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PADRE
SÁTIRO
Primeiro, diante dele não há nenhum temor reverencial,
mas um sentimento de fraternidade. Ele é igual. É
gente como a gente. É um padre que acredita nos anjos
e aprende todo dia lições de espiritualidade agostiniana.
É um homem de paz e amigos aos quais é leal, é
modesto como manda a sabedoria superior. É um dos maiores
diretores que já conheceu o antigo Colégio dos
Padres. Sátiro Cavalcanti é para mim um alumbramento.
(Mestre Dorian Jorge Freire - falecido em 24 de agosto 2005).
Azougue
- Desde criança o sonho de ser padre?
Padre
Sátiro - Não, de maneira nenhuma. O meu irmão,
o ministro José Dantas, era o coroinha, era o vocacionado
da minha casa. Antes do meu pai morrer, aos 42 anos de idade,
ele reuniu a família e disse: respeitem a vocação
de Dedé. Somente aos 14 anos, meu pai já falecido,
eu comecei a me aproximar da igreja, a ter um contato mais amplo
com o padre Caminha, isso em Pau dos Ferros. No ano 1942, eu
disse que queria ser padre e somente a minha mãe e padre
Caminha acreditaram e no dia 9 de fevereiro de 43, após
uma exaustiva viagem de trem, cheguei em Mossoró e fui
para o seminário. 15 anos depois eu passei a usar a batina.
Azougue
- Um dia o senhor me falou que também gostaria de ter
sido militar. Lembra?
Padre
Sátiro - Faz tempo. Que memória, hein! Olha, eu
já adulto, já padre, conversei demoradamente com
o conhecido espírita Bezerrinha, e ele me falou: “Eu
não gosto quando o senhor vem aqui. A sua força
interna é tamanha que me deixa atrapalhado”. E
ele em seus estudos espirituais, também frisou: “Se
não tivesse abraçado a batina, hoje serias um
general. A sua vocação também tendia para
o militarismo”.
Azougue
- Qual o perfil que tinha a igreja há 50 anos e qual
o seu perfil atual?
Padre
Sátiro - Para se fazer a preparação para
a primeira comunhão a gente passava 3 dias em um retiro
espiritual. As filhas de Maria, que era uma congregação
italiana, não comungavam com blusas sem mangas, não
usavam decotes, não se permitia namoros na porta de igreja
e o vigário era líder absoluto da paróquia.A
igreja sempre foi muito sábia, ela vai evoluindo e, lógico,
se adaptando aos tempos e automaticamente recebe uma influência
marcante da juventude. A igreja sempre esteve certa, ela não
mudou a sua doutrina. A maneira de interpretar, de viver, de
se expressar e isso nós fazemos na liturgia. Há
anos, não se imaginava alguém tocar violão,
bateria, padre dançando e etc. Repito: A igreja continua
correta, ela apenas habitua-se naturalmente aos tempos. O essencial
é a manutenção da fé, da caridade,
da esperança.
Azougue
- Como nasceu essa sua devoção por Santa Clara?
Padre
Sátiro - O nascimento se deu via minha mãe, D.Erundina.
Eu passei muito tempo na Itália e várias vezes
fui à cidade de São Francisco, uma região
bastante pobre e quando completei 25 anos de padre, eu fundei
a Funsern, Fundação Sócio-Educativa do
Rio Grande do Norte, que contava com uma escola, e minha mãe
me perguntou: “ Por que você não consagra
essa sua obra com o nome de Santa Clara”. Silenciosamente
implantamos a pastoral de Santa Clara, houve o seu crescimento
e veio a rádio FM Santa Clara e em seguida o mosteiro
de Santa Clara.
Azougue
- Pode me falar um pouco sobre Santa Clara?
Padre
Sátiro - Claro e com muito prazer. Ela é do tempo
de São Francisco, precisamente do século XIII,
mais ou menos no ano 1225. Ela era de família nobre,
bonita, vaidosa, de cabelos grandes. Ela deixou a condição
de mulher da chamada elite para se dedicar à pobreza
e para se tornar franciscana fugiu de casa, já que a
sua família se posicionava contra os seus objetivos.
Foi a responsável pela abertura do ramo feminino do francisquianismo
e fundou o segundo ramo das Clarissas. Hoje, só no Brasil
nós temos 17 mosteiros de Clarissas.
Azougue
- Padre Sátiro e o Diocesano. Como seu deu essa união?
Padre
Sátiro - Eu cheguei de Roma no dia 28 de novembro de
1955 e no outro dia fui nomeado secretário do colégio.
A turma que estava fazendo exame final era a de Noguchi Rosado,
de Laci Gadelha e me botaram para examinar a banca de inglês.
Eles boataram logo: Epa, vamos tomar cuidado. Chegou um padre
novo que tá lascando todo mundo na prova oral. No 9 de
junho 1956 houve a inauguração deste, hoje, prédio
onde está o Diocesano, num grande esforço do bispo
dom João Costa e de uma maneira especial também
de dom Eliseu e a força de vontade do monsenhor Sales.
Havia um internato e eu fui designado para ser o seu diretor,
para administrar 85 internos, dentre eles o hoje deputado estadual
Elias Fernandes. O padre Sales renunciou à direção
do colégio, ficando em seu lugar o monsenhor Raimundo,
depois padre Luís Soares e em 1960, dom Eliseu, já
me via com muita experiência e me nomeou diretor, onde
estou até hoje.
Azougue
- O que representa para o padre Sátiro o Colégio
Diocesano Santa Luzia?
Padre
Sátiro - Eu fui para Roma para atuar na ação
católica e fiz curso até na Bélgica. Eu
não era vocacionado para este setor. Só que me
infiltrei neste universo e é o Diocesano, indiscutivelmente,
um filho, aliás, uma ternura de filho. Mais da metade
da minha vida está plantada aqui e se a rede particular
de ensino caminha com dificuldade, basicamente em função
da inadimplência, nós também caminhamos
e vamos seguindo sempre em busca das soluções,
o que, aliás, sempre as alcançamos.
Azougue
- O seu amigo jornalista Emery Costa disse-me que o senhor quando
percebia que o aluno queria bagunçar, as providências
imediatas eram tomadas sempre encarando no olho todos eles e
no grito. É verdade?
Padre
Sátiro - Eu levantava a batina e tirava o cinturão
(uma grande gargalhada foi disparada). Eta tempo bom (nova risada).
Eu me lembro que eu dei um puxavante de orelha em Paulo Negreiros,
hoje dermatologista, e antes dele chegar em casa, os colegas
dele, fuxiqueiros de primeira, foram dizer aos seus pais Rafael
e D. Elizabete e ela, respondeu: “Se padre Sátiro
fez isso, foi bem feito, eu sei que meu filho mereceu”.
Dom José Freire era professor de português e morou
conosco 2 anos e uma vez ele deu um puxão no deputado
Elias Fernandes, que ele rolou na primeira escada e caiu lá
embaixo (risos).
Azougue
- O cinturão metia medo no alunado?
Padre
Sátiro - Ora, se. Uma vez estava Chico Pinto (hoje juiz
aposentado) liderando uma desordem, já cursando o segundo
grau, eu fui lá, gritei, puxei o cinturão e a
bagunça bem depressinha acabou. Agora o presepeiro mesmo
era Augusto Escóssia, que está residindo em Brasília.
Esse deu trabalho demais. Tinha Mazinho, filho de um ferroviário,
o Xixico das Bananas, Rafaelzinho da Agrotec. Era uma turma
danada, mas que eu adorava. Depois que a poeira abaixava eu
ficava rindo sozinho.
Azougue
- E a sua vida social?
Padre
Sátiro - Eu sempre freqüentei as boas rodas de bate-papo
e naturalmente tendo uma cervejinha como companhia. O meu, diria,
fiscal, era o professor Antonio da Graça Machado. Muitas
vezes saíamos da Universidade para Passagem de Pedras,
onde freqüentávamos o bar de Tião, que preparava
uma galinha deliciosa. Com a lamentável e prematura morte
de Machado, eu fui me desligando deste circuito.
Azougue
- Muitas alegrias? Alguma em particular?
Padre
Sátiro - Muitas, muitas mesmo, agora duas mexeram mais
comigo. A primeira em 1976, na festa dos 75 anos do Colégio
Diocesano, que foi algo extraordinariamente emocionante e depois,
já nos anos 80, quando dom José Freire resolveu
colocar os seminaristas para estudar no Diocesano. Foi muito
interessante, pelo reconhecimento da seriedade do trabalho que
desenvolvemos.
Azougue
- Qual o registro de alguma pancada recebida?
Padre
Sátiro - Foi a desistência sacerdotal de padre
Luís Soares Lima. Ele era vigário da catedral
de Santa Luzia, diretor do colégio, um homem competente,
sério, que quase respondia por toda a Diocese e era um
exemplo para todos nós. Após umas férias
em Campo Mourão, no retorno do Rio de Janeiro, deixou
a batina. Em 1963 eu recebi esta triste notícia, pois
a sua formação era na verdade um espelho para
a minha vida.
Azougue
- O renascimento no dia 20 de outubro de 1999. É verdade?
Padre
Sátiro - É verdade sim. Após presidir uma
reunião do Conselho Estadual de Educação,
em Natal, por volta das 19h30, a terceira quarta-feira do mês
de outubro de 1999, nas proximidades da sede campestre do Alecrim,
já de retorno para Mossoró, o nosso carro, dirigido
por Elpídio Neto, foi violentamente colhido por um caminhão
e na batida tive como conseqüência 7 costelas quebradas,
uma forte pancada na cabeça, que me fez perder 40% da
visão do olho direito. Fiquei muitos dias hospitalizado
e cheguei muitas vezes a imaginar que iria morrer. Agora veja
só onde estava a mão de Deus, Caby: em frações
de segundos do acidente o primeiro socorro veio de um médico
que conduzia o seu veículo um pouco atrás do nosso
e logo em seguida a chegada do monsenhor Alzoni, de Caicó,
que estava participando da reunião do Conselho. O motorista
do caminhão evadiu-se e até hoje não sei
da sua identificação, porém se ele lê
esta entrevista é bom que tenha conhecimento de que no
meu coração reina o amor, a fé e a esperança
e que não há espaços para mágoa.
Concluindo: O 20 de outubro de 1999 foi o dia do meu renascimento.
Azougue
- De trator a carroça?
Padre
Sátiro - Você não vai mudar nunca às
suas características e por isso lhe tenho uma profunda
admiração. Eu lhe disse após o meu retorno:
“Eu era um trator e agora me sinto uma carroça
(risada). Só que uma carroça que não enferruja,
apesar de recentemente o meu coração ter tentado
me pregar uma peça. Eu sempre acreditei vou continuar
acreditando no próximo e vendo a vida da forma que Deus
me ensinou, com amor. Muito amor e acima de tudo muita esperança”.
Azougue
- Valeu e muito obrigado padre Sátiro
Padre
Sátiro - O agradecimento é meu e siga em frente
com o seu www.azougue.com.
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