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JOSÉ
DIAS CUNHA
Aos 15 anos
de idade, vim para Mossoró, em cima de um caminhão
carregado de algodão, vestindo uma roupa brim surrada,
calçando alpargatas de rabicho e a mala era um saco com
um cadeado. Solteiro, mas cheio de namoradas. Elas são
bem briguentinhas (risos). Aliás, eu e João Monte
nos pelamos de medo das nossas esposas. Pedi para que Armando
fechasse os olhos e com uma tesoura cortei 50% dos cílios,
ele deu um berro, mas a galinha já tava morta. Ele até
hoje não me perdoa (risos).
Azougue
– A luta pela sobrevivência chegou cedo na sua vida?
José
Dias Cunha – Sim e sem reclamações.
Eu nasci no distrito de Gavião, pertencente à
cidade de Martins, apesar da grande maioria das pessoas identificarem
Umarizal como a minha cidade-natal. O meu irmão Manoel
Dias da Cunha gerenciava o antigo bar Suez e me convidou para
ajudá-lo. Aos 15 anos de idade, vim para Mossoró,
em cima de um caminhão carregado de algodão, vestindo
uma roupa brim surrada, calçando alpargatas de rabicho
e a mala era um saco com um cadeado. Desci na praça Rodolfo
Fernandes e por lá passei oito anos. Eu limpava o chão,
servia como garçom. Os proprietários do bar Suez
eram os senhores Humberto Mendes e João Costa. Eu trabalhava
pela manhã e à tarde, estudava à noite
na Escola Técnica União Caixeiral e depois das
22h retornava para o emprego, morando num quartinho dentro do
próprio bar.
Azougue
– Essa fase perdurou por quanto tempo?
José
Dias Cunha – Por oito anos. E como eu já
tinha um apresentável bom grau de escolaridade, com a
conclusão do curso de Contabilidade as propostas começaram
a surgir, como o de gerenciar a loja Setra, do grupo Guararapes,
hoje Riachuelo, logo em seguida um chamado de Analino Salgado
me fez caminhar para condição de vendedor de jóias,
relógios e segmentos da linha. No ano 1953, passei a
ser o famoso caixeiro-viajante, tendo como rota sete estados,
tipo Ceará, Bahia, RN e por aí vai. As viagens
eram de trem, ônibus, pequenos barcos e navios pelo rio
São Francisco e às vezes em aviões bimotores.
Andei, rodei e cansei. Foram quatro anos na condição
de caixeiro-viajante.
Azougue
– Ainda solteiro na época?
José
Dias Cunha – Solteiro, mas cheio de namoradas.
(Um grito da sua esposa, senhora Sherly, interrompeu a entrevista,
com espaços para risadas): “Mentira, Caby, é
mentira desse velho”.
Azougue
– E a convivência com dona Sherly, começou
quando?
José
dias Cunha – Em novembro de 1954. (Novamente
entra em ação a sua eterna companheira): “Nada
disso, foi em abril”. Quando eu viajava, já namorava
a dona encrenca. Você sabe como é, bonitão
como sempre fui (risadas), solto na buraqueira, sempre, sempre
aparecia um “caqueado”, e a patroa chegou a pegar
cartas de jovens apaixonadas, e como tem aquela velha estória,
a carne é fraca e... e.... é melhor mudarmos de
assunto.
Azougue
– Mudando o panorama. Dona Sherly, esses “caqueados”,
existiram mesmo?
Sherly
Dias – Ele viajava muito, e vez por outra eu
encontrava bilhetinhos em seus bolsos, cartinhas, aí
meu filho o pau quebrava (risos).
Azougue
– Como nasceu a Ótica Vênus?
José
Dias Cunha – Eu tinha o pensamento de ter o meu
porto seguro e por conta disso não estourava o que ganhava.
Fiz economias e no dia 18 de março de 1957, exatamente
na rua Coronel Gurgel, 314, inaugurei a Ótica Vênus.
Caby, frise aí que foi a pioneira de Mossoró,
tendo em seus quadros apenas uma funcionária chamada
de Lurdinha, filha de Vicente Lopes. Depois outras grandes figuras
como Zoraide Azevedo, Nilsa Fernandes e Laurinete Bezerra que,
inclusive, foi miss Rio Grande do Norte. Recordo-me que o primeiro
cliente da ótica foi o hoje finado Ildo Rocha. A mudança
de endereço comercial para os cruzamentos das ruas Dr.
Antonio de Sousa/Idalino de Oliveira se verificou no dia 18
de novembro de 1964, onde me encontro até hoje.
Azougue
– Para a época, quais os homens que eram considerados
ricos?
José
Dias Cunha – Sinceramente que eu só via
um homem realmente possuidor de uma boa fortuna, que era o senhor
Manoel Fernandes de Negreiros. Ele tinha praticamente 50% dos
prédios localizados no centro de Mossoró. Agora,
o maior “comerciante” que eu já conheci foi
Camilo Paula. Esse fazia negócios mirabolantes, com todas
as partes ficando satisfeitas.
Azougue
– Fale sobre a famosa entrada para o rol dos homens sérios?
José
Dias Cunha – Eu tenho que dizer que foi o passo
mais certo que dei em minha vida, afinal você inventa
de fazer esta entrevista na frente da dona Sherly (risada).
Brincadeira, não vá colocar isso aí, não.
Foi e é uma beleza absoluta. Assumimos essa bonita parceria
no dia 15 de novembro de 1958. Recentemente completamos 50 anos
de bem casados e há um fato curioso e interessante: A
nossa lua-de-mel foi em Tibau e as bodas de ouro também
tiveram como testemunha a brisa do aprazível mar, distante
de Mossoró 38 quilômetros. Olha que tentei repetir
a façanha de meio século atrás, mas...
mas... ficou só no tal do, mas, mas, e com mais um detalhe,
eu sonhei me casando de novo, dei um pulo da cama e por pouco
não quebrei o pescoço.( Aí tome mais gargalhada
do casal).
Azougue
– Os herdeiros também seguiram os seus passos?
José
Dias Cunha – Leilane e Dias Filho de maneira
absoluta e Aécio, indiretamente, sim, já que se
formou em oftalmologia, atuando no Hospital Monte Klinikum,
de Fortaleza, cujos dirigentes são familiares nossos,
o que é uma honra. Aliás, Caby, eu sei que você
tem uma boa amizade com João Monte/Aldiva e Hipólito.
Você não acha que Sherly, parece muito com Aldiva,
pelo menos no temperamento? Elas são bem briguentinhas
(risos). Aliás, eu e João Monte nos pelamos de
medo das nossas esposas. Voltando aos filhos, Dias Filho, já
aos 12 anos de idade, me acompanhava fazendo serviços
de banco e etc. Ele sempre teve um tirocínio comercial
muito grande. Já Leilane, assistente social, chegou a
trabalhar no hospital, na época Tancredo Neves, tendo
posteriormente inaugurado a sua própria ótica.
No contexto geral, são oito óticas na nossa boa
terra Mossoró.
Azougue
– O senhor José Dias é chegado a uma “presepada”.
Pode me contar algumas peripécias?
José
Dias Cunha – E nessa pergunta com certeza tem
os dedos de Dias Filho e Aécio. Olha, Sherly passava
o dia trabalhando na condição de funcionária
do Estado do RN, lotada na Secretaria de Educação,
e os meninos ficavam com as famosas secretárias. Mesmo
com muita insistência minha, ela jamais falou em deixar
o emprego. Fiz o seguinte. Enviei um telegrama em nome dela
pedindo demissão do cargo. Quando cheguei a nossa casa,
falei. Você vai ficar em casa. Eu acabei de lhe demitir.
Mostrei o telegrama e com muita luta veio a resignação.
Detalhe: anos e anos depois buscamos em Natal a papelada para
tratarmos da sua aposentadoria. A funcionária da secretaria
colocou: “A senhora vai assumir que posto?” Sherly
ficou por cerca de 30 anos como funcionária, e o seu
procurador, cujo nome prefiro não citar, papava o seu
salário. Não fomos atrás da situação,
até porque não valia a pena. Teve outra com o
Armando Negreiros, filho de Rafael e Elizabeth, quando ele tinha
mais ou menos oito anos de idade. Após ser consultado,
se a memória não me falha, pelo oftalmologista
Fernando Couto, veio até a nossa ótica. O garoto
tinha um volmer baixo e a ponta dos óculos era meio larga
com os cílios, por sinal, bastante alongados tocando
nas lentes. Eu tentei, busquei fórmulas e nada de dar
certo, e o tempo foi passando. Pedi para que Armando fechasse
os olhos e com uma tesoura cortei 50% dos cílios, ele
deu um berro, mas a galinha já tava morta. Ele até
hoje não me perdoa (risos).
Azougue
– O nosso abraço e agradecimento pela conversa.
José
Dias Filho – Obrigado a você pela consideração
e estamos sempre à sua disposição.
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caby@azougue.com
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