Cid Augusto da Escóssia Rosado, 33 anos, jornalista,
possuidor de uma incomum sensibilidade, é aquele
cidadão que entende que nada na vida acontece
por acaso e busca a análise dos fatos dentro
da mais completa imparcialidade. Se a ele fosse dado
o direito de escolher a forma de ser enterrado, pediria
que fosse em pé, o que faria com que a sua
razão estivesse sempre acima do seu coração.
Cid sente-se bem em fazer o bem, não invade
a vida do próximo e não permite invasão
ao seu interior. A determinação em tudo
que faz puxa pra si o respeito de todos os seus colegas
e leitores. Cid é assim mesmo, um homem que
vive, deixa viver e está sempre aprendendo
a viver. Lendo Cid Augusto, no mínimo, nos
tornamos um pouco mais inteligentes, então...
Azougue
- De maneira uníssona os seus colegas dizem
que você escreve divinamente bem. Isso caracteriza
um provável sonho de infância, de adolescente?
Cid – Não. Quando criança, eu
queria ser soldado de polícia, depois agente
federal. Aos 14 anos, deixei os estudos, fui trabalhar
no jornal "O Mossoroense" e me apaixonei
pelo ofício de escrever. No começo foi
difícil, porque eu escrevia muito mal. Aliás,
eu nem gostava de ler. Hoje sou um grande leitor,
mas a escrita é algo que a gente aperfeiçoa
a cada dia. Isso significa que ainda não me
considero pronto.
Azougue - Parada paradoxal, não?
Cid - Até certo ponto, sim. A mania por leitura
nasceu por causa de um presente do meu tio Vingt-un.
Pedi-lhe, sem maiores propósitos, um livro
sobre história de Mossoró. Ele me entregou
50 de uma lapada só. Aí minha mãe,
Sandra Rosado, aproveitou a oportunidade para ver
se eu lia alguma coisa: "Leia tudo, porque tio
Vingt-un vai lhe perguntar a respeito dos livros".
Meu amigo, não contei conversa, devorei tudo.
Tio Vingt-un continua mandando livros, mas nunca me
perguntou nada a respeito deles.
Azougue - Com 14 anos de idade dentro de um
jornal?
Cid – Na verdade um pouco antes. A primeira
missão foi arranjar um pedreiro, veja só
que início (risos). Em face das chuvas fortes
no ano 1985, o rio ameaçava a invadir a sede
do jornal e lá fui eu com o chefe de oficina,
o velho Guerra, buscar aquele que poderia levantar
uma espécie de batente para que o nosso trabalho
não sofresse interrupção. Nada
deu certo, a água entrou por baixo, arrebentando
o piso, e inundou tudo.
Azougue - Primeira função em
jornal, repórter policial. Certo?
Cid – Sim. Eu lia depoimentos de jornalistas
importantes, nos quais eles afirmam que a grande escola
é a reportagem policial. Eu também já
pensei assim. Agora, não. Qualquer área
pode ser a grande escola, se o iniciante for bem orientado
e se tiver disposição para aprender.
Azougue - No início a prioridade na
assinatura de Cid Augusto. O sobrenome Rosado andou
virando fumaça?
Cid - "Virar fumaça"! (risos) Eu
optei por Cid Augusto, para me firmar pelo meu próprio
talento e não por conta do sobrenome Escóssia
Rosado, que inquestionavelmente tem um peso enorme.
Eu queria crescer sem o natural impulso das raízes
familiares. Hoje acho que foi uma bobagem, mas uma
bobagem que pegou, e todo mundo só me chama
de Cid Augusto.
Azougue - Suas opiniões no jornal nunca
prejudicaram politicamente os seus pais?
Cid - Com certeza sim, só que as minhas opiniões
ou críticas são de alto nível.
Você nunca vai encontrar agressões pessoais
escritas por mim. Uma vez, por exemplo, critiquei
um prefeito ligado ao meu pai e, naquele instante,
papai estava em campanha, enfrentando forças
poderosas. Era um momento delicado e esse prefeito
ameaçou o jornalista Lúcio Flávio,
de Assu. Prestei solidariedade a Lúcio e, no
mesmo dia, recebi o recado: se eu não me retratasse,
o prefeito romperia com papai. Comuniquei o fato a
doutor Laíre, dizendo-lhe que compreendia as
dificuldades, mas que não voltaria atrás.
E ele, democraticamente, respeitou o meu posicionamento.
Azougue? Qual o nome desse prefeito?
Cid – Não me lembro. Do contrário,
citaria sem o menor constrangimento.
Azougue
- Você é dono de uma rádio e um
jornal, mas a sua identificação é
com a mídia impressa. O rádio nunca
lhe entrou?
Cid
- Eu gosto do rádio, acho bonito quem sabe
fazer rádio, tiro o meu chapéu para
quem sabe conduzi-lo bem, mas confesso que não
tenho talento para esse universo. Participei durante
uns três anos do programa "Observador Político".
Foi uma experiência fantástica, principalmente
por estar ao lado de três feras, doutor Laíre,
Emery Costa e Edmundo Torres, mas a minha paixão
é o jornalismo impresso.
Azougue – Quem é muito bom na
imprensa de Mossoró e a quem você entregaria
um penico?
Cid - Sou fã de Emery Costa e de Dorian Jorge
Freire. Quanto à segunda parte da pergunta,
prefiro não citar nomes, porque "penico"
a jornalista (risada), quem entrega é o leitor.
Azougue
- Voltando a dirigir o jornal "O Mossoroense",
quem você buscaria para ter ao seu lado?
Cid
– Tem muita gente boa para essa função.
Pedro Carlos, William Robson, Juetê... Nilo
Santos, a quem inclusive já fiz o convite para
substituir Pedro Carlos, que optou pela TV Mossoró.
Ressalte-se que esse contato com Nilo foi feito a
pedido dos donos do jornal, porque o meu papel hoje
é apenas escrever.
Azougue
– O mercenarismo impera em alguns setores da
imprensa. Divulgo isso por tanto. Deixarei de divulgar
se você me pagar tanto. Um mecanismo nojento?
Cid
- Infelizmente existe e é uma prática
comum não só no jornalismo, mas em todos
os segmentos profissionais. Eu só tenho a lamentar
que isso ocorra, e quando me chega notícia
de que algo do gênero aconteceu, eu sinto muita
vergonha, porque embora eu acredite que uma minoria
pratique esse tipo de jornalismo, essa pequena fatia
acaba formando uma imagem negativa que atinge toda
categoria.
Azougue
- Outros planos lhe tornaram ausente no complexo resistência
de comunicação. Dá pra falar
sobre eles?
Cid
- Claro que sim. Eu perdi muito tempo na adolescência
brigando contra mim mesmo. Eu fui o famoso rebelde
sem causa e uma das grandes merdas que eu fiz na vida
foi deixar de estudar. Quando percebi isso, caí
em campo para recuperar o tempo perdido. Concluí
o Ensino Médio no Supletivo, fiz seis vestibulares,
passei em cinco, só levei ferro no vestibular
para Direito. Fui aprovado duas vezes no curso de
Letras, duas no curso de Jornalismo e uma em Biologia.
Continuo trabalhando muito para recuperar esse tempo
perdido, terminei Comunicação Social,
com habilitação em Jornalismo, estou
fazendo mestrado em Lingüística Aplicada
e espero conclui-lo no primeiro semestre do próximo
ano, para em 2007 dar início ao doutorado,
possivelmente na Espanha.
Azougue
- Falar sobre o que se gosta é fórmula
de felicidade. Quem faz parte da sua roda de amigos
em Natal.
Cid
- Muita gente. Graças a Deus tenho muitos amigos.
Mas não me peça para dizer nomes, porque
a omissão, mesmo involuntária, pode
botar a perder velhas amizades.
Azougue -Vamos para a página política.
O avô, a mãe deputados e o pai ex-deputado.
Conceitue-os e qual deles merece mais aplauso?
Cid
– Dona Sandra merece mais aplausos. Vingt, Laíre
e Sandra são três referências em
nossa família, não apenas na política:
corretos, honrados, pessoas de vergonha na cara, gente
de família. Mas por que a escolha de dona Sandra?
Porque ela é mulher e você sabe que no
mundo machista em que vivemos para que uma mulher
se destaque ela precisa trabalhar no mínimo
por 10 homens.
Azougue
- Após 20 anos no PMDB os seus pais seguiram
para o PSB. Você faria a mesma coisa.
Cid
- Política não é o meu ramo.
Contudo, não vou fugir da resposta, ressaltando,
porém, que esta é uma opinião
pessoal. O problema não está na aliança
que Alves e Maias vêm construindo, mas sim a
forma como o acordo vem sendo imposto às bases
do PMDB e do PFL no interior. O PMDB de Mossoró
não foi comunicado de nada. Garibaldi só
confirmou as suspeitas, as "especulações"
da imprensa, depois de muita insistência por
parte de doutor Laíre, dizendo, em outras palavras:
"O acordo é um projeto meu. Os incomodados
que se retirem". Eu entendo que a prioridade
do senador peemedebista é José Agripino.
Agora, eu, Cid Augusto, já teria rompido com
os Alves há muito tempo. Desde o período
em que Henrique Alves tomou quase todos os prefeitos
de doutor Laíre. O meu pai começou o
trabalho de campanha com o apoio de quase 20 prefeitos
e terminou com apenas três, porque Henrique,
"correligionário", tomou todos os
outros. Então, desde aquela época que
eu teria rompido. No próprio governo de Garibaldi,
o tratamento que foi dado em determinados momentos
foi terrível. Há coisas que eu não
gosto nem de lembrar porque reabrem feridas, coisas
de bastidores das quais o público não
tem conhecimento.
Azougue
- Exemplifique?
Cid
- É um assunto que me maltrata muito. Prefiro
não comentá-lo.
Azougue
- Isso não caracteriza bem Cid Augusto. Foi
tão grave assim?
Cid
- Eu entendo você, também sou entrevistador,
mas esse assunto realmente é diferente e eu
prefiro ficar por aqui.
Azougue
- Como você está vendo a administração
da governadora Wilma de Faria?
Cid
– O governo Wilma carece de melhorias funcionais
no interior do Estado, onde muitos cargos de confiança
são ocupados por adversários da governadora,
que não têm o menor interesse em favorecê-la.
Trata-se de um problema compreensível e que
ainda levará algum tempo para ser solucionado,
porque Wilma entrou na luta pelo governo com poucos
correligionários.
Azougue
– Rosalba Ciarlini, 12 anos prefeita. Qual a
nota que ela merece?
Cid
- Nota cinco. Rosalba administrou Mossoró de
modo absolutamente convencional. Ela trabalhou contra
a adutora Jerônimo Rosado, porque era obra de
Garibaldi, tentou fechar o Teatro Lauro Monte Filho,
atrasando os aluguéis do imóvel, virou
às costas para as crianças que vivem
no lixão da Estrada da Raiz e torrou o dinheiro
do povo na avenida Lauro Monte, aquela cujo asfalto
desmanchou-se nas primeiras chuvas. A nota cinco vem
pelos eventos culturais, mesmo sabendo que tais eventos
foram criados para anular a imagem negativa contraída
por ela depois da pendenga do teatro, e mais ainda
pela sensacional estrutura de marketing que a manteve
no poder.
Azougue
- Quais os políticos, e na pergunta não
vale familiares, que você admira no RN?
Cid - Fernando Bezerra, Robinson Faria, Getúlio
Rego, José Dias, Leonardo Arruda, José
Adécio, Cláudio Porpino, Fernando Mineiro,
Paulo Davim...
Azougue
- Você não falou sobre políticos
de Mossoró. Por quê?
Cid
- Tenho uma convivência cordial com os políticos
mossoroenses, mas sou suspeito para falar a respeito
deles. Aliás, pode colocar na lista das suspeições
minha opinião sobre a administração
de Rosalba. Isso não me incomoda. Deixe, então,
eu citar alguns nomes dos bastidores. Gosto de Noguchi,
de Gustavo e de Tasso Rosado, independentemente da
política. Sou fã da inteligência
e da coragem de Isaura Amélia. Todos meus primos
– Tasso eu sempre chamei de tio, pela proximidade
que tenho com os filhos dele – e as divergências
partidárias me entristecem muito. Aliás,
o mestrado e os conflitos político-familiares
são os principais motivos da distância
que mantenho de Mossoró, uma defesa para não
perder certas ligações afetivas no calor
da batalha. E em Mossoró, você sabe,
campanha política dura o ano inteiro.
Azougue - Final da entrevista. Alguma outra
colocação?
Cid
- Agradeço o espaço no azougue.com,
mas não sei o que leva um sujeito como você
a ser tão sacana com os próprios leitores,
botando no ar uma entrevista com respostas absolutamente
sem futuro, por causa, é lógico, do
entrevistado que prefere a posição de
quem faz as perguntas. Como disse certa vez Dorian
Jorge Freire, aprendi a escrever porque não
sei falar.
Azougue
– O seu amigo Hédimo Jales me falou que
você "ligeiramente" embriagado, numa
madrugada, foi comprar flores numa funerária.
É verdade?
Cid
- Você estava sério demais para o meu
gosto (risos). Bom, mas a história é
a seguinte: saí para beber com os amigos e
voltei dois dias depois, de madrugada. No caminho,
comecei a pensar no que fazer, nas desculpas, nos
agrados. "Uma flor", falei para os meus
botões. Procurei em todos os canteiros do caminho.
E nada. Encontrei uma funerária de plantão
na avenida Hermes da Fonseca. Desci do táxi,
subi a escadaria, escorei-me na parede enquanto a
vendedora negociava um caixão. E cochilei.
"Meus sentimentos", disse ela ao me despertar.
"Ainda não", retruquei, "mas
se a senhora não tiver por aí uma flor
vermelha, daqui a pouco, com certeza a senhora venderá
mais um caixão, porque minha mulher vai me
matar". Sensibilizada, a vendedora nem cobrou
pela flor. Cheguei ao apartamento, acionei a campainha
e me ajoelhei diante da porta, com o presente empunhado.
A patroa abriu a porta com a maior tranqüilidade
e, romanticamente, sentenciou: "Homem, entre
logo e vá dormir que eu estou morrendo de sono".
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