossa amizade vem de longas datas, e pra mim sempre vale a pena colaborar com você. A oportunidade de expressar o pensamento em público é sempre boa para um educador por profissão e para um radialista por paixão. Gostaria de dizer aos que lerem essa entrevista que as críticas serão bem-vindas. Valeu, azougue!

alcindo@ufersa.edu.br

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