Mossoró-RN, de 2005
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Cid Augusto da Escóssia Rosado


Cid Augusto da Escóssia Rosado, 33 anos, jornalista, possuidor de uma incomum sensibilidade, é aquele cidadão que entende que nada na vida acontece por acaso e busca a análise dos fatos dentro da mais completa imparcialidade. Se a ele fosse dado o direito de escolher a forma de ser enterrado, pediria que fosse em pé, o que faria com que a sua razão estivesse sempre acima do seu coração. Cid sente-se bem em fazer o bem, não invade a vida do próximo e não permite invasão ao seu interior. A determinação em tudo que faz puxa pra si o respeito de todos os seus colegas e leitores. Cid é assim mesmo, um homem que vive, deixa viver e está sempre aprendendo a viver. Lendo Cid Augusto, no mínimo, nos tornamos um pouco mais inteligentes, então...


Azougue - De maneira uníssona os seus colegas dizem que você escreve divinamente bem. Isso caracteriza um provável sonho de infância, de adolescente?

Cid – Não. Quando criança, eu queria ser soldado de polícia, depois agente federal. Aos 14 anos, deixei os estudos, fui trabalhar no jornal "O Mossoroense" e me apaixonei pelo ofício de escrever. No começo foi difícil, porque eu escrevia muito mal. Aliás, eu nem gostava de ler. Hoje sou um grande leitor, mas a escrita é algo que a gente aperfeiçoa a cada dia. Isso significa que ainda não me considero pronto.

Azougue - Parada paradoxal, não?

Cid - Até certo ponto, sim. A mania por leitura nasceu por causa de um presente do meu tio Vingt-un. Pedi-lhe, sem maiores propósitos, um livro sobre história de Mossoró. Ele me entregou 50 de uma lapada só. Aí minha mãe, Sandra Rosado, aproveitou a oportunidade para ver se eu lia alguma coisa: "Leia tudo, porque tio Vingt-un vai lhe perguntar a respeito dos livros". Meu amigo, não contei conversa, devorei tudo. Tio Vingt-un continua mandando livros, mas nunca me perguntou nada a respeito deles.

Azougue - Com 14 anos de idade dentro de um jornal?

Cid – Na verdade um pouco antes. A primeira missão foi arranjar um pedreiro, veja só que início (risos). Em face das chuvas fortes no ano 1985, o rio ameaçava a invadir a sede do jornal e lá fui eu com o chefe de oficina, o velho Guerra, buscar aquele que poderia levantar uma espécie de batente para que o nosso trabalho não sofresse interrupção. Nada deu certo, a água entrou por baixo, arrebentando o piso, e inundou tudo.

Azougue - Primeira função em jornal, repórter policial. Certo?

Cid – Sim. Eu lia depoimentos de jornalistas importantes, nos quais eles afirmam que a grande escola é a reportagem policial. Eu também já pensei assim. Agora, não. Qualquer área pode ser a grande escola, se o iniciante for bem orientado e se tiver disposição para aprender.

Azougue - No início a prioridade na assinatura de Cid Augusto. O sobrenome Rosado andou virando fumaça?

Cid - "Virar fumaça"! (risos) Eu optei por Cid Augusto, para me firmar pelo meu próprio talento e não por conta do sobrenome Escóssia Rosado, que inquestionavelmente tem um peso enorme. Eu queria crescer sem o natural impulso das raízes familiares. Hoje acho que foi uma bobagem, mas uma bobagem que pegou, e todo mundo só me chama de Cid Augusto.

Azougue - Suas opiniões no jornal nunca prejudicaram politicamente os seus pais?

Cid - Com certeza sim, só que as minhas opiniões ou críticas são de alto nível. Você nunca vai encontrar agressões pessoais escritas por mim. Uma vez, por exemplo, critiquei um prefeito ligado ao meu pai e, naquele instante, papai estava em campanha, enfrentando forças poderosas. Era um momento delicado e esse prefeito ameaçou o jornalista Lúcio Flávio, de Assu. Prestei solidariedade a Lúcio e, no mesmo dia, recebi o recado: se eu não me retratasse, o prefeito romperia com papai. Comuniquei o fato a doutor Laíre, dizendo-lhe que compreendia as dificuldades, mas que não voltaria atrás. E ele, democraticamente, respeitou o meu posicionamento.

Azougue? Qual o nome desse prefeito?

Cid – Não me lembro. Do contrário, citaria sem o menor constrangimento.

Azougue - Você é dono de uma rádio e um jornal, mas a sua identificação é com a mídia impressa. O rádio nunca lhe entrou?

Cid - Eu gosto do rádio, acho bonito quem sabe fazer rádio, tiro o meu chapéu para quem sabe conduzi-lo bem, mas confesso que não tenho talento para esse universo. Participei durante uns três anos do programa "Observador Político". Foi uma experiência fantástica, principalmente por estar ao lado de três feras, doutor Laíre, Emery Costa e Edmundo Torres, mas a minha paixão é o jornalismo impresso.

Azougue – Quem é muito bom na imprensa de Mossoró e a quem você entregaria um penico?

Cid - Sou fã de Emery Costa e de Dorian Jorge Freire. Quanto à segunda parte da pergunta, prefiro não citar nomes, porque "penico" a jornalista (risada), quem entrega é o leitor.

Azougue - Voltando a dirigir o jornal "O Mossoroense", quem você buscaria para ter ao seu lado?

Cid – Tem muita gente boa para essa função. Pedro Carlos, William Robson, Juetê... Nilo Santos, a quem inclusive já fiz o convite para substituir Pedro Carlos, que optou pela TV Mossoró. Ressalte-se que esse contato com Nilo foi feito a pedido dos donos do jornal, porque o meu papel hoje é apenas escrever.

Azougue – O mercenarismo impera em alguns setores da imprensa. Divulgo isso por tanto. Deixarei de divulgar se você me pagar tanto. Um mecanismo nojento?

Cid - Infelizmente existe e é uma prática comum não só no jornalismo, mas em todos os segmentos profissionais. Eu só tenho a lamentar que isso ocorra, e quando me chega notícia de que algo do gênero aconteceu, eu sinto muita vergonha, porque embora eu acredite que uma minoria pratique esse tipo de jornalismo, essa pequena fatia acaba formando uma imagem negativa que atinge toda categoria.

Azougue - Outros planos lhe tornaram ausente no complexo resistência de comunicação. Dá pra falar sobre eles?

Cid - Claro que sim. Eu perdi muito tempo na adolescência brigando contra mim mesmo. Eu fui o famoso rebelde sem causa e uma das grandes merdas que eu fiz na vida foi deixar de estudar. Quando percebi isso, caí em campo para recuperar o tempo perdido. Concluí o Ensino Médio no Supletivo, fiz seis vestibulares, passei em cinco, só levei ferro no vestibular para Direito. Fui aprovado duas vezes no curso de Letras, duas no curso de Jornalismo e uma em Biologia. Continuo trabalhando muito para recuperar esse tempo perdido, terminei Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, estou fazendo mestrado em Lingüística Aplicada e espero conclui-lo no primeiro semestre do próximo ano, para em 2007 dar início ao doutorado, possivelmente na Espanha.

Azougue - Falar sobre o que se gosta é fórmula de felicidade. Quem faz parte da sua roda de amigos em Natal.

Cid - Muita gente. Graças a Deus tenho muitos amigos. Mas não me peça para dizer nomes, porque a omissão, mesmo involuntária, pode botar a perder velhas amizades.

Azougue -Vamos para a página política. O avô, a mãe deputados e o pai ex-deputado. Conceitue-os e qual deles merece mais aplauso?

Cid – Dona Sandra merece mais aplausos. Vingt, Laíre e Sandra são três referências em nossa família, não apenas na política: corretos, honrados, pessoas de vergonha na cara, gente de família. Mas por que a escolha de dona Sandra? Porque ela é mulher e você sabe que no mundo machista em que vivemos para que uma mulher se destaque ela precisa trabalhar no mínimo por 10 homens.

Azougue - Após 20 anos no PMDB os seus pais seguiram para o PSB. Você faria a mesma coisa.

Cid - Política não é o meu ramo. Contudo, não vou fugir da resposta, ressaltando, porém, que esta é uma opinião pessoal. O problema não está na aliança que Alves e Maias vêm construindo, mas sim a forma como o acordo vem sendo imposto às bases do PMDB e do PFL no interior. O PMDB de Mossoró não foi comunicado de nada. Garibaldi só confirmou as suspeitas, as "especulações" da imprensa, depois de muita insistência por parte de doutor Laíre, dizendo, em outras palavras: "O acordo é um projeto meu. Os incomodados que se retirem". Eu entendo que a prioridade do senador peemedebista é José Agripino. Agora, eu, Cid Augusto, já teria rompido com os Alves há muito tempo. Desde o período em que Henrique Alves tomou quase todos os prefeitos de doutor Laíre. O meu pai começou o trabalho de campanha com o apoio de quase 20 prefeitos e terminou com apenas três, porque Henrique, "correligionário", tomou todos os outros. Então, desde aquela época que eu teria rompido. No próprio governo de Garibaldi, o tratamento que foi dado em determinados momentos foi terrível. Há coisas que eu não gosto nem de lembrar porque reabrem feridas, coisas de bastidores das quais o público não tem conhecimento.

Azougue - Exemplifique?

Cid - É um assunto que me maltrata muito. Prefiro não comentá-lo.

Azougue - Isso não caracteriza bem Cid Augusto. Foi tão grave assim?

Cid - Eu entendo você, também sou entrevistador, mas esse assunto realmente é diferente e eu prefiro ficar por aqui.

Azougue - Como você está vendo a administração da governadora Wilma de Faria?

Cid – O governo Wilma carece de melhorias funcionais no interior do Estado, onde muitos cargos de confiança são ocupados por adversários da governadora, que não têm o menor interesse em favorecê-la. Trata-se de um problema compreensível e que ainda levará algum tempo para ser solucionado, porque Wilma entrou na luta pelo governo com poucos correligionários.

Azougue – Rosalba Ciarlini, 12 anos prefeita. Qual a nota que ela merece?

Cid - Nota cinco. Rosalba administrou Mossoró de modo absolutamente convencional. Ela trabalhou contra a adutora Jerônimo Rosado, porque era obra de Garibaldi, tentou fechar o Teatro Lauro Monte Filho, atrasando os aluguéis do imóvel, virou às costas para as crianças que vivem no lixão da Estrada da Raiz e torrou o dinheiro do povo na avenida Lauro Monte, aquela cujo asfalto desmanchou-se nas primeiras chuvas. A nota cinco vem pelos eventos culturais, mesmo sabendo que tais eventos foram criados para anular a imagem negativa contraída por ela depois da pendenga do teatro, e mais ainda pela sensacional estrutura de marketing que a manteve no poder.

Azougue - Quais os políticos, e na pergunta não vale familiares, que você admira no RN?

Cid - Fernando Bezerra, Robinson Faria, Getúlio Rego, José Dias, Leonardo Arruda, José Adécio, Cláudio Porpino, Fernando Mineiro, Paulo Davim...

Azougue - Você não falou sobre políticos de Mossoró. Por quê?

Cid - Tenho uma convivência cordial com os políticos mossoroenses, mas sou suspeito para falar a respeito deles. Aliás, pode colocar na lista das suspeições minha opinião sobre a administração de Rosalba. Isso não me incomoda. Deixe, então, eu citar alguns nomes dos bastidores. Gosto de Noguchi, de Gustavo e de Tasso Rosado, independentemente da política. Sou fã da inteligência e da coragem de Isaura Amélia. Todos meus primos – Tasso eu sempre chamei de tio, pela proximidade que tenho com os filhos dele – e as divergências partidárias me entristecem muito. Aliás, o mestrado e os conflitos político-familiares são os principais motivos da distância que mantenho de Mossoró, uma defesa para não perder certas ligações afetivas no calor da batalha. E em Mossoró, você sabe, campanha política dura o ano inteiro.

Azougue - Final da entrevista. Alguma outra colocação?

Cid - Agradeço o espaço no azougue.com, mas não sei o que leva um sujeito como você a ser tão sacana com os próprios leitores, botando no ar uma entrevista com respostas absolutamente sem futuro, por causa, é lógico, do entrevistado que prefere a posição de quem faz as perguntas. Como disse certa vez Dorian Jorge Freire, aprendi a escrever porque não sei falar.

Azougue – O seu amigo Hédimo Jales me falou que você "ligeiramente" embriagado, numa madrugada, foi comprar flores numa funerária. É verdade?

Cid - Você estava sério demais para o meu gosto (risos). Bom, mas a história é a seguinte: saí para beber com os amigos e voltei dois dias depois, de madrugada. No caminho, comecei a pensar no que fazer, nas desculpas, nos agrados. "Uma flor", falei para os meus botões. Procurei em todos os canteiros do caminho. E nada. Encontrei uma funerária de plantão na avenida Hermes da Fonseca. Desci do táxi, subi a escadaria, escorei-me na parede enquanto a vendedora negociava um caixão. E cochilei. "Meus sentimentos", disse ela ao me despertar. "Ainda não", retruquei, "mas se a senhora não tiver por aí uma flor vermelha, daqui a pouco, com certeza a senhora venderá mais um caixão, porque minha mulher vai me matar". Sensibilizada, a vendedora nem cobrou pela flor. Cheguei ao apartamento, acionei a campainha e me ajoelhei diante da porta, com o presente empunhado. A patroa abriu a porta com a maior tranqüilidade e, romanticamente, sentenciou: "Homem, entre logo e vá dormir que eu estou morrendo de sono".

cid@digizap.com.br.

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