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XAVIER LIMA
PEDIATRA

CEFALÉIA EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Azougue - É comum a queixa de cefaléia em crianças e adolescentes?

Xavier Lima - Sim. A maioria das crianças apresenta queixa de cefaléia em algum período de sua vida, geralmente acompanhando processos infecciosos, onde é comum a presença também de outros sintomas. A cefaléia não costuma, nesses casos, ser o principal motivo de consulta médica. No entanto, em muitas crianças essa queixa costuma se manifestar de forma isolada, durante muito tempo (forma crônica) e se repetindo várias vezes (forma recorrente), atrapalhando suas atividades habituais.

Pesquisas realizadas revelaram que entre 3 e 7 anos de idade, a queixa de alguma dor de cabeça foi em torno de 1,2% e 3,2%, sendo mais acometidos os meninos. Dos sete aos onze anos essa taxa oscilou entre 4% e 11%, com igual proporção entre meninos e meninas, enquanto que na faixa dos onze a quinze anos o relato de cefaléia foi observado em 8% a 23% dos pesquisados, sendo que nessa faixa de idade a maior prevalência foi entre as meninas.

Em um estudo realizado em Curitiba, com 460 indivíduos entre dez e catorze anos, observou-se 90% das adolescentes haviam apresentado pelo menos um episódio de cefaléia no último ano.

A cefaléia é, portanto, queixa comum e seu aparecimento de forma esporádica não costuma atrapalhar as atividades da criança. Por outro lado, a cefaléia crônica é uma importante causa de falta às atividades escolares.

Azougue - Como saber se a criança está com dor de cabeça?

Xavier Lima - É problemático muitas vezes, saber se realmente a criança tem dor de cabeça, enxaqueca ou se está simplesmente imitando algum parente próximo que sofra de dor de cabeça. No entanto, se a criança começa a evitar fazer o que gosta por causa de dor de cabeça e não apenas aquilo que lhe é desagradável, é hora de pensarmos na veracidade das queixas. Se tiver algum parente de primeiro grau com enxaqueca que com ela convive, aí então é bem provável que esse seja o seu problema em função da transmissão hereditária desta doença.

Azougue - Quais as principais causas de cefaléias em crianças e adolescentes?

Xavier Lima - Como dissemos anteriormente, a maioria das crianças teve ou terá alguma queixa de cefaléia. O mais comum é que sejam dores isoladas, que não se repitam e geralmente em conseqüência a doenças infecciosas, fazendo parte de um quadro patológico juntamente com outros sintomas.
A importância maior se verifica nas cefaléias que duram muito tempo e ficam se repetindo (crônicas e recorrentes). Nesses casos, o maior número de casos é de cefaléias primárias, isto é, que não são secundárias a nenhuma doença, e dentre essas a enxaqueca e a cefaléia tipo tensão são as mais comuns.
Existem também as cefaléias secundárias a moléstias, como as relacionadas a patologias cerebrais como os tumores cerebrais, meningites e aneurismas, nestes casos, geralmente, há também manifestações neurológicas e, de acordo com o diagnóstico, existem também outros sinais e sintomas. A possibilidade de a criança com cefaléia crônica ser portadora de doença cerebral gera grande preocupação nas famílias e procura por consultas médicas, entretanto, em estudos realizados nos Estados Unidos e Canadá observou-se que a cefaléia como único sintoma apareceu em apenas 1% das crianças com tumores cerebrais.
Outras doenças também podem vir acompanhadas de dores de cabeça: sinusites, hipertensão arterial, má oclusão dentária, e outras.

Azougue - Problemas de visão podem causar dor de cabeça?

Xavier Lima - Embora algumas deficiências visuais (vícios de refração) possam desencadear cefaléia, a maioria das dores de cabeça nos pacientes pediátricos não é originada por tais distúrbios. A cefaléia relacionada ao vício de refração é causada pelo esforço contínuo exercido pelo músculo ciliar para corrigi-lo. A hipermetropia é o vício de refração mais relacionado com cefaléia. A miopia pode também causar cefaléia por contração muscular, resultante do esforço realizado ao tentar focalizar objetos localizados a grandes distâncias.
Concluindo, as cefaléias decorrentes de erros de refração raramente é a única causa de cefaléia recorrente e só ocorrem após longos períodos de esforço visual e melhoram rapidamente após breve período de repouso visual.

Azougue - Então, pelo que foi exposto, enxaqueca e cefaléia tensional são os tipos de cefaléias que mais comumente acometem crianças e adolescente?

Xavier Lima - Sim, quando se fala de cefaléias que duram por muito tempo e se repetem (crônicas e recorrentes), as mais comuns são a enxaqueca e a cefaléia tensional, e destas a mais freqüente é a enxaqueca.

Azougue - Como reconhecer a enxaqueca na criança?

Xavier Lima - A apresentação dos ataques de enxaqueca é um pouco diferente nas crianças. Apresenta-se, geralmente, da seguinte forma: dor mais em peso ou pressão (a dor pulsátil é mais comum nas crianças maiores e adolescentes); na cabeça toda ou localização na fronte, nos dois lados; intensidade moderada, portanto geralmente inferior à dos adultos (deve ser avaliada pela interferência nas atividades habituais da criança e pela expressão facial); duração inferior a 4 horas é o mais freqüente.
São comuns também outros sintomas acompanhando as crises dolorosas, tais como enjôo, vômitos, dores abdominais e intolerância à luz, a ruídos e a odores fortes.

Azougue - A enxaqueca é hereditária?

Xavier Lima - Realmente os quadros de enxaqueca apresentam alta incidência familiar. Cerca de 70 a 90% das crianças com enxaqueca apresentam familiares próximos (pais e irmãos) com o mesmo diagnóstico. Existe inclusive um tipo específico, chamada de enxaqueca hemiplégica familiar, em que já está demonstrada a hereditariedade autossômica dominante.

Azougue - Qual o tratamento das crises de enxaqueca em crianças?

Xavier Lima - O tratamento das crises em crianças difere do tratamento de adultos. Enquanto as crises dos adultos tendem a ser mais dramáticas e incapacitantes, as infantis são mais leves e geralmente duram menos tempo. Por isso, na maioria dos casos, não há necessidade de remédios para combatê-las. O alívio por ser obtido apenas com repouso ou o ato de dormir. Muitas vezes, água fria na face e na cabeça representa é grande aliada à melhora da dor. Em outras ocasiões, entretanto, é necessário o uso de medicamentos para as crises mais fortes, os quais também diferem dos usados em adultos.
É muito importante que a criança seja avaliada por um médico, para fazer o diagnóstico correto e para eliminar as causas mais graves da dor de cabeça.


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