O
Paulinho da Honda que eu conhecia era aquele cara
com atenções sempre voltadas para
o trabalho. Conhecia o cara que objetivava rapidamente
os seus pensamentos. O sim e o não sempre
na ponta da língua. Conhecia o empresário
empreendedor. Conhecia o homem que dedicava no mínimo
todos os dias, duas horas para a leitura geral.
Conhecia o viajante que já percorreu boa
parte dos cinco continentes. Em Natal, sábado,
2 de abril, conheci o descontraído e muitas
vezes brincalhão Paulinho, que jamais se
imaginou distante da família, que reza todos
os dias, que em momentos da entrevista deu uma atracada
com a sua emotividade. Conheci sem tirar nem pôr
uma figura extremamente saudosista que vibrou ao
falar dos amigos de infância, que pôs
para fora o seu lado romântico ao ouvir Elimar
Santos. Conheci o Paulinho preocupado com o próximo
e, principalmente, com os rumos da sua cidade. Neste
contato, entendi que ele, a exemplo de todos, também
tem seus defeitos. Pouco inteligente é aquele
que não fizer jus à sua autenticidade.
Um registro não feito na entrevista. Disse-lhe:
tenho 47 anos de idade e não sei pilotar
um moto e dele ouvi. Também de TAMANCOS
É QUEDA NA CERTA. Aí tive
que desligar o gravador para nos recuperarmos das
belíssimas gargalhadas disparadas. Com certeza
este papo vai lhe interessar.
Azougue - De Mossoró para Recife
ainda bem jovem?
Paulinho
- Eu nasci em 22 de agosto de 1944 e já aos
15, o meu pai, senhor José Pereira, resolveu
me mandar para Recife, cujo objetivo era o andamento
e a conclusão dos estudos. Lá morei
6 anos, sendo 3 deles interno no Colégio
Salesiano e 3 dividindo um apartamento com pessoas
de Mossoró.
Azougue
- Quem eram essas pessoas?
Paulinho
- Cito-as com muito prazer, pois juntos nos construímos
muito. Carlos Alberto Menezes, Oswaldo Medeiros,
Nélson Chaves, Nilton Monte, Hélio
Paula que, por sinal, é meu primo e Aníbal
Duarte. Cursei o científico e fiz vestibular
para engenharia e “graças a Deus não
fui aprovado”.
Azougue
- Essa colocação “graças
a Deus não fui aprovado” é meio
esquisita, não?
Paulinho
- (risos) Você pode achar, mas eu não.
Veja bem. Se eu tivesse conseguido a minha aprovação,
hoje eu certamente seria um engenheiro aposentado
por algum órgão estadual, ou federal,
etc. Se eu tivesse me formado não teria abraçado
o espaço que mais me satisfaz, mais me fascina
na condição de empresário,
que é o de gerar empregos. Eu não
estou colocando a carroça na frente dos bois
logo no início desta entrevista. Mas, já
adianto que o que mais me conforta como dono de
empresa é exatamente a geração
de empregos, é saber que sou fatia de colaboração
no desenvolvimento da sociedade da minha cidade,
do meu estado. Como engenheiro isso não existiria
com certeza. Então, repito: “Graças
a Deus eu não fui aprovado no vestibular
de engenharia”.
Azougue
- Antes de seguir para Recife, como foi a infância?
Paulinho
- Normal. Normalíssima. Estudar e praticar
esportes. Os meus amigos eram Noguchi, Tasso, Edmur
Rosado, José Agripino, Coconha, Hélio
Paula e muitos outros do esporte tipo basquete,
vôlei, apesar da estatura não ser lá
convincente, e futebol. Este último aí
era o mais atuante.Viajávamos a Tibau com
o seu Dix-neuf, e aquilo que o Noguchi falou, neste
mesmo espaço, sobre o seu pai que na hora
de uma viagem ele amarrava com cordas as portas
do carro é verdade (risos). Foi uma infância
normal e muito feliz.
Azougue
- A carreira de engenheiro foi para o espaço.
E aí?
Paulinho
- Aí eu retornei para trabalhar com o meu
pai. O seu Zé Pereira tinha uma distribuição
de combustíveis, 3 postos de gasolina, vendia
material de construção e pneus, sendo
que a venda de peças para automóveis
fui em quem implantei. Como você pode ver
uma autêntica salada. Isso em 1964. Foi um
período de muita batalha sempre paulatinamente
numa ordem crescente.
Azougue
- Neste período houve algum fato extra que
mereça registro?
Paulinho
- Houve sim. Nos foi oferecida a concessão
da marca Chevrolet, só que o meu pai, que
sempre determinava a última palavra, teve
receio da empreitada e a sua resposta foi negativa
para a proposta apresentada. Entendi que não
seria aquele o momento da grande alavancada da empresa.
Fiquei apenas observando os fatos por ter guardado
sempre em mim o detalhe de que, tudo na vida tem
o seu momento certo.
Azougue
- Percebe-se um brilho mais vivo nos seus olhos
ao se reportar à infância. Você
é muito saudosista?
Paulinho
- Muito. Eu sou e gosto de ser saudosista. Eu vivo
muito o ontem no hoje, principalmente em fotografias
e reencontros. Caby, eu me sinto supersaudável
quando vejo as fotografias do tempo do bumba no
azougue.com. Eu fui e sou literalmente apaixonado
por Mossoró. Olha, eu tenho essa empresa
em Natal, viajo muito a São Paulo, porém
em média eu passo 10 dias do mês na
terra em que nasci.
Azougue
- Como a Honda entrou na sua vida?
Paulinho
- Há pouco eu disse que na vida tudo tem
exatamente o seu momento certo. Eu vou te contar
essa história. Eu tinha amizade com o revendedor
da Honda em Natal, Lidésio Ferreira de Vasconcelos,
até porque eu possuía uma moto de
500 cilindradas e a revisão era feita aqui
em Natal. Ele ia saindo da firma Paulairmãos,
que revendia a marca Mercedes, e nos encontramos
na rua José de Alencar, e ele: “Olha
Paulinho, eu já saí de todas as revendas
de carros de Mossoró oferecendo uma sociedade
da linha Honda. Já estive com Diran Amaral,
Wilson Mendes e outros, e ninguém quis. Você
tem como me indicar uma pessoa que queira entrar
nessa sociedade comigo?” Incontinenti, lhe
disse: “tenho” e ele: Quem? Respondi-lhe,
“eu”. Ele topou. A conversa praticamente
foi no meio da rua. Depois eu fiquei me policiando
para conversar com o meu pai. Passei noites imaginando
a maneira de não desagradá-lo. Afinal,
além de sócio, ele era o meu pai,
aquele cidadão merecedor do meu mais profundo
respeito e um homem muito conservador. Encontrei
uma certa resistência, mas em pouco tempo
a sociedade foi sacramentada e surgiu então
a Motoeste, revendedora da Honda.
Azougue
- A Motoeste nasceu com quantos funcionários
e quantas motos?
Paulinho
- Com 3 funcionários e 10 motos. Agora veja
só a fase embrionária. As 3 primeiras
motos foram vendidas. A primeira delas foi entregue
a Oliveira, filho do ex-vereador Osmídio,
agora quem primeiro realmente fez a compra foi seu
Chico Porto, que morava pertinho da igreja de São
Vicente. Detalhe: ele pagou a moto antecipada. Veja
então meu dilema; dois dos três proprietários
morreram pouco tempo depois em acidentes. Dá
pra imaginar como eu fiquei? Que deu uma tremedeira,
deu sim. Afinal, não tinha como não
deixar de repercutir. Veja, eu estou colocando para
o azougue.com uma particularidade que eu nunca falei.
Teve um cara, que se dizia meu amigo, cujo nome
jamais citarei, que me procurou e frisou: “Essas
motos que você poderá vender, não
vai dar para pagar as cervejas que por ventura você
tomar”. Raiva ou mágoa eu não
guardo dele, agora, é um fato que não
dá para esquecer.
Azougue
- Fase inicial 10 motos/mês. A ascensão
da Motoeste foi muito rápida?
Paulinho
– Não, e se engana quem pensa assim.
Este processo de ascensão foi medido cuidadosamente
por mim e por aquela a quem chamo de meu tudo, dona
Lindinalva, minha esposa. Muito trabalho de laboratório,
muita análise, muita prudência e a
certeza de uma linha de progresso programada. Repito:
um progresso medido diariamente por mim e dona Lindinalva
e posteriormente pelos meus filhos Kalina, Iogo
e Emanuela. Só que esse zelo não se
restringiu à fase inicial não, ele
é cronômetro fixo no nosso dia-a-dia.
Azougue
- A Honda é também uma paixão
nacional?
Paulinho
- Eu lhe dou os dados e você tira as suas
conclusões. A nível de Brasil, a Honda
tem 84% do mercado e a nível de Mossoró
a fatia atinge os 97%.
Azougue
- Este é um cartão de apresentação
da competência Motoeste?
Paulinho
- Há limites para tudo na vida, inclusive
para a modéstia. Agora, seria ser modesto
demais, ou buscar uma fuga para a irrealidade, se
no azougue.com apresentássemos argumentos
que não nos levasse aos caminhos que você
conduziu na pergunta como marco de competência.
Azougue
- Quantas revendas da Honda existem espalhadas pelo
Brasil?
Paulinho
- São cerca de 630 com aproximadamente 400
proprietários. Explico: nós temos
4 concessionárias localizadas em Mossoró,
Assu, Pau dos Ferros e Campina Grande. Historicamente,
individualmente, a Motoeste Mossoró está
colocada entre as 3 maiores do Brasil e em 2002,
nós lideramos o ano todo a venda de motos
no país.
Azougue
- A Motoeste existe desde 1977. Mas os vôos
mais altos vêm de pouco tempo para cá?
Paulinho
- Aí é uma questão de hermenêutica.
Veja só: em 1998, o presidente da Honda na
América Latina, senhor Koichi Gondo, resolveu
conhecer a nossa revenda em Mossoró e friso
que a Motoeste foi a única concessionária
do interior a ser visitada por ele. Na minha casa,
ele me perguntou: quais são as suas pretensões
em termos de investimentos? Disse-lhe: presidente,
depois de 2 rodas o que a Honda tem? 4 rodas. Então
eu gostaria de representar o automóvel Honda
em Mossoró.
Azougue
- A resposta veio em cima da bucha?
Paulinho
- Em cima da bucha e desta forma: dou Mossoró
como filial e você abre a matriz em Natal,
e acrescentou: se você topar esteja na próxima
semana em São Paulo para tratar do assunto.
Viajei à capital bandeirante, participei
de uma reunião, mas ponderei que precisava
conversar com o revendedor da moto Honda em Natal,
o meu amigo Anchieta, uma vez que a preferência
por uma questão absolutamente ética
seria dele. Anchieta não topou a parada e
eu a abracei. Comecei, como diz o matuto, do começo.
Comprei o terreno e fui tocando como manda o figurino,
inaugurando a Honda Automóveis em 1999.
Azougue
- Início difícil, ou os objetivos
foram alcançados rapidamente?
Paulinho
- Talvez eu esteja me tornando repetitivo num aspecto.
Pela terceira vez destaco: tudo tem exatamente o
seu tempo para acontecer. Foi um início cheio
de dificuldades, mas tudo exatamente previsto, desde
quando aceitei tocar essa nova empreitada. O que
lhe afirmo é que os objetivos foram atingidos
até um pouco antes da programação
preestabelecida não só para Natal,
como também para Mossoró.
Azougue
- Você se analisa um empresário de
sucesso? Rico?
Paulinho
- Rico não, agora se ter sucesso na vida
é atingir objetivos, então com muita
humildade lhe digo, que me vejo como um empresário
que realizou até agora todos os seus sonhos.
Gratifica-me saber que um conterrâneo passa
em frente a nossa empresa e diz: olha lá,
aquela estrutura empresarial é de um mossoroense,
que chegou na capital, acreditou, foi à luta
e está vencendo. A felicidade é saber
que naquela citação o orgulho maior
é a colocação “um mossoroense”.
Azougue
- No início da entrevista você colocou
a sua esposa, dona Lindinalva, como “meu tudo”.
O que isso significa?
Paulinho
- Exatamente o que você entendeu. São
38 anos de um sólido casamento. Se ela é
os meus braços, minhas pernas, meu corpo,
então ela é o “meu tudo”.
Na verdade, nós formamos um corpo só.
Ela simboliza a competência, a inteligência
e, acima de tudo, o companheirismo.
Azougue
- Qual o perfil empresarial que você traça
do seu filho Iogo?
Paulinho
- Honestamente falando eu entendo que Iogo, aos
35 anos de idade, já superou obstáculos
que eu imaginava serem transpostos somente quando
ele passasse dos 45. Um detalhe importante é
que a esposa dele, Valeska, que além de nora
é também minha sobrinha, trabalha
com ele e no duro desempenha o mesmo papel em sua
vida, que a dona Lindinalva desempenha na minha,
isso nas empresas de Mossoró, Assu e Pau
dos Ferros. Iogo é um empresário de
comportamento admirável, só que ele
não gosta de aparecer e aí é
que é merecedor de aplausos. É inteligente,
jovem, dinâmico, a visão ideal para
o futuro. Agora você vai me permitir dizer
que lá em Natal a administração
da Honda Automóveis também conta com
o dinamismo das minhas filhas Kalina, Emanuela e
meu genro Jensen, que seguem diapasão igual,
o que me torna um homem cada vez mais feliz.
Azougue
- Não sendo empresário, o que você
gostaria de ser?
Paulinho
- Lá vem você (novo sorriso no ar).
Eu “graças a Deus” fui reprovado
no vestibular de engenharia. E se não fosse
o que sou, gostaria de ser empresário novamente.
Azougue
- Quem é Luiz Teotônio de Paula Neto.
Quem é o Paulinho da Honda?
Paulinho
- Caby, eu sou um cara que reconhecidamente tem
a família em primeiro plano, em qualquer
que seja a situação. O maior elogio
que a dona Lindinalva me faz é de que eu
sou uma pessoa autêntica e eu também
me vejo assim. Nada de duas caras, os meus procedimentos
sempre são os mesmos e estando certo ou errado
eu assumo todas as responsabilidades dos meus atos.
Azougue
- E se você não fosse quem é,
quem você gostaria de ser?
Paulinho
- Exatamente quem eu sou, Luiz Teotônio de
Paula Neto, Paulinho da Honda.
Azougue
- O azougue.com se sente honrado com a entrevista.
Paulinho
- Eu passei um e-mail parabenizando-lhe pelo azougue.com
muito antes de ser convidado para esta entrevista.
O seu site é uma das boas manias que eu tenho.
caby@azougue.com