Joaquim
Neto - De bodegueiro de frutas a empresário.
De matutão de Serrinha dos Pintos a presidente
da CDL de Mossoró. De vendedor de livros
expulso de pensão a grande amigo dos seus
quase cem funcionários. De filho fã
do pai, a direto assessor da esposa e filhas.
A chave do sucesso que carrega é grandiosa:
“Faço do obstáculo um desafio,
jamais do desafio um obstáculo. Uma agradável
conversa com este cidadão de 43 anos de
idade, chamado Joaquim Neto.
Azougue - Matutão de Martins a
empresário. Um caminho curto e fácil?
Neto - Em primeiro lugar, não era apenas
um matuto de Martins e sim de Serrinha dos Pintos,
na época um distrito de Martins. E em segundo
lugar, para chegar à condição
de empresário foi trilhada uma estrada
longa e árdua.
Azougue - Então conheçamos
essa estrada.
Neto - Pois não. Meus pais tiveram 12 filhos
e prematuramente dois faleceram, sendo que uma
irmã com apenas 11 anos morreu afogada
num açude e na época eu tinha 6
anos. Por aí você já imagina
que barra que foi a nossa infância. Sobraram
3 homens e 6 mulheres. Em 1974, as duas mais velhas
vieram para Mossoró e eu só aportei
nesta terra em 1978, com 16 anos de idade. Só
que antes disso, aos 13 anos, eu pedi ao meu pai
que era bodegueiro que me desse condição
de também ganhar o meu próprio dinheiro
e o caminho foi aberto. Eu levava nuns caixões
determinada quantidade de bananas, mamões,
mangas e pegava um expresso para a cidade de Pau
dos Ferros. Lá eu vendia tudo e percebi
que tinha um caminho aberto na volta. O que eu
fazia: levava as frutas e passei a trazer para
a minha terra tomates, cenouras, batatinhas e
por aí me tornei um bodegueiro cigano que
hoje receberia o nome de itinerante. Esse período
de “bodegueiro cigano” demorou cerca
de 2 anos e meio e aí veio a seca e tive
que colocar um ponto final na primeira profissão.
Azougue - Aí veio a frase: Mossoró
à vista?
Neto - (risos). Essa colocação é
interessante. Chegou a vez de “Mossoró
à vista “ e eu atraquei o meu navio
neste porto com 16 anos. Meu primeiro emprego
foi na Casa Medeiros, do seu Medeiros, que ainda
existe na rua Coronel Gurgel. Eu batalhava mais
ou menos 10 horas por dia. Eu abria a loja, tirava
a mercadoria dos caminhões, empacotava,
ajudava a vender, ia para banco, enfim eu era
o faz-tudo, mas não era exatamente aquilo
que eu queria. Amigo, só deu para agüentar
4 meses, até porque por ser de menor eu
só podia receber a metade do salário
mínimo, o que seria a preço de hoje
R$ 130,00.
Azougue - Qual o próximo passo?
Neto - Vendedor de livros. Encarei trabalhar na
empresa Norte Livros e fui à luta. Agora
sinta a minha estréia e recordo-me que
a primeira visita foi na praça da Redenção.
Bati palmas e o cidadão já foi falando:
Amigo, se você é vendedor de livros
pode dar meia volta que eu não tenho tempo
a perder. Cabisbaixo, voltei para a empresa. No
outro dia fui ao Banco do Brasil, apresentei uma
enciclopédia da Editora Abril que tratava
de agricultura para o chefe da carteira agrícola.
O homem se interessou para ver mais e eu disse:
Eu vou buscar mais fascículos no meu carro
(Caby, eu não tinha nem uma bicicleta,
imagine carro), corri para a empresa, peguei o
material e o cidadão ficou maravilhado
com o que viu. Ele me passou um cheque e fiquei
igual a um semáforo. Ele assinando o cheque
e eu igual a um semáforo, radiante de felicidade.
Fiquei da cor verde, amarela, vermelha e aí
dos 16 aos 18 anos fui vendedor de livros rodando
o Estado todo. Mas, nem tudo foi um mar de rosas.
Eu cheguei a ser expulso por falta de pagamento
de uma pensão em Natal. Na verdade, foi
um período que me ensinou muito e eu com
certeza se tivesse que começar tudo de
novo, percorreria o mesmo caminho.
Azougue - No retorno fixou-se definitivamente
em Mossoró?
Neto - Isso mesmo. Arranjei um emprego no Armazém
Rio Branco, onde passei 3 anos como vendedor e
3 como gerente de vendas, só que neste
ínterim eu coloquei uma lojinha para mim,
período em que me casei e o seu Tarcílio
Viana me pediu para que optasse. Ou eu ficava
trabalhando para ele, ou tomaria de conta com
a minha esposa da pequena empresa que havia criado.
Preferi a segunda opção. Em meio
a tudo isso depois de muita insistência
do meu sogro, passei a somar com ele numa loja
de vendas de retentores, rolamentos, isso sem
me desligar dos tecidos. Aí nós
tínhamos dois canais de sobrevivência
e a coisa foi fluindo.
Azougue - E a Neto Autopeças como
surgiu?
Neto - O período em que estive com o meu
sogro, que foi um outro pai, senhor Francisco
Bezerra de Freitas, me abriu muitas portas nesse
ramo e o tempo foi ficando exíguo para
as confecções. No dia 2 de maio
de 1990 nasceu então a Neto Autopeças.
Azougue - A ascensão da Neto Autopeças
se deu num tempo muito rápido?
Neto - Eu lhe digo que sempre fui muito iluminado
por Deus, e também buscava a todo instante
fazer bem a minha parte. Olha Caby, eu nunca reclamei
por estar trabalhando muito. Trabalhar muito me
faz um bem tremendo. Eu lhe confesso que esperava
colher esses frutos, mas num tempo mais prolongado.
Talvez o fato de ter sido um cara ousado, e acho
que pra se atingir objetivos a ousadia é
fundamental, o patamar em que nossa empresa chegou
tem desafiado o próprio tempo. São
15 anos sempre de avanços, sem perder em
nenhum segundo a humildade. Contamos hoje com
quase 100 funcionários em nossos quadros,
e com fortes perspectivas de uma ampliação
neste universo que abraçamos.
Azougue - A Neto Autopeças te fez
chegar a uma posição social de destaque?
Neto - Você pode até tentar enganar
o próximo, agora tentar se enganar é
muita fraqueza. Eu fui presidente do Rotary Clube
Mossoró Oeste com 39 anos de idade e presido
a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) aos
43. Seria utópico dizer que a nossa empresa
não foi o grande trampolim para que os
convites me fossem dirigidos.
Azougue - Você é o presidente
da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL).
O seu trabalho é bem aceito?
Neto - Eu vou ser curto, porém não
grosso. Nós temos avançado muito
e todas as tarefas que colocamos em ação
tiveram seus objetivos atingidos. Eu prefiro que
essa pergunta você dirija aos que fazem
a diretoria e sócios da entidade. Olha
lá, hein, eu estou sendo curto, mas não
estou sendo grosso (risos).
Azougue - Você é um empresário
de destaque nesta nova safra. Pode citar-me outros
nomes que estejam no mesmo circuito?
Neto - Vou citá-los, porém se houver
o esquecimento de algum de pronto já estou
pedindo desculpas. Pelo que vejo o azougue.com
tem a cara do dono. Não deixa barato (risos).
Vamos lá: Glênio Diniz, Tião
Couto e Marquinhos da Prest, Júnior Rebouças,
Walter Silveira, o grupo Queiroz, o Wilson da
W.R, e outros, mas como não pude fugir
das citações, aí a minha
resposta.
Azougue - Tem algum empresário
nesta terra que você não aplaude
sob hipótese alguma?
Neto - Você não muda mesmo, Caby,
sempre vestindo a camisa da autenticidade, porém
eu me permito dizer que tem sim. Tem aquele que
de maneira nenhuma desfruta da minha admiração,
só que o seu nome não será
ventilado e não adianta insistir.
Azougue - Joaquim Neto é um vencedor?
Neto – Olha, até o momento todos
os obstáculos, adversidades que tive pela
frente, de uma maneira muito digna eu consegui
transpor e se isso pode ser caracterizado como
vitórias, sem nenhuma vaidade e sim com
muita humildade, posso me considerar um vencedor,
consciente de que outras adversidades virão,
outros desafios serão encontrados, no que
peço a Deus sempre para me dar forças
para encarar de maneira honesta e firme todos
eles.
Azougue - Estamos gratos pela entrevista.
Neto - Eu só lamento uma coisa nesta entrevista
testemunhada pelo grande profissional Osman Moreira.
Olha, estar nesta delícia de restaurante
chamado Travessia, neste papo mais que saudável,
você no seu campari, Osman na cerveja supergelada
e por conta de alguns medicamentos que estou tomando,
ficar apenas olhando essa dupla beber, é
realmente deveras lamentável. Na verdade,
a compensação aconteceu com o saudável
papo. E pra finalizar, posso lhe adiantar que
estou ansioso para ver o seu novo livro de nome
DO BUMBA. Estarei aqui no dia do lançamento
com prazer.