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Ana
Katarina Gurgel
Psicologa Infantil
‘’A
MORTE E AS CRIANÇAS’’
1- Devemos falar de morte com as crianças?
Sim, se isso for uma demanda dela sim, não há
porque esconder ou disfarçar um tema que faz parte da
vida e a morte permeia o imaginário infantil. Tudo que
está vivo um dia irá morrer, é um ciclo
natural, as pessoas, os bichos, as plantas, nascem, crescem,
se reproduzem e morrem, acontece que esse assunto é evitado
por vários motivos, dentre os mais comuns porque temos
a sensação que evitando falar, afastamos a possibilidade
da morte, é um mecanismo de defesa do ser humano, o outro,
perpassa pela dificuldade que temos de explicar o inexplicável,
quando na verdade a morte é simplesmente deixar de viver,
simples assim e profundo também; acontece que esse tema
vem à tona justamente quando estamos muito sensibilizados
pela perda de um ente querido, daí nesse instante, sofremos
e não conseguimos transmitir de forma tranquila esse
processo que encerra um ciclo da existência de um ser
vivo.
Temos agora um bom motivo para falar sobre esse tema com a celebração
do dia dos finados, acho um bom momento para explicar às
crianças o porquê desse dia ser reservado para
nos lembrarmos dos mortos, pois eis o que o tempo não
mata: a memória afetiva.
2- A partir de que idade se deve falar de morte com as crianças?
Não
existe idade certa para tocar no assunto. Oriento a esperar
a necessidade, seja pelo falecimento, pela morte de um bichinho
de estimação, pela passagem por um cemitério,
enfim, se a criança traz a curiosidade, deve-se aproveitar
a oportunidade e discorrer sobre o tema.
Acho pouco provável que uma criança antes do 4
anos de idade entre nesses questionamentos, pois é só
a partir dos 4 ou 5 anos que elas começam a entender
as relações da vida e a ter acesso maior às
informações, justamente porque começam
a perceber o mundo de uma forma diferente, mais consciente,
mais apropriada. O que se deve fazer é ir educando a
criança através de exemplos práticos do
ciclo da natureza, ou do bichinho de estimação
como o peixinho (ele é frágil e seu ciclo de vida
é menor dentre os outros animais de estimação),
cantigas, livros infantis e filmes que tratam do assunto também
ajudam.
3 - Como deve ser o conteúdo dessa conversa?
No tema discorrido, a criança precisa entender 3 pontos
básicos:
a- A universalidade – tudo que é vivo um dia vai
morrer.
b- A irreversibilidade – quando morre, não há
volta.
c- A não-funcionabilidade – depois de morto, o
ser não corre, não dorme, não pensa, não
age.
Ou seja, em hipótese alguma deve-se dizer frases feitas
como: “o vovô viajou”, “a mamãe
tá dormindo no céu” pois a criança
personifica a morte, ela atribui uma realidade de acordo com
o que lhe é explicado, não raro encontro crianças
sofrendo muito querendo pegar um avião para visitar a
mãe no céu, ou pegam o celular e pedem para ligar
acordando seu avô, além disso, é importante
salientar que a criança imagina que ela mesma é
capaz de escapar ou enganar a morte, por isso a importância
de frisar esses três pontos acima, pontuando porque precisamos
tomar cuidado na piscina, ao atravessar a rua.
4. Crianças podem ir a velórios ou enterros?
Sim,
sem forçar, sempre oriento que a criança precisa
participar desse ritual, pois vai ajudá-la a entender
que esse ente querido morreu, não voltará mais,
ajudará a fechar um ciclo e a evitar que ou a criança
fique alienada no desejo de ter o ente de volta ou postergue
muito tempo num processo de NEGAÇÃO (fase do processo
de elaboração do luto no qual a criança/adulto
não acredita que o ente morreu) do luto. Não se
pode forçar, mas elas se beneficiam de participar junto
aos adultos deste ritual de passagem.
a- Deve-se explicar o que é um velório e um enterro
e pergunte se ela quer ir. Mas nunca decida pela criança
a deixá-la de fora.
b- Explique o que ela irá encontrar lá e não
esqueça de falar que terá pessoas tristes e chorando
porque nunca mais voltarão a ver essa pessoa, que é
uma despedida para sempre.
c- Pontue que ela pode expressar o seu sentimento, portanto
que pode chorar se tiver vontade, que se não quiser chegar
perto da pessoa, não será necessário, enfim,
que ela pode ir até lá para se despedir, mas que
não é obrigada a fazer nada além do que
dá tchau.
d- Ficar atenta às cenas comuns de profunda dor (alguns
acessos histéricos) de parentes próximos e ter
bom senso para afastar a criança desse ambiente, pois
ela não saberá diferenciar o choro de uma dor
emocional para aquela de dor física e isso a confundirá,
assustando-a.
Não se preocupem, velórios e enterros não
traumatizam as crianças.
5 - Como contar para elas que alguém que conhecem morreu?
Não esconda nada, muito menos invente histórias
para poupar os pequenos. Frases como “ele dormiu para
sempre”, “descansou” ou “fez uma longa
viagem” só vão confundir a cabeça
infantil. Crianças levam tudo ao pé da letra e
podem achar que a vovó vai acordar ou que todo mundo
que viaja nunca volta.
É muito comum também usar a famosa “o vovô
virou uma estrelinha”, que pode levar a criança
a acreditar nisso literalmente e ficar elaborando maneiras de
chegar até ele. “As crianças de até
cerca de 10 anos não abstraem. O seu psiquismo em construção
não consegue captar os conceitos subjetivos. Elas pensam
de forma concreta e constroem os conceitos a partir do concreto”.
Seja simples e direto, ex: A vovó morreu!!! Ela parou
de viver, isso quer dizer que ela não sente mais dor,
mais frio, mais fome e não irá voltar mais, nunca
mais, por isso eu estou indo agora até o velório
(explica o que é o velório e enterro), pois quero
me despedir dela, fazer uma oração (pode pontuar
o ritual religioso), e dizer pela última vez que eu a
amo muito, gostaria que você viesse comigo para fazer
o mesmo, você gostaria de se despedir da vovó???
Caso a criança diga que não, é importante
ajudá-la a compreender o que significa esse momento,
a importância desse ritual de despedida, pois a criança
que consegue ir até o velório e participar dessa
passagem conseguirá com mais tranquilidade para elaborar
o luto.
6
- Quando a criança pergunta sobre o morrer o que devemos
falar.
Primeiro é importante elaborar seus próprios conceitos
sobre a morte, pois antes de tudo você tem de acreditar
naquilo que fala para a criança. Em seguida é
importante dizer-lhe que existem outras formas de pensar sobre
a morte e que você não sabe tudo e abra um canal
de comunicação onde ambos poderão encontrar
as próprias respostas sobre a morte, ajudando-o a elaborar
sua própria definição sobre a morte. Seja
sempre honesto e não tenha medo de dizer não sei.
Enfim, o tema morte deve ser discutido de forma natural e tranquila,
lembrando que as recordações, a memória
afetiva nunca desaparecerá, e que depois de certo tempo
acontece o chamado luto saudável, quando se percebe que
é possível se lembrar do ente querido de forma
leve e sem sofrimento.
7. E quando morre alguém na família, qual
a melhor forma de ajudar a criança durante o luto?
Demonstre-a que você também está sofrendo,
que sente muitas saudades e abra um espaço de comunicação
no qual ela possa expressar seus sentimentos dando-lhe apoio
e acolhimento. Não esconda sua dor, nem seu sentimento,
também não faça da criança o seu
confessor, mas demonstre que é normal ficar triste pela
morte de alguém que amamos muito e que nos fez felizes,
que a saudade é natural, mas que ela tende a amenizar
ao ponto de conseguirmos conviver com ela, agindo dessa forma
a criança se sente livre para também expressas
suas tristezas e suas dores.
Muitas vezes não precisamos falar muito, nem criar teorias
ou filosofias acerca do tema, garanta-lhe que ela nunca estará
sozinha, que sempre haverá alguém que cuidará
dela e providencie para que ela retome suas atividades rotineiras
o mais rapidamente possível.
Não é necessário excluí-las das
conversas, da tristeza. Ouça o que elas têm pra
falar ou peça para que desenhem o que estão sentindo.
Fique atento às mudanças bruscas de comportamento
ou a uma suposta aceitação, algo tipo: “Ele
é muito forte, está lidando muito bem com a morte
dos pais, parece que nem sente...!. Uma regressão no
comportamento é esperado como: choro constante, brigas
na escola, voltar a fazer xixi na cama, hiperatividade ou muita
passividade, se esses sintomas persistem por mais de seis meses
é importante buscar a orientação psicológica.
8 - O dia de finados está chegando, a senhora
acha que a criança deve ir ao cemitério?
Isso depende de cada criança, do que ela está
demandando, de cada família e de como é para essa
família fazer visitações no cemitério,
qual o valor simbólico que ela atribui a essa ida, como
eles percebem esse espaço, qual a informação
que eles querem passar para a criança, se a criança
tem curiosidade de saber como é esse local onde o ente
foi enterrado e se esse é um desejo da criança.
Então não tem o certo nem errado nesse aspecto,
vai depender de qual significado e para que função
se leva a criança ao cemitério, de qualquer forma,
é um espaço que deve ser pontuado como especial,
de respeito e porque não dizer sagrado por abrigar o
físico de pessoas tão amadas.
“Ninguém pode fugir ao amor e à morte”.
(Públio Siro)
Ana
Katarina Gurgel é psicóloga infantil há
15 anos, atua como psicomotricista relacional há 14 anos,
é especialista em psicopedagogia, psico-oncologia, acupuntura
tem vasta experiência em avaliação psicológica
sendo credenciada junto à Polícia Federal como
perita psicóloga à avaliação psicológica
para porte de arma. É servidora pública municipal
com vínculos como psicóloga e psicopedagoga.
Atualmente atende crianças a partir de 1 ano e meio até
12 anos de idade em seu consultório em Mossoró/RN
e forma novos psicomotricistas relacionais no CIAR - Centro
Internacional de Análise Relacional em Fortaleza/CE.
Fone para contato: (84) 3065-7172
e-mail: anakatarina100@hotmail.com
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