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HIPÓLITO
MONTE
Um
dos maiores entusiasmos na infância: ser o porteiro da
Flama. Uma mais que real e constante alegria, o encontro com
amigos de Mossoró. Comentar o Hospital Monteklinikum
e a expulsão do Colégio Santo Inácio sem
mudar a tonalidade de voz caracterizam, acima de tudo, o seu
caráter. O carinho por Mossoró tem a mesma intensidade
do amor pela profissão. O médico cirurgião
Hipólito Monte tem 53 anos e numa dessas bonitas gargalhadas
do destino coube ao chofer de praça, meu pai, Zé
Izídio, a tarefa de levar D. Aldiva para a maternidade,
num 9 de dezembro, para que o entrevistado viesse ao mundo.
Há 29 anos no Ceará, estado que vê com uma
profunda paixão, se me fosse dada a missão de
criar um slogan a este cara fantasticamente brincalhão,
diria: "HIPÓLITO MONTE, ETA ‘MOSSOROEN -CE’
ADMIRÁVEL".
AZOUGUE
- Qual o momento mais bonito do médico Hipólito
Monte?
Hipólito
Monte - Eu trabalhava todos os domingos no Instituto
José Frota de Parangaba, em meados de 1982, e logo ao
chegar me sentei para o atendimento, quando um homenzarrão
de quase 2 metros de altura dá um chutão na porta,
foi caco de porta para tudo que é lado, e carregava nos
braços uma mulher, colocando-a naquilo que a gente chama
de pedra e desesperado disse: “Doutor, pelo amor de Deus
faça alguma coisa pela minha mulher”. A senhora
estava com a cabeça literalmente partida ao meio. Grávida,
ela encontrava-se sentada numa rede quando uma das colunas da
casa caiu por cima do seu crânio. Eu e a minha equipe
fizemos absolutamente tudo que era possível, mas ela
faleceu e mesmo assim conseguimos salvar o menino e a ele foi
dado de batismo o nome Hipólito. Eu confesso que foi
o instante mais legítimo que a profissão me proporcionou.
AZOUGUE
- Cite uma das muitas regras que fazem o profissional ser considerado
realmente um bom médico?
HM
- O médico não deve chorar e isso não
significa insensibilidade. Eu sou meloso e muito. Agora ele
tem que se virar, engolir, dar um nó na garganta, fazer
uma derivação do seu saco lacrimal, mas não
pode se permitir transparecer o momento de sentimento, de hesitação,
para aquelas pessoas que entendem naquele momento ser você
a salvação deles. O paciente e seus familiares
não podem entender que eu absolvi a dor deles, se sou
eu, exatamente o seu maior depósito de confiança.
Veja, o médico não cuida apenas do paciente e
sim da família também, que é uma condição
de extrema responsabilidade.
AZOUGUE
- Tratar de um paciente, tornar-se amigo e habituar-se a ele
e o que o espera é o óbito. É duro para
um médico?
HM
- É muito duro, agora você tem que dar
uma introvertida na sua vida, você se torna recluso 2
ou 3 dias. É uma luta que a gente tem todo dia e muitas
vezes a gente perde pra ela. Há um amargo muito grande,
mas a consciência de que outras vidas te esperam e dependem
de você, traz a superação.
AZOUGUE
- Você se vê como um bom médico?
HM-
Eu faço com o Caby, meu paciente, exatamente
o que faria comigo. Se isso é ser um bom médico,
quem me conhece, ou o internauta do azougue.com,
que achar conveniente faça o julgamento.
AZOUGUE
- A falta de dinheiro no bolso de um paciente é problema?
HM
- Se você pensou, ou quem pensar assim enganou-se
redondamente. A falta de dinheiro no bolso do paciente, como
você colocou, para mim, nunca foi, não é
e jamais será problema. O problema existe, mas de maneira
inversamente contrária. O problema, Caby, é o
excesso do dinheiro. As pessoas que têm muito aquele negocinho
chamado dinheiro pensam que ele também compra caráter,
e aí, velho, com o mossoroense aqui, filho de seu João
Monte e D. Aldiva, essa situação é totalitariamente
repudiada.
AZOUGUE
- Casado e também escravo da profissão?
HM-
Eu acho que há uma verdadeira mistura. O que
tenho visto, observado nos últimos tempos, me obriga
a fazer a devida diferenciação. Não sei
se conseguirei, mas já disse a mim mesmo que vou tentar
de todas as formas. Por exemplo, amanhã, 15 de abril,
sábado de aleluia, (a entrevista foi realizada na sexta-feira
14/4) eu tenho uma cirurgia programada e logo após vou
relaxar em uma praia, pelo menos isso (risos) está programado.
Olha, eu tenho que lhe confessar uma coisa. Eu acho que não
conheço mais o litoral do Ceará e aí eu
posso lhe dizer que fui realmente escravo da minha profissão.
Foi um erro chegar a essa condição? Foi sim e
assumo inteiramente essa culpa. Observe: você pode errar
um vez, agora o segundo erro, no mesmo segmento, dificilmente
se recupera.
AZOUGUE
- Qual o significado do Hospital Monteklinikum na sua vida?
HM
- Vou pegar carona na última palavra; "MINHA
VIDA". O Monteklinikum nasceu, sem alardes, no dia 4 de
outubro de 1999 e na verdade de convidados teve apenas a minha
família. O padre português, Luis Carlos, muito
amigo meu no período noturno, deu a benção
em toda a estrutura e já no dia seguinte eu fiz 4 cirurgias
de vesícula. Eu tenho dito que o nosso hospital abriu
uma nova era na medicina cearense. Logo, logo a sua estrutura
será ampliada em 60%, eu tenho um projeto de 20 andares,
num terreno ao lado, que contará com heliporto. Eu vou
fazer do Monteklinikum o maior hospital do Nordeste. Nós
já estamos criando o Instituto Hipólito Monte
que vai cuidar exclusivamente de doenças do trato digestivo,
esôfago, vesícula, pâncreas e por aí
vai.
AZOUGUE
- E o significado de João Monte e D. Aldiva, D. Albaniza,
Mariana e Tasso?
HM
- Se quer saber mesmo, então lá vai.
O senhor João Monte, D. Aldiva e também Albaniza
estão sentados em três cadeiras lá em cima
e eu sou o pitbull deles. Eu estou por causa deles, eu sou por
conta deles e honestamente esta entrevista está me dando
a oportunidade de fazer algumas revelações, em
alguns instantes eu me desnudo. Olha, em muitos momentos eu
os deixei de lado em prol do Monteklinikum. O hospital me tirou
tempo, muito tempo do convívio com eles e veja como eles
são gratificantemente lindos. Deles nunca recebi uma
reclamação e sempre eternas palavras de incentivos.
Mariana e Tasso, simpáticos como a avó, inteligentes
como o avô e bonitos (e mais risos) como o pai.
AZOUGUE
- Do Hipólito porteiro da Flama ao Hipólito diretor
do Monteklinikum, muita diferença?
HM
- Primeiro eu quero saber quem te falou sobre o meu
primeiro emprego? (risos). Não precisa falar nada, aí
tem a boquinha de D. Aldiva. Eu sou o mesmo, o mesmíssimo
Hipólito. Caby, eu sou o mesmo moleque que jogava bola
no adro da igreja São Vicente, no Colégio Diocesano,
que foi expulso do terceiro científico no Colégio
Santo Inácio. Existem pessoas que não se aproximam
de mim porque imaginam que eu meço caráter por
funções, posições. Que se afastem
de mim porque eu sou feio sim (risos) (e aí entrou a
voz do Borjão, "feio é apelido"), agora
nada me sobe à cabeça, eu sou aberto a diálogos,
eu só não gosto de ouvir besteiras, por eu vejo
que a vida passa rapidamente e atentar-se a besteira é
construir obstruções para os seus próprios
caminhos. Eu sou aquele mossoroense que domina por questões
éticas as emoções, quando recebe um seu
conterrâneo na condição de paciente. Dentro
de mim uma felicidade tremenda saber que tenho o respeito daqueles
que na verdade são as minhas raízes e você
está vendo um exemplo. Meu amigo, encontrar-me agora,
no Hotel Luzeiros, com o Borjão, aliás, eu não
quero mais conversar com você, meu papo é com o
Borjão, afinal de contas só assim ele pagará
a conta (gargalhada).
AZOUGUE
- A parada é com você Borjão, fale sobre
Hipólito Monte?
BORJÃO
- Nós fomos criados juntos, uma convivência
realmente fraterna. O sentido de amizade existente na época
não se vê mais hoje em dia. Hoje se observa as
"amizades aproveitadoras". Hipólito não
é o amigo que sempre chega, é o que sempre está.
AZOUGUE
- Saudades de Mossoró?
HM
- Coloque em destaque na entrevista: uma saudade
tremenda e entendo que o fato há pouco ter falado,
que em muitos momentos me deixei engolir pela profissão,
a ponto de não acompanhar como queria e devia, no dia-dia,
meus pais, meus filhos, a condição de ser desculpado
pela ausência de 21 anos, existirá. Olha, à
distância, eu fiquei feliz e ao mesmo tempo consumindo
um traguinho de tristeza por não estar presente no reencontro
que houve da turma do Colégio Diocesano dos anos 67,
68. Porém, este ano eu irei a Mossoró, até
porque você sabe, que praga de padre pega e como pega
(risos) e eu soube que se eu não aparecer vai ter um
padre de nome Sátiro que não me perdoará
e poderá jogar-me uma praga. Isso eu soube através
de amigos que poderá acontecer, portanto com muito prazer
lá estarei para rever a minha terra, os meus amigos.
AZOUGUE
- Para finalizar, informo-lhe que o azougue.com cresceu muito
com este contato. Algo a acrescentar?
HM
- Sim, é claro que sim. Eu vou mudar as peças.
Agora sou o entrevistador. Duas perguntas. Você pode me
informar se o Borjão tem ido muito a Tibau? E se também
foi o Borjão que colocou esse tubo de suco de morango
na sua mesa? (Risos fecharam a entrevista).
hipolito@monteklinikum.com.br
caby@azougue.com
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