Mossoró-RN, de 2005
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PEDRO ALMEIDA DUARTE

 

O nosso entrevistado, o Prof. Pedro Almeida Duarte, é natural de Cariús/CE onde viveu até os vinte anos, passando a residir na urbe de Mossoró desde 1970. Membro de família numerosa, nove irmãos, casado com Valme Carneiro Almeida e pai de Leonardo e Luana, que lhe deram dois netos. Cidadão extremamente integrado à sociedade mossoroense, esse rotariano exerceu com inteligência e competência alguns cargos no setor público de nosso Estado. Professor e diretor da Esam, hoje Ufersa, secretário municipal e secretário de Estado por mais de uma vez, dentre outros, continua militante na política partidária do Estado sempre ligado ao grupo do saudoso deputado Vingt Rosado. Fala-nos sobre sua vida pessoal, administrativa e política sem subterfúgios, com clareza e desprendimento... Conheça um pouco mais da vida deste cidadão, que contribuiu muito para o desenvolvimento de Mossoró e do Estado, nesta entrevista.

Azougue: Prof. Pedro Almeida, fale aos internautas do site azougue.com da sua vinda para a cidade de Mossoró.

PEDRO ALMEIDA DUARTE: Inicialmente gostaria de agradecer a vocês pelo espaço concedido para que eu possa falar um pouco da minha vida e minha estada em Mossoró. Sou cearense e, ao terminar meu curso de agronomia em Fortaleza, através de um anúncio de jornal soube da ocorrência de concurso para professor na área de economia na Esam. Fiz minha inscrição e consegui aprovação em disputa com um concorrente extremamente inteligente e competente da cidade, José Vidal, que posteriormente foi diretor do grupo Guararapes. Faz 36 anos que moro em Mossoró.

Azougue: Professor, após a graduação você fez outros cursos?

PAD: Fiz pós-graduação também em Fortaleza no CAEN, e concluí os créditos de doutorado na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, não chegando a defender a tese em virtude de ter sido nomeado diretor da Esam naquela oportunidade.

Azougue: Falemos agora da família. É de família numerosa?

PAD: Somos de uma família de nove irmãos todos criados. Minha mãe, e essa é uma graça muito forte que eu tenho, tem 93 anos, extremamente lúcida e continua sendo o grande centro polarizador da família. Todos os anos, no dia do seu aniversário e no Natal, todos os filhos, netos e bisnetos se reúnem para homenageá-la. Perdi meu pai muito cedo, ele era político no Ceará e com menos de 50 anos morreu de câncer. Nesta época eu sequer tinha entrado na universidade, mas minha mãe tomou a pulso a formação do resto da família. Hoje, graças a Deus, somos relativamente bem encaminhados na vida com uma estrutura familiar muito forte e definida no sentido de religiosidade. Esse conceito de família aprendemos com nossa mãe que até hoje mantém sua influência sobre todos nós.

Azougue: Pedro, você e Valme têm dois filhos. Eles já estão encaminhados profissionalmente?

PAD: Minha filha Luana é casada e mora em Fortaleza. Formada em Farmácia e Bioquímica pela UFC onde foi monitora e bolsista, tendo a oportunidade de trabalhar em manipulação com Prof. pesquisador Carlos Matos, o maior cientista sobre plantas medicinais do país. Atualmente trabalha em Fortaleza numa clínica particular de excelente nível. Nos deu o grande presente que são meus dois netos, João Pedro e Maria Clara - gêmeos - que hoje são a grande alegria da casa. Leonardo, meu outro filho, é formado em engenharia civil pela UnP e está começando com uma construtora. São ótimos filhos.

Azougue: É comum o profissional aportar em uma cidade para trabalhar e cumprida missão, no caso aposentadoria, retornar à sua cidade-natal. Com você não foi assim, o que o cativou tanto que o fez permanecer em Mossoró?

PAD: Primeiro, quero dizer que tenho 56 anos, dos quais passei 36 em Mossoró. Passei mais do dobro da minha vida em Mossoró e Mossoró me deu tudo que eu tive através da Esam: o sucesso profissional, vida, família. Então, quando concluí minhas atividades na instituição, conversei com minha esposa e chegamos a conclusão que rigorosamente nosso lugar era aqui mesmo. Nós sentimos a necessidade de ficar para de alguma forma poder retribuir e reconhecer tudo que Mossoró fez por a gente através do seu povo, da Esam, dos amigos.

Azougue: Você tem o título de Cidadão Mossoroense?

PAD: Tenho sim, e tenho também o de Cidadão Norte-rio-grandense.

Azougue: Na Esam, hoje Ufersa, você foi professor e administrador, inclusive chegando ao cargo de diretor. Fale do seu desempenho profissional à frente daquela instituição.

PAD: Iniciamos a Esam com muita dificuldade, apenas um curso. Os professores tinham regime de 12h ou 24h. Antes da federalização, chegamos a passar até dez meses sem receber salários, onde às vezes o docente chegava a ministrar até três ou quatro disciplinas. Tínhamos apenas três casas para estudantes, o que dificultava muito a vinda deles para Mossoró. O saudoso deputado Vingt Rosado era quem sempre procurava na antiga SESU uma forma de angariar recursos para suprimir tais dificuldades.

Azougue: Há algum outro fato que você possa destacar durante esse período que esteve atuando na instituição?

PAD: Eu vou nesta entrevista revelar uma coisa que nunca revelei, eu precisava contar uma coisa diferente nesta entrevista. A minha grande frustração que eu tive na Esam foi eu ter me omitido,... não votei na homologação do professor Torres. Eu creio que naquele tempo a escola vivia um momento muito bonito, momento diferente e histórico. A não-homologação da primeira campanha, da primeira eleição, consulta direta de um movimento da instituição como um todo, foi muito bonito. Antes da reunião do CTA, e o professor Torres está aí para confirmar, o professor Torres disse: "Professor, eu sei que você não vai votar pela minha homologação, e sei também que não vai votar na lista que vai ser apresentada... vote na homologação do meu nome, eu sei que ele não me dará o resultado, mas pelo respeito que eu tenho a você como professor e pela coragem que você teve de me dizer, antes, que o resultado da eleição iria ser mudado e que você não iria acompanhar, mas também não ficaria contra o seu grupo". Eu fiz aquilo naquela época até para manter uma coerência que sempre tive. Eu sempre fui de um lado. Nunca mudei de lado, sempre tive relacionamentos políticos cordiais com todos os grupos, tanto dentro da Esam como fora da Esam. Mas eu mantenho uma coerência,... e eu acho que naquele instante a minha grande coerência deveria ter sido homologar o resultado de um pleito tão bonito. Eu creio que essa foi a maior dificuldade que a Esam enfrentou em toda sua vida. Foi não fazer Torres diretor naquela época e isso refletiu em pelos menos dez a quinze anos de atrasos, dificuldades e problemas causados à instituição.

Azougue: A Esam transformou-se em Ufersa. Como você sente essa transformação?

PAD: A Ufersa vive um momento muito bom, é exatamente o momento em que você tem a grande vantagem de fazer uma nova universidade e todos os segmentos que a compõem, discentes, docentes e dirigentes, precisam pensar muito na responsabilidade e no compromisso de fazer a transformação da Esam na grande universidade do semi-árido.

Azougue: Você entende que o sucesso atual da instituição tem a ver com o muito do que fora feito?

PAD: Ah, com certeza! Aqui gostaria de fazer um registro muito especial ao Prof. Vingt-un. O Prof. Vingt-un pode ter tido alguns equívocos na condução da Esam, pelo seu coração ele queria fazer da Esam uma grande família e essa grande família não se comporta como tal dentro de uma Universidade. O espírito universitário por si só precisa ter o contraponto, precisa ser crítico, ser polêmico para realmente poder ela ser viva e ter alma. No entanto, é inquestionável o papel do Prof. Vingt-un e de um punhado de professores jovens na construção da Esam.

Azougue: A Ufersa completou um ano e se percebe o crescimento institucional. Qual a projeção futura para essa universidade? Que benefícios poderão vir para a região?

PAD: O Rio Grande do Norte hoje tem a fruticultura como o seu segundo grande item de exportação. Tudo isso concentrado na região de Mossoró. Cerca de 93% dos profissionais desta área foram formados na Esam. Então, se pensarmos que o produto mais importante de uma universidade é a formação da mão-de-obra qualificada, isso por si só já justificaria a Esam. Se analisarmos os benefícios trazidos pela veterinária para as áreas de caprinocultura, pecuária, pequenos animais e carcinicultura, vamos verificar que com apenas dois cursos a Esam já deu uma resposta extremamente positiva. No processo produtivo o maior número de empregados na região de Mossoró é na fruticultura. A Ufersa terá um raio de ação muito maior. Atenderá os anseios de uma região que chega até Petrolina formando profissionais de diferentes segmentos e que daqui a quatro cinco anos estarão esses profissionais a serviço da região. Sou muito entusiasmado com as perspectivas da Ufersa que não será apenas uma universidade rural e sim terá compromisso com outros segmentos, como trabalhar com calcário, com têxteis, com petróleo. Geograficamente, a Ufersa está bem próximo do porto do Pecem que é a maior estrutura para exportar nossos produtos para a Europa e Estados Unidos. Não tenho dúvida em afirmar que a Ufersa logo será uma grande universidade.

Azougue: Quem são os grandes parceiros que podem acelerar esse crescimento?

PAD: Primeiro os órgãos de financiamento regionais: Banco do Nordeste, empresas ligadas à fruticultura, governos estaduais e municipais através de secretarias especializadas e Embrapa. Além destes, os grandes órgãos de financiamentos como: CNPQ, CAPES, FINEP e principalmente o próprio MEC. Eu entendo ser hoje imprescindível a interiorização da Universidade. Necessariamente, precisa-se dar oportunidade à população mais carente que está no interior. Essa possibilidade se acentua a partir do momento que a universidade vem pra perto delas.

Azougue: A saída recente do seu grupo do PMDB para apoiar a governadora Wilma de Faria, segundo a imprensa mossoroense, tinha sua discordância. Como foi trocar a paixão pelo PMDB para novamente acompanhar o grupo liderado agora pela deputada Sandra Rosado?

PAD: Não foi fácil. Eu era uma das pessoas do grupo que acreditavam que não deveríamos sair do PMDB. Naquele instante já existiam conversas de bastidores, de contatos do senador Garibaldi com o grupo do ex-deputado Carlos Augusto Rosado. Eu entendo, hoje, que mais uma vez o Felling Político da deputada Sandra Rosado é uma coisa impressionante, puxa ao pai. Ela sentiu que se não mudasse naquele instante, ela perderia o 'time', o tempo certo de mudar porque não comportaria, numa mesma legenda em Mossoró, a deputada Sandra com o seu grupo e o grupo do ex-deputado Carlos Augusto Rosado. Não há espaço politicamente, nesse momento, para se conviver bem numa mesma legenda. Com certeza, o grupo da deputada Sandra hoje teria dificuldades na eleição. Eu hoje entendo que estava equivocado e reconheço que a deputada Sandra tinha razão.

Azougue: Na corrida para deputado estadual temos em Mossoró, num destaque maior, os candidatos: deputada Larissa Rosado, deputada Ruth Ciarlini, dr. Leonardo e o deputado Francisco José. Dá para eleger todos?

PAD: Mossoró tem atualmente cerca de 150 mil eleitores. Poderá apurar em torno de 120 mil votos para deputado estadual, dos quais 65% a 70% ficam com esses candidatos. Há espaços para que todos trabalhem, agora... pessoalmente, torço, trabalho e vou fazer tudo para que Larissa tenha a maior votação de Mossoró.

Azougue: A deputada Larissa, apesar da pouca vivência parlamentar, tem se destacado na Assembléia. Isto surpreende a você?

PAD: Não. Sempre vi em Larissa muita garra, muita força de vontade e foi justamente a determinação dela que a fez chegar à vice-presidência da Assembléia Legislativa e a assumir o parlamento muitas vezes. E acho que isso é apenas o início de uma carreira política brilhante que ela ainda tem pela frente.

Azougue: E a corrida à Câmara Federal?

PAD: Acredito que a deputada Sandra e o deputado Betinho disputarão o primeiro lugar, como sempre ocorreu, e os dois deverão ter mais de 30 mil votos cada.

Azougue: As pesquisas apresentadas mostram índices que a candidatura do senador Garibaldi está descendente, enquanto a candidatura da governadora Wilma de Faria está crescente. Como você vislumbra o futuro desta eleição?

PAD: Eu vejo que Garibaldi atingiu um índice muito alto, muito cedo. Em política existe uma tendência de quem tem muito tende a perder e quem tem menos tende a ganhar. Até que ponto esse movimento pendular na campanha vai resultar que Garibaldi perca gordura suficiente e Wilma o ultrapasse... Os próximos 35 dias são muito importantes. É bom salientar que o programa eleitoral já está sendo transmitido e que a partir dele o eleitor passa a ter uma visão mais clara dos candidatos e até o final da campanha, eu penso que aqueles favoritismos existentes terão desaparecido.

Azougue: Após vinte anos a esquerda chegou ao poder central através do presidente Lula. Mandato conturbado que gerou frustrações e decepções de muitos, houve debandada de companheiros para outros partidos e expulsões de militantes muito importantes do PT. No entanto, O governo Lula segue liderando as pesquisas sinalizando uma provável reeleição, ainda no primeiro turno. Como você explica isso?

PAD: Eu vejo dois aspectos consideráveis. Primeiro, o Lula pelo seu carisma e pela sua estória de vida, sempre foi maior do que o PT. O PT veio para a vala comum através de problemas éticos, problemas de corrupção, problemas de montar uma estrutura de estado para mandar durante 30 anos. Segundo, identificando as pesquisas atuais, verifica-se que a base da pirâmide tem 70% dos votos e esse é o eleitorado de Lula. A imagem daquele trabalhador pobre que veio do Nordeste e chegar à Presidência da República é motivo de admiração por estas classes. Você há de convir que Lula é um líder carismático, tem a facilidade incrível de falar para os mais simples. Às vezes faz comentários absurdos que não condiz com a liturgia do cargo, mas você há de convir que a maioria dos eleitores não pensa assim.

Azougue: Prof. Pedro Almeida, em nome dos que fazem o azougue.com agradeço a entrevista concedida e fique à vontade para quaisquer outras considerações que deseje fazer.

PAD: Só agradecer a participação, onde tive oportunidade de externar algumas que eu não tinha nem conversado e dizer que você me deixou muito à vontade e que estou muito feliz pela entrevista.

*Entrevista produzida pelo professor de matemática e comentarista esportivo Alcindo Júnior.

 

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