Mossoró-RN, de 2005
MENU
:: CABY
:: EMERY COSTA
:: SÉRGIO OLIVEIRA
:: ENTREVISTAS
:: GRAMÁTICA
:: ARTIGOS
:: MEDICINA
:: MULHER
:: MOSSOROENSES-OUT
:: CELEBRIDADES
:: CURIOSIDADES
:: O MANCHA
:: PRESEPADAS
:: PAISAGENS
:: PIADAS
:: LIÇÕES
:: MOSSORÓ MEU XODÓ
:: DO BUMBA
:: DA ÉPOCA
:: ANTIGAMENTE
:: OLHOVIVO
:: BONITAS & BELAS
:: O DESABONITADO
:: IDENTIDADE
:: NOTÍCIAS
:: ESPORTE
:: CAMARADINHA

 

contador, formmail cgi, recursos de e-mail gratis para web site

PADRE SÁTIRO

Primeiro, diante dele não há nenhum temor reverencial, mas um sentimento de fraternidade. Ele é igual. É gente como a gente. É um padre que acredita nos anjos e aprende todo dia lições de espiritualidade agostiniana. É um homem de paz e amigos aos quais é leal, é modesto como manda a sabedoria superior. É um dos maiores diretores que já conheceu o antigo Colégio dos Padres. Sátiro Cavalcanti é para mim um alumbramento. (Mestre Dorian Jorge Freire - falecido em 24 de agosto 2005).

Azougue - Desde criança o sonho de ser padre?

Padre Sátiro - Não, de maneira nenhuma. O meu irmão, o ministro José Dantas, era o coroinha, era o vocacionado da minha casa. Antes do meu pai morrer, aos 42 anos de idade, ele reuniu a família e disse: respeitem a vocação de Dedé. Somente aos 14 anos, meu pai já falecido, eu comecei a me aproximar da igreja, a ter um contato mais amplo com o padre Caminha, isso em Pau dos Ferros. No ano 1942, eu disse que queria ser padre e somente a minha mãe e padre Caminha acreditaram e no dia 9 de fevereiro de 43, após uma exaustiva viagem de trem, cheguei em Mossoró e fui para o seminário. 15 anos depois eu passei a usar a batina.

Azougue - Um dia o senhor me falou que também gostaria de ter sido militar. Lembra?

Padre Sátiro - Faz tempo. Que memória, hein! Olha, eu já adulto, já padre, conversei demoradamente com o conhecido espírita Bezerrinha, e ele me falou: “Eu não gosto quando o senhor vem aqui. A sua força interna é tamanha que me deixa atrapalhado”. E ele em seus estudos espirituais, também frisou: “Se não tivesse abraçado a batina, hoje serias um general. A sua vocação também tendia para o militarismo”.

Azougue - Qual o perfil que tinha a igreja há 50 anos e qual o seu perfil atual?

Padre Sátiro - Para se fazer a preparação para a primeira comunhão a gente passava 3 dias em um retiro espiritual. As filhas de Maria, que era uma congregação italiana, não comungavam com blusas sem mangas, não usavam decotes, não se permitia namoros na porta de igreja e o vigário era líder absoluto da paróquia.A igreja sempre foi muito sábia, ela vai evoluindo e, lógico, se adaptando aos tempos e automaticamente recebe uma influência marcante da juventude. A igreja sempre esteve certa, ela não mudou a sua doutrina. A maneira de interpretar, de viver, de se expressar e isso nós fazemos na liturgia. Há anos, não se imaginava alguém tocar violão, bateria, padre dançando e etc. Repito: A igreja continua correta, ela apenas habitua-se naturalmente aos tempos. O essencial é a manutenção da fé, da caridade, da esperança.

Azougue - Como nasceu essa sua devoção por Santa Clara?

Padre Sátiro - O nascimento se deu via minha mãe, D.Erundina. Eu passei muito tempo na Itália e várias vezes fui à cidade de São Francisco, uma região bastante pobre e quando completei 25 anos de padre, eu fundei a Funsern, Fundação Sócio-Educativa do Rio Grande do Norte, que contava com uma escola, e minha mãe me perguntou: “ Por que você não consagra essa sua obra com o nome de Santa Clara”. Silenciosamente implantamos a pastoral de Santa Clara, houve o seu crescimento e veio a rádio FM Santa Clara e em seguida o mosteiro de Santa Clara.

Azougue - Pode me falar um pouco sobre Santa Clara?

Padre Sátiro - Claro e com muito prazer. Ela é do tempo de São Francisco, precisamente do século XIII, mais ou menos no ano 1225. Ela era de família nobre, bonita, vaidosa, de cabelos grandes. Ela deixou a condição de mulher da chamada elite para se dedicar à pobreza e para se tornar franciscana fugiu de casa, já que a sua família se posicionava contra os seus objetivos. Foi a responsável pela abertura do ramo feminino do francisquianismo e fundou o segundo ramo das Clarissas. Hoje, só no Brasil nós temos 17 mosteiros de Clarissas.

Azougue - Padre Sátiro e o Diocesano. Como seu deu essa união?

Padre Sátiro - Eu cheguei de Roma no dia 28 de novembro de 1955 e no outro dia fui nomeado secretário do colégio. A turma que estava fazendo exame final era a de Noguchi Rosado, de Laci Gadelha e me botaram para examinar a banca de inglês. Eles boataram logo: Epa, vamos tomar cuidado. Chegou um padre novo que tá lascando todo mundo na prova oral. No 9 de junho 1956 houve a inauguração deste, hoje, prédio onde está o Diocesano, num grande esforço do bispo dom João Costa e de uma maneira especial também de dom Eliseu e a força de vontade do monsenhor Sales. Havia um internato e eu fui designado para ser o seu diretor, para administrar 85 internos, dentre eles o hoje deputado estadual Elias Fernandes. O padre Sales renunciou à direção do colégio, ficando em seu lugar o monsenhor Raimundo, depois padre Luís Soares e em 1960, dom Eliseu, já me via com muita experiência e me nomeou diretor, onde estou até hoje.

Azougue - O que representa para o padre Sátiro o Colégio Diocesano Santa Luzia?

Padre Sátiro - Eu fui para Roma para atuar na ação católica e fiz curso até na Bélgica. Eu não era vocacionado para este setor. Só que me infiltrei neste universo e é o Diocesano, indiscutivelmente, um filho, aliás, uma ternura de filho. Mais da metade da minha vida está plantada aqui e se a rede particular de ensino caminha com dificuldade, basicamente em função da inadimplência, nós também caminhamos e vamos seguindo sempre em busca das soluções, o que, aliás, sempre as alcançamos.

Azougue - O seu amigo jornalista Emery Costa disse-me que o senhor quando percebia que o aluno queria bagunçar, as providências imediatas eram tomadas sempre encarando no olho todos eles e no grito. É verdade?

Padre Sátiro - Eu levantava a batina e tirava o cinturão (uma grande gargalhada foi disparada). Eta tempo bom (nova risada). Eu me lembro que eu dei um puxavante de orelha em Paulo Negreiros, hoje dermatologista, e antes dele chegar em casa, os colegas dele, fuxiqueiros de primeira, foram dizer aos seus pais Rafael e D. Elizabete e ela, respondeu: “Se padre Sátiro fez isso, foi bem feito, eu sei que meu filho mereceu”. Dom José Freire era professor de português e morou conosco 2 anos e uma vez ele deu um puxão no deputado Elias Fernandes, que ele rolou na primeira escada e caiu lá embaixo (risos).

Azougue - O cinturão metia medo no alunado?

Padre Sátiro - Ora, se. Uma vez estava Chico Pinto (hoje juiz aposentado) liderando uma desordem, já cursando o segundo grau, eu fui lá, gritei, puxei o cinturão e a bagunça bem depressinha acabou. Agora o presepeiro mesmo era Augusto Escóssia, que está residindo em Brasília. Esse deu trabalho demais. Tinha Mazinho, filho de um ferroviário, o Xixico das Bananas, Rafaelzinho da Agrotec. Era uma turma danada, mas que eu adorava. Depois que a poeira abaixava eu ficava rindo sozinho.

Azougue - E a sua vida social?

Padre Sátiro - Eu sempre freqüentei as boas rodas de bate-papo e naturalmente tendo uma cervejinha como companhia. O meu, diria, fiscal, era o professor Antonio da Graça Machado. Muitas vezes saíamos da Universidade para Passagem de Pedras, onde freqüentávamos o bar de Tião, que preparava uma galinha deliciosa. Com a lamentável e prematura morte de Machado, eu fui me desligando deste circuito.

Azougue - Muitas alegrias? Alguma em particular?

Padre Sátiro - Muitas, muitas mesmo, agora duas mexeram mais comigo. A primeira em 1976, na festa dos 75 anos do Colégio Diocesano, que foi algo extraordinariamente emocionante e depois, já nos anos 80, quando dom José Freire resolveu colocar os seminaristas para estudar no Diocesano. Foi muito interessante, pelo reconhecimento da seriedade do trabalho que desenvolvemos.

Azougue - Qual o registro de alguma pancada recebida?

Padre Sátiro - Foi a desistência sacerdotal de padre Luís Soares Lima. Ele era vigário da catedral de Santa Luzia, diretor do colégio, um homem competente, sério, que quase respondia por toda a Diocese e era um exemplo para todos nós. Após umas férias em Campo Mourão, no retorno do Rio de Janeiro, deixou a batina. Em 1963 eu recebi esta triste notícia, pois a sua formação era na verdade um espelho para a minha vida.

Azougue - O renascimento no dia 20 de outubro de 1999. É verdade?

Padre Sátiro - É verdade sim. Após presidir uma reunião do Conselho Estadual de Educação, em Natal, por volta das 19h30, a terceira quarta-feira do mês de outubro de 1999, nas proximidades da sede campestre do Alecrim, já de retorno para Mossoró, o nosso carro, dirigido por Elpídio Neto, foi violentamente colhido por um caminhão e na batida tive como conseqüência 7 costelas quebradas, uma forte pancada na cabeça, que me fez perder 40% da visão do olho direito. Fiquei muitos dias hospitalizado e cheguei muitas vezes a imaginar que iria morrer. Agora veja só onde estava a mão de Deus, Caby: em frações de segundos do acidente o primeiro socorro veio de um médico que conduzia o seu veículo um pouco atrás do nosso e logo em seguida a chegada do monsenhor Alzoni, de Caicó, que estava participando da reunião do Conselho. O motorista do caminhão evadiu-se e até hoje não sei da sua identificação, porém se ele lê esta entrevista é bom que tenha conhecimento de que no meu coração reina o amor, a fé e a esperança e que não há espaços para mágoa. Concluindo: O 20 de outubro de 1999 foi o dia do meu renascimento.

Azougue - De trator a carroça?

Padre Sátiro - Você não vai mudar nunca às suas características e por isso lhe tenho uma profunda admiração. Eu lhe disse após o meu retorno: “Eu era um trator e agora me sinto uma carroça (risada). Só que uma carroça que não enferruja, apesar de recentemente o meu coração ter tentado me pregar uma peça. Eu sempre acreditei vou continuar acreditando no próximo e vendo a vida da forma que Deus me ensinou, com amor. Muito amor e acima de tudo muita esperança”.

Azougue - Valeu e muito obrigado padre Sátiro

Padre Sátiro - O agradecimento é meu e siga em frente com o seu www.azougue.com.

Site melhor visualizado com I.E. 5.0 ou posterior e 800x600px
Copyright©, 2004-2006 www.azougue.com - Todos os Direitos Reservados
Projeto - Caby da Costa Lima