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MARIA
DAS GRAÇAS LOPES (GAGAÇA)
Como
vai amigo leitor/internauta? Paz e luz a todos! Na entrevista
que preparamos para você trouxemos uma convidada muito
espirituosa e conhecida carinhosamente como Gagaça. Mãe
de quatro filhos, esposa, odontóloga, política,
artista e fã de carteirinha de Chico Buarque de Holanda.
Batemos um papo repleto de esperança no ser humano e
de atitudes que muitos de nós deveríamos tomar
todos os dias, inclusive o de compreensão. Com muita
honra, apresentamos Gagaça Lopes.
AZOUGUE: Nome completo, quando e onde nasceu?
GAGAÇA
LOPES: Sou natural de Mossoró, meu nome atual
de casada é Maria das Graças Lopes Ferreira Lima
e nasci aos nove de maio de 1950.
AZOUGUE:
O que há de mais especial nas suas lembranças
de infância?
GAGAÇA
LOPES: Eu me criei numa cidade de interior, venho de
uma família grande de nove irmãos, e lá
o que nós dispúnhamos para brincar eram coisas
muito naturais: bonecas feitas com casca de melancia, de sabugo
de milho, brincavam-se muito de casinha, de ‘cozinhadinho’,
são coisas que eu não vejo muito inseridas nas
brincadeiras de infância. Com os meus filhos eu tive o
cuidado de colocá-los a par dessas coisas, tanto que
na minha casa eu ainda disponho de bila, pião feito de
madeira, rói-rói, que sempre quando vejo nas festas
de Santa Luzia eu compro, e outras brincadeiras que eu tento
conservar como marcas da minha infância e mostrar para
os meus meninos essa pureza das descobertas de você se
utilizar de brinquedos tão simples e que nos remetia
a sensações tão maravilhosas, pois desenvolvia
a criatividade.
AZOUGUE:
Por que Gagaça?
GAGAÇA
LOPES: Eu tenho tantos apelidos! Gagaça é
um apelido de infância, eu acho que era uma forma mais
carinhosa de chamar Graça. Mas eu tenho vários
apelidos, Loira, Galega, Elba Ramalho, por conta dos cabelos
encaracolados, “Bate-gute de morango”, por eu ser
vermelha, tudo que você puder pensar na vida! Mas eu não
perco minha identidade com isso, acho que é uma forma
carinhosa das pessoas. Chamam-me de gracinha, meu marido me
chama de Garota. Eu acho legal Gagaça e outros tantos
nomes que me derem.
AZOUGUE:
Como surgiu a vontade de se tornar médica?
GAGAÇA
LOPES: Eu sempre procurei uma profissão em que
eu tivesse que lidar com o ser humano. Isso era uma coisa que
eu sempre tinha em mente. Confesso que em certo momento da minha
vida tive vontade de ser médica, mas talvez por ser uma
pessoa extremamente sentimental eu senti certa dificuldade em
lidar com o sofrimento humano. Então achando que era
uma pessoa com habilidade manual, e que gostava de lidar com
pessoas, passei a me encantar pela odontologia. Foi como uma
iluminação e hoje quando alguém me pergunta
o que eu acho da minha profissão eu respondo da seguinte
forma: Eu acho tão maravilhosa que tenho dois filhos
cursando odontologia! Estão no segundo ano na UFRN (Universidade
Federal do Rio Grande do Norte) e estudam na mesma sala, passaram
no vestibular juntos.
AZOUGUE:
E por que trabalhar com crianças?
GAGAÇA
LOPES: Na verdade hoje eu trabalho pouco com criança,
mas eu sou uma pessoa muito ligada à infância,
muito ligada à criança, eu tenho uma paciência
sepulcral. Sempre digo que não é qualidade ser
um bom pai e uma boa mãe, é uma obrigação,
e com os meus filhos eu tenho certeza que se alguém os
mandar apontarem uma qualidade da mãe deles irão
responder que é a paciência, porque sempre coloquei
a questão do diálogo e da conversa muito próximos.
Posso lhe dizer sem mentir nem um tiquinho, que nunca bati num
filho meu. Por conta desse meu lado paciente, de ter muito jeito
com as crianças, de saber negociar eu me tornei, durante
muitos anos, dentista de criança. Como a vida nos remete
a outras coisas, como eu fiz especialização na
área de prótese, na área de estética,
e disponho aqui na clínica de uma profissional que é
odontopediatra, que é um doce de criatura, eu hoje encaminho
os meus “pimpolhos” para doutora Ivana, minha amiga.
AZOUGUE:
O casamento é...
GAGAÇA
LOPES: Casamento para mim é complemento! Essa
coisa da relação humana, eu não quero fazer
nenhuma restrição à questão de escolhas
de sexo, mas eu sou uma pessoa feita para conviver com pessoas,
tanto é que eu não tenho nenhum bicho de estimação,
porque eu sempre me apeguei a gente! E o casamento tem sido
para mim um motivo de prazer e alegria. Sempre coloco para os
meus filhos que no casamento muitas coisas são importantes,
mas o que eu acho fundamental é o respeito. Respeito
em todos os sentidos, até na questão do seu espaço,
pois sempre gosto de dizer que no casamento ninguém é
dono de ninguém, gosto de conservar minha individualidade,
gosto de ter os meus momentos sozinha, como também acho
que ele tem necessidade de ter o momento dele com os amigos.
Não somos donos, nem propriedades um do outro! E, para
mim, para ser feliz é importante o casamento, uma relação.
Não me vejo só, não me vejo dentro de um
espaço onde esteja apenas eu e minhas lembranças,
nem eu e meus pensamentos, mas sempre com alguém. Então
me dei muito bem no casamento, aconselho todo mundo. Amo o meu
“gordo” de paixão! Sempre dentro desse respeito
e conservando uma coisa que eu também acho muito importante
que é a renúncia! Acho que o papel da mulher é
fundamental, não sei se é por uma questão
cultural que ela é mais maleável, por ela entender
melhor, por ela ser menos racional do que o homem, que o sucesso
depende mais da mulher do que do homem. Segredo eu não
sei se existe, creio que é uma coisa do casal e que é
uma coisa de descoberta, mas casamento é o máximo!
AZOUGUE:
O que é que tem de mais precioso na estrutura familiar?
GAGAÇA
LOPES: O mais importante numa família é
o amor. Existindo amor, então você pode drenar
para todas as outras coisas. A partir do amor vem o respeito,
a compreensão, e numa família onde o casal se
dá bem, onde o casal se respeita, onde há compreensão,
os filhos, por tabela, também seguirão a mesma
conduta. É uma troca! Com relação aos filhos
eu sempre digo que a palavra que mais educa é a palavra
não. Em nenhum momento eu me arrependi de ter dito um
não para os meus filhos, porque eu entendia que estava
fazendo aquilo por amor! Quando eles perguntavam: mãe
por que não? Não pode por isso, agora saiba de
uma coisa, eu estou fazendo isso porque eu te amo, estou cuidando
de você, isso aqui é cuidar, isso é amar!
Então é importante você ter confiança,
confiança no seu parceiro, confiança nos seus
filhos e também dar uma resposta para eles. A partir
daí a família tende a ser mais equilibrada, eu
acredito que não haja uma fórmula, você
vai descobrindo! Eu tenho quatro filhos e são todos muito
diferentes e com cada um eu negociei muito! Eu acho que é
por isso que eu gosto tanto de política, eu digo que
a política está nas nossas vidas vinte e quatro
horas, na sua estrutura familiar, no seu trabalho, na suas relações
de amizade, eu digo que negocio vinte e quatro horas com as
pessoas e negociar é fazer política. Portanto
não tem segredo, a partir do amor você vai encontrando
os caminhos para essa família ter o equilíbrio.
AZOUGUE:
O que há na política que lhe despertou?
GAGAÇA
LOPES: Eu sou uma pessoa que gosta de viver plenamente,
eu vivo minha vida com toda a intensidade, preciso sempre estar
em ebulição e por isso tenho outras atividades
que não são profissionais. Faço parte de
um grupo musical no qual eu tenho aula toda semana, estou enveredando
pela área teatral, já participei de alguns eventos,
recentemente participei da abertura do seminário Novas
Liberdades, e a política é uma coisa que me complementa,
pois eu gosto de coisas que nos remetem ao pensamento, à
crítica, à leitura. Hoje fico triste com algumas
situações da política e ao mesmo tempo
eu digo o seguinte: está faltando nas pessoas uma preocupação,
numa análise crítica, sobre o que estava se passando,
porque hoje é muito simples a pessoa emitir uma opinião,
porque você tem alguém que pensa por você.
Na televisão o que você vê é um articulista
político, é um articulista econômico, e
de toda a natureza, e isso trouxe uma acomodação
tão grande que as pessoas têm medo de pensar, têm
preguiça de pensar. Por isso alguém já
está formulando uma linha de pensamento, e eu gosto de
ir mais longe, eu quero fazer uma crítica, eu quero fazer
uma leitura daquilo que eu penso, não quero que ninguém
o faça por mim. Então a política tem essa
coisa da novidade, da descoberta e é muito dinâmica,
pois é feita por gente! Então eu compreendo que
a política é feita por pessoas, e as pessoas são
vulneráveis, mudam e acho que você deve estar adepto
às mudanças. Portanto, me identifico muito com
política, acredito que ela tem muita coisa para ser explorada
e vida sem política é muito sem graça!
AZOUGUE:
A música é parte da sua vida. De onde vem o gosto
por ela?
GAGAÇA
LOPES: A música é aquela linguagem que
agrada a gregos e troianos. A música está comigo
desde a hora que eu me levanto! Música no banheiro, música
no quarto, no consultório, a todo instante! Música
na minha vida é essencial! Gosto de cantar. Não
sei cantar, canto de atrevida! A minha terapia é a música,
nunca precisei de analista, nunca me preocupei com isso, porque
eu acho que na minha vida a música faz esse papel. E
eu jamais poderia deixar de gostar de música quando eu
tenho no meu país um artista do quilate de Chico Buarque
de Holanda que faz uma leitura da vida das pessoas pelo avesso
de todas as formas, e eu seria maluca se eu não passasse
a me debruçar sobre as letras, a pensar, a analisar esse
universo que é Chico. Então ter Chico à
nossa disposição me leva a ter sonhos enormes!
A minha vida sem música e sem Chico já era!
AZOUGUE:
Para você, ser mulher significa...
GAGAÇA
LOPES: Ser mulher é uma coisa que não
há nada que substitua! Eu fico muito triste quando eu
vejo uma mulher defender determinadas posições
muito feministas que eu não concordo. Eu creio que mulher
combina com “feminino”. Eu acho que tem uma delimitação
de espaço, eu não quero certas atividades masculinas,
nasci mulher, quero morrer mulher e atitudes masculinas ficam
para os homens. Ser mulher é ser terna, compreensiva,
é assumir o seu papel sem revolta, é você
ter a possibilidade de amamentar, não há coisa
mais linda na vida do que uma criança no peito! Você
pode até amamentar sem ser no peito, mas é uma
coisa que só a mulher é capaz de fazer. Quero
que as mulheres tenham seus espaços, mas que elas os
conquistem como mulher, acho que ela deve ser respeitada, que
deve estar inserida dentro do contexto social, mas sempre como
mulher.
AZOUGUE:
O que deixa Graça Lopes irritada?
GAGAÇA
LOPES: Falta de educação e grosserias
me deixam profundamente irritada! Eu sou equilibrada, tranqüila
e tenho paciência, mas se pisarem nos meus calos eu viro
uma arara! Não deixo nada sem resposta! Não agrido
ninguém, mas não me agridam, pois você tem
na sua frente alguém que vai ser muito difícil
de combater e vencer! Falta de educação me deixa
bastante irritada. Por exemplo: alguém jogando qualquer
coisa no chão, esquecer de pedir licença. As pessoas
esqueceram das palavras mágicas como com licença,
por favor, obrigada, agradecida e isso é uma coisa muito
importante na nossa vida.
AZOUGUE:
Tem saudade de quê?
GAGAÇA
LOPES: Tenho saudade de muitas coisas! Tenho saudade
de pessoas muito importantes na minha vida que se foram: meu
pai, minha irmã. Tenho saudade de situações
de pureza onde as pessoas se respeitavam mais! Tenho saudade
de muita coisa, mas ao mesmo tempo eu procuro não viver
de passado, eu quero viver o meu momento. Eu já passei
por situações difíceis, situações
de saúde muito precárias, cirurgias muito complicadas,
e eu creio que você deve ter o seu olhar para frente!
Entretanto eu tenho saudade, eu sou uma pessoa saudosa! Eu gosto
de recordar momentos importantes da minha vida, mas sem tristeza
tento viver o momento. Mas eu tenho saudade dos meus filhos
pequenos, onde eu colocava todos debaixo das asas e levava para
onde eu queria. Hoje eles são independentes e tento compreender
isso, pois meus filhos não são minhas propriedades,
mas quando eu recordo dos meus pequenos eu sinto saudades!
AZOUGUE:
Graça Lopes por Gagaça Lopes.
GAGAÇA
LOPES: Uma pessoa feliz, uma pessoa realizada, eu não
tenho ambições, as coisas que gosto estão
ao meu alcance, eu não tenho sonhos inalcançáveis,
eu só quero paz! Quero uma vida longa, quero saúde,
minha família reunida perto de mim, meus amigos, não
sei viver sem amigos. Então eu sou feliz!
AZOUGUE:
E Deus?
GAGAÇA
LOPES: Deus é tudo! Eu não vejo minha
vida sem Deus. Não acredito que exista alguém
agnóstico, isso é conversa! Você tem que
acreditar em alguma coisa, num ser superior, numa energia e
essa energia é na forma de Deus. Eu preciso que ele me
mantenha lúcida para que eu possa manter minha família
legal, para que eu possa me manter profissionalmente, e sem
essa luz e sem essa energia nada acontece!
AZOUGUE:
Existe alguma pergunta que não foi feita e que você
gostaria de ter respondido?
GAGAÇA
LOPES: Não eu só quero agradecer a atenção,
o carinho. Quero dizer que estou à disposição
como profissional, como amiga, mas eu acho que a entrevista
está perfeita!(risos)
AZOUGUE:
Uma mensagem para os leitores do azougue.com.
GAGAÇA
LOPES: Eu vou deixar uma frase de Beto Guedes que diz
o seguinte: “A lição já sabemos de
cor, só nos resta aprender”. Se nós mergulharmos
no que diz essa frase, realmente, às vezes, nós
precisamos parar um pouco para aprender, tem muita coisa que
nós podemos aprender, a gente acha que sabe tudo, mas
não sabe nada e o que sabe não é legal.
Nós não sabemos de nada, nós precisamos
aprender a lição!
FOTOS: ESAÚ CASTRO/ANA PAULA MENDONÇA
ALINE@AZOUGUE.COM
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