Mossoró-RN, de 2005
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LUIZ TEOTÔNIO DE PAULA NETO - PAULINHO DA HONDA


O Paulinho da Honda que eu conhecia era aquele cara com atenções sempre voltadas para o trabalho. Conhecia o cara que objetivava rapidamente os seus pensamentos. O sim e o não sempre na ponta da língua. Conhecia o empresário empreendedor. Conhecia o homem que dedicava no mínimo todos os dias, duas horas para a leitura geral. Conhecia o viajante que já percorreu boa parte dos cinco continentes. Em Natal, sábado, 2 de abril, conheci o descontraído e muitas vezes brincalhão Paulinho, que jamais se imaginou distante da família, que reza todos os dias, que em momentos da entrevista deu uma atracada com a sua emotividade. Conheci sem tirar nem pôr uma figura extremamente saudosista que vibrou ao falar dos amigos de infância, que pôs para fora o seu lado romântico ao ouvir Elimar Santos. Conheci o Paulinho preocupado com o próximo e, principalmente, com os rumos da sua cidade. Neste contato, entendi que ele, a exemplo de todos, também tem seus defeitos. Pouco inteligente é aquele que não fizer jus à sua autenticidade. Um registro não feito na entrevista. Disse-lhe: tenho 47 anos de idade e não sei pilotar um moto e dele ouvi. Também de TAMANCOS É QUEDA NA CERTA. Aí tive que desligar o gravador para nos recuperarmos das belíssimas gargalhadas disparadas. Com certeza este papo vai lhe interessar.


Azougue - De Mossoró para Recife ainda bem jovem?

Paulinho - Eu nasci em 22 de agosto de 1944 e já aos 15, o meu pai, senhor José Pereira, resolveu me mandar para Recife, cujo objetivo era o andamento e a conclusão dos estudos. Lá morei 6 anos, sendo 3 deles interno no Colégio Salesiano e 3 dividindo um apartamento com pessoas de Mossoró.

Azougue - Quem eram essas pessoas?

Paulinho - Cito-as com muito prazer, pois juntos nos construímos muito. Carlos Alberto Menezes, Oswaldo Medeiros, Nélson Chaves, Nilton Monte, Hélio Paula que, por sinal, é meu primo e Aníbal Duarte. Cursei o científico e fiz vestibular para engenharia e “graças a Deus não fui aprovado”.

Azougue - Essa colocação “graças a Deus não fui aprovado” é meio esquisita, não?

Paulinho - (risos) Você pode achar, mas eu não. Veja bem. Se eu tivesse conseguido a minha aprovação, hoje eu certamente seria um engenheiro aposentado por algum órgão estadual, ou federal, etc. Se eu tivesse me formado não teria abraçado o espaço que mais me satisfaz, mais me fascina na condição de empresário, que é o de gerar empregos. Eu não estou colocando a carroça na frente dos bois logo no início desta entrevista. Mas, já adianto que o que mais me conforta como dono de empresa é exatamente a geração de empregos, é saber que sou fatia de colaboração no desenvolvimento da sociedade da minha cidade, do meu estado. Como engenheiro isso não existiria com certeza. Então, repito: “Graças a Deus eu não fui aprovado no vestibular de engenharia”.

Azougue - Antes de seguir para Recife, como foi a infância?

Paulinho - Normal. Normalíssima. Estudar e praticar esportes. Os meus amigos eram Noguchi, Tasso, Edmur Rosado, José Agripino, Coconha, Hélio Paula e muitos outros do esporte tipo basquete, vôlei, apesar da estatura não ser lá convincente, e futebol. Este último aí era o mais atuante.Viajávamos a Tibau com o seu Dix-neuf, e aquilo que o Noguchi falou, neste mesmo espaço, sobre o seu pai que na hora de uma viagem ele amarrava com cordas as portas do carro é verdade (risos). Foi uma infância normal e muito feliz.

Azougue - A carreira de engenheiro foi para o espaço. E aí?

Paulinho - Aí eu retornei para trabalhar com o meu pai. O seu Zé Pereira tinha uma distribuição de combustíveis, 3 postos de gasolina, vendia material de construção e pneus, sendo que a venda de peças para automóveis fui em quem implantei. Como você pode ver uma autêntica salada. Isso em 1964. Foi um período de muita batalha sempre paulatinamente numa ordem crescente.

Azougue - Neste período houve algum fato extra que mereça registro?

Paulinho - Houve sim. Nos foi oferecida a concessão da marca Chevrolet, só que o meu pai, que sempre determinava a última palavra, teve receio da empreitada e a sua resposta foi negativa para a proposta apresentada. Entendi que não seria aquele o momento da grande alavancada da empresa. Fiquei apenas observando os fatos por ter guardado sempre em mim o detalhe de que, tudo na vida tem o seu momento certo.

Azougue - Percebe-se um brilho mais vivo nos seus olhos ao se reportar à infância. Você é muito saudosista?

Paulinho - Muito. Eu sou e gosto de ser saudosista. Eu vivo muito o ontem no hoje, principalmente em fotografias e reencontros. Caby, eu me sinto supersaudável quando vejo as fotografias do tempo do bumba no azougue.com. Eu fui e sou literalmente apaixonado por Mossoró. Olha, eu tenho essa empresa em Natal, viajo muito a São Paulo, porém em média eu passo 10 dias do mês na terra em que nasci.

Azougue - Como a Honda entrou na sua vida?

Paulinho - Há pouco eu disse que na vida tudo tem exatamente o seu momento certo. Eu vou te contar essa história. Eu tinha amizade com o revendedor da Honda em Natal, Lidésio Ferreira de Vasconcelos, até porque eu possuía uma moto de 500 cilindradas e a revisão era feita aqui em Natal. Ele ia saindo da firma Paulairmãos, que revendia a marca Mercedes, e nos encontramos na rua José de Alencar, e ele: “Olha Paulinho, eu já saí de todas as revendas de carros de Mossoró oferecendo uma sociedade da linha Honda. Já estive com Diran Amaral, Wilson Mendes e outros, e ninguém quis. Você tem como me indicar uma pessoa que queira entrar nessa sociedade comigo?” Incontinenti, lhe disse: “tenho” e ele: Quem? Respondi-lhe, “eu”. Ele topou. A conversa praticamente foi no meio da rua. Depois eu fiquei me policiando para conversar com o meu pai. Passei noites imaginando a maneira de não desagradá-lo. Afinal, além de sócio, ele era o meu pai, aquele cidadão merecedor do meu mais profundo respeito e um homem muito conservador. Encontrei uma certa resistência, mas em pouco tempo a sociedade foi sacramentada e surgiu então a Motoeste, revendedora da Honda.

Azougue - A Motoeste nasceu com quantos funcionários e quantas motos?

Paulinho - Com 3 funcionários e 10 motos. Agora veja só a fase embrionária. As 3 primeiras motos foram vendidas. A primeira delas foi entregue a Oliveira, filho do ex-vereador Osmídio, agora quem primeiro realmente fez a compra foi seu Chico Porto, que morava pertinho da igreja de São Vicente. Detalhe: ele pagou a moto antecipada. Veja então meu dilema; dois dos três proprietários morreram pouco tempo depois em acidentes. Dá pra imaginar como eu fiquei? Que deu uma tremedeira, deu sim. Afinal, não tinha como não deixar de repercutir. Veja, eu estou colocando para o azougue.com uma particularidade que eu nunca falei. Teve um cara, que se dizia meu amigo, cujo nome jamais citarei, que me procurou e frisou: “Essas motos que você poderá vender, não vai dar para pagar as cervejas que por ventura você tomar”. Raiva ou mágoa eu não guardo dele, agora, é um fato que não dá para esquecer.

Azougue - Fase inicial 10 motos/mês. A ascensão da Motoeste foi muito rápida?

Paulinho – Não, e se engana quem pensa assim. Este processo de ascensão foi medido cuidadosamente por mim e por aquela a quem chamo de meu tudo, dona Lindinalva, minha esposa. Muito trabalho de laboratório, muita análise, muita prudência e a certeza de uma linha de progresso programada. Repito: um progresso medido diariamente por mim e dona Lindinalva e posteriormente pelos meus filhos Kalina, Iogo e Emanuela. Só que esse zelo não se restringiu à fase inicial não, ele é cronômetro fixo no nosso dia-a-dia.

Azougue - A Honda é também uma paixão nacional?

Paulinho - Eu lhe dou os dados e você tira as suas conclusões. A nível de Brasil, a Honda tem 84% do mercado e a nível de Mossoró a fatia atinge os 97%.

Azougue - Este é um cartão de apresentação da competência Motoeste?

Paulinho - Há limites para tudo na vida, inclusive para a modéstia. Agora, seria ser modesto demais, ou buscar uma fuga para a irrealidade, se no azougue.com apresentássemos argumentos que não nos levasse aos caminhos que você conduziu na pergunta como marco de competência.

Azougue - Quantas revendas da Honda existem espalhadas pelo Brasil?

Paulinho - São cerca de 630 com aproximadamente 400 proprietários. Explico: nós temos 4 concessionárias localizadas em Mossoró, Assu, Pau dos Ferros e Campina Grande. Historicamente, individualmente, a Motoeste Mossoró está colocada entre as 3 maiores do Brasil e em 2002, nós lideramos o ano todo a venda de motos no país.

Azougue - A Motoeste existe desde 1977. Mas os vôos mais altos vêm de pouco tempo para cá?

Paulinho - Aí é uma questão de hermenêutica. Veja só: em 1998, o presidente da Honda na América Latina, senhor Koichi Gondo, resolveu conhecer a nossa revenda em Mossoró e friso que a Motoeste foi a única concessionária do interior a ser visitada por ele. Na minha casa, ele me perguntou: quais são as suas pretensões em termos de investimentos? Disse-lhe: presidente, depois de 2 rodas o que a Honda tem? 4 rodas. Então eu gostaria de representar o automóvel Honda em Mossoró.

Azougue - A resposta veio em cima da bucha?

Paulinho - Em cima da bucha e desta forma: dou Mossoró como filial e você abre a matriz em Natal, e acrescentou: se você topar esteja na próxima semana em São Paulo para tratar do assunto. Viajei à capital bandeirante, participei de uma reunião, mas ponderei que precisava conversar com o revendedor da moto Honda em Natal, o meu amigo Anchieta, uma vez que a preferência por uma questão absolutamente ética seria dele. Anchieta não topou a parada e eu a abracei. Comecei, como diz o matuto, do começo. Comprei o terreno e fui tocando como manda o figurino, inaugurando a Honda Automóveis em 1999.

Azougue - Início difícil, ou os objetivos foram alcançados rapidamente?

Paulinho - Talvez eu esteja me tornando repetitivo num aspecto. Pela terceira vez destaco: tudo tem exatamente o seu tempo para acontecer. Foi um início cheio de dificuldades, mas tudo exatamente previsto, desde quando aceitei tocar essa nova empreitada. O que lhe afirmo é que os objetivos foram atingidos até um pouco antes da programação preestabelecida não só para Natal, como também para Mossoró.

Azougue - Você se analisa um empresário de sucesso? Rico?

Paulinho - Rico não, agora se ter sucesso na vida é atingir objetivos, então com muita humildade lhe digo, que me vejo como um empresário que realizou até agora todos os seus sonhos. Gratifica-me saber que um conterrâneo passa em frente a nossa empresa e diz: olha lá, aquela estrutura empresarial é de um mossoroense, que chegou na capital, acreditou, foi à luta e está vencendo. A felicidade é saber que naquela citação o orgulho maior é a colocação “um mossoroense”.

Azougue - No início da entrevista você colocou a sua esposa, dona Lindinalva, como “meu tudo”. O que isso significa?

Paulinho - Exatamente o que você entendeu. São 38 anos de um sólido casamento. Se ela é os meus braços, minhas pernas, meu corpo, então ela é o “meu tudo”. Na verdade, nós formamos um corpo só. Ela simboliza a competência, a inteligência e, acima de tudo, o companheirismo.

Azougue - Qual o perfil empresarial que você traça do seu filho Iogo?

Paulinho - Honestamente falando eu entendo que Iogo, aos 35 anos de idade, já superou obstáculos que eu imaginava serem transpostos somente quando ele passasse dos 45. Um detalhe importante é que a esposa dele, Valeska, que além de nora é também minha sobrinha, trabalha com ele e no duro desempenha o mesmo papel em sua vida, que a dona Lindinalva desempenha na minha, isso nas empresas de Mossoró, Assu e Pau dos Ferros. Iogo é um empresário de comportamento admirável, só que ele não gosta de aparecer e aí é que é merecedor de aplausos. É inteligente, jovem, dinâmico, a visão ideal para o futuro. Agora você vai me permitir dizer que lá em Natal a administração da Honda Automóveis também conta com o dinamismo das minhas filhas Kalina, Emanuela e meu genro Jensen, que seguem diapasão igual, o que me torna um homem cada vez mais feliz.

Azougue - Não sendo empresário, o que você gostaria de ser?

Paulinho - Lá vem você (novo sorriso no ar). Eu “graças a Deus” fui reprovado no vestibular de engenharia. E se não fosse o que sou, gostaria de ser empresário novamente.

Azougue - Quem é Luiz Teotônio de Paula Neto. Quem é o Paulinho da Honda?

Paulinho - Caby, eu sou um cara que reconhecidamente tem a família em primeiro plano, em qualquer que seja a situação. O maior elogio que a dona Lindinalva me faz é de que eu sou uma pessoa autêntica e eu também me vejo assim. Nada de duas caras, os meus procedimentos sempre são os mesmos e estando certo ou errado eu assumo todas as responsabilidades dos meus atos.

Azougue - E se você não fosse quem é, quem você gostaria de ser?

Paulinho - Exatamente quem eu sou, Luiz Teotônio de Paula Neto, Paulinho da Honda.

Azougue - O azougue.com se sente honrado com a entrevista.

Paulinho - Eu passei um e-mail parabenizando-lhe pelo azougue.com muito antes de ser convidado para esta entrevista. O seu site é uma das boas manias que eu tenho.

caby@azougue.com

 

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