Mossoró-RN, de 2005
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MARIA DAS GRAÇAS LOPES (GAGAÇA)

 

Como vai amigo leitor/internauta? Paz e luz a todos! Na entrevista que preparamos para você trouxemos uma convidada muito espirituosa e conhecida carinhosamente como Gagaça. Mãe de quatro filhos, esposa, odontóloga, política, artista e fã de carteirinha de Chico Buarque de Holanda. Batemos um papo repleto de esperança no ser humano e de atitudes que muitos de nós deveríamos tomar todos os dias, inclusive o de compreensão. Com muita honra, apresentamos Gagaça Lopes.


AZOUGUE: Nome completo, quando e onde nasceu?

GAGAÇA LOPES: Sou natural de Mossoró, meu nome atual de casada é Maria das Graças Lopes Ferreira Lima e nasci aos nove de maio de 1950.

AZOUGUE: O que há de mais especial nas suas lembranças de infância?

GAGAÇA LOPES: Eu me criei numa cidade de interior, venho de uma família grande de nove irmãos, e lá o que nós dispúnhamos para brincar eram coisas muito naturais: bonecas feitas com casca de melancia, de sabugo de milho, brincavam-se muito de casinha, de ‘cozinhadinho’, são coisas que eu não vejo muito inseridas nas brincadeiras de infância. Com os meus filhos eu tive o cuidado de colocá-los a par dessas coisas, tanto que na minha casa eu ainda disponho de bila, pião feito de madeira, rói-rói, que sempre quando vejo nas festas de Santa Luzia eu compro, e outras brincadeiras que eu tento conservar como marcas da minha infância e mostrar para os meus meninos essa pureza das descobertas de você se utilizar de brinquedos tão simples e que nos remetia a sensações tão maravilhosas, pois desenvolvia a criatividade.

AZOUGUE: Por que Gagaça?

GAGAÇA LOPES: Eu tenho tantos apelidos! Gagaça é um apelido de infância, eu acho que era uma forma mais carinhosa de chamar Graça. Mas eu tenho vários apelidos, Loira, Galega, Elba Ramalho, por conta dos cabelos encaracolados, “Bate-gute de morango”, por eu ser vermelha, tudo que você puder pensar na vida! Mas eu não perco minha identidade com isso, acho que é uma forma carinhosa das pessoas. Chamam-me de gracinha, meu marido me chama de Garota. Eu acho legal Gagaça e outros tantos nomes que me derem.

AZOUGUE: Como surgiu a vontade de se tornar médica?

GAGAÇA LOPES: Eu sempre procurei uma profissão em que eu tivesse que lidar com o ser humano. Isso era uma coisa que eu sempre tinha em mente. Confesso que em certo momento da minha vida tive vontade de ser médica, mas talvez por ser uma pessoa extremamente sentimental eu senti certa dificuldade em lidar com o sofrimento humano. Então achando que era uma pessoa com habilidade manual, e que gostava de lidar com pessoas, passei a me encantar pela odontologia. Foi como uma iluminação e hoje quando alguém me pergunta o que eu acho da minha profissão eu respondo da seguinte forma: Eu acho tão maravilhosa que tenho dois filhos cursando odontologia! Estão no segundo ano na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e estudam na mesma sala, passaram no vestibular juntos.

AZOUGUE: E por que trabalhar com crianças?

GAGAÇA LOPES: Na verdade hoje eu trabalho pouco com criança, mas eu sou uma pessoa muito ligada à infância, muito ligada à criança, eu tenho uma paciência sepulcral. Sempre digo que não é qualidade ser um bom pai e uma boa mãe, é uma obrigação, e com os meus filhos eu tenho certeza que se alguém os mandar apontarem uma qualidade da mãe deles irão responder que é a paciência, porque sempre coloquei a questão do diálogo e da conversa muito próximos. Posso lhe dizer sem mentir nem um tiquinho, que nunca bati num filho meu. Por conta desse meu lado paciente, de ter muito jeito com as crianças, de saber negociar eu me tornei, durante muitos anos, dentista de criança. Como a vida nos remete a outras coisas, como eu fiz especialização na área de prótese, na área de estética, e disponho aqui na clínica de uma profissional que é odontopediatra, que é um doce de criatura, eu hoje encaminho os meus “pimpolhos” para doutora Ivana, minha amiga.

AZOUGUE: O casamento é...

GAGAÇA LOPES: Casamento para mim é complemento! Essa coisa da relação humana, eu não quero fazer nenhuma restrição à questão de escolhas de sexo, mas eu sou uma pessoa feita para conviver com pessoas, tanto é que eu não tenho nenhum bicho de estimação, porque eu sempre me apeguei a gente! E o casamento tem sido para mim um motivo de prazer e alegria. Sempre coloco para os meus filhos que no casamento muitas coisas são importantes, mas o que eu acho fundamental é o respeito. Respeito em todos os sentidos, até na questão do seu espaço, pois sempre gosto de dizer que no casamento ninguém é dono de ninguém, gosto de conservar minha individualidade, gosto de ter os meus momentos sozinha, como também acho que ele tem necessidade de ter o momento dele com os amigos. Não somos donos, nem propriedades um do outro! E, para mim, para ser feliz é importante o casamento, uma relação. Não me vejo só, não me vejo dentro de um espaço onde esteja apenas eu e minhas lembranças, nem eu e meus pensamentos, mas sempre com alguém. Então me dei muito bem no casamento, aconselho todo mundo. Amo o meu “gordo” de paixão! Sempre dentro desse respeito e conservando uma coisa que eu também acho muito importante que é a renúncia! Acho que o papel da mulher é fundamental, não sei se é por uma questão cultural que ela é mais maleável, por ela entender melhor, por ela ser menos racional do que o homem, que o sucesso depende mais da mulher do que do homem. Segredo eu não sei se existe, creio que é uma coisa do casal e que é uma coisa de descoberta, mas casamento é o máximo!

AZOUGUE: O que é que tem de mais precioso na estrutura familiar?

GAGAÇA LOPES: O mais importante numa família é o amor. Existindo amor, então você pode drenar para todas as outras coisas. A partir do amor vem o respeito, a compreensão, e numa família onde o casal se dá bem, onde o casal se respeita, onde há compreensão, os filhos, por tabela, também seguirão a mesma conduta. É uma troca! Com relação aos filhos eu sempre digo que a palavra que mais educa é a palavra não. Em nenhum momento eu me arrependi de ter dito um não para os meus filhos, porque eu entendia que estava fazendo aquilo por amor! Quando eles perguntavam: mãe por que não? Não pode por isso, agora saiba de uma coisa, eu estou fazendo isso porque eu te amo, estou cuidando de você, isso aqui é cuidar, isso é amar! Então é importante você ter confiança, confiança no seu parceiro, confiança nos seus filhos e também dar uma resposta para eles. A partir daí a família tende a ser mais equilibrada, eu acredito que não haja uma fórmula, você vai descobrindo! Eu tenho quatro filhos e são todos muito diferentes e com cada um eu negociei muito! Eu acho que é por isso que eu gosto tanto de política, eu digo que a política está nas nossas vidas vinte e quatro horas, na sua estrutura familiar, no seu trabalho, na suas relações de amizade, eu digo que negocio vinte e quatro horas com as pessoas e negociar é fazer política. Portanto não tem segredo, a partir do amor você vai encontrando os caminhos para essa família ter o equilíbrio.

AZOUGUE: O que há na política que lhe despertou?

GAGAÇA LOPES: Eu sou uma pessoa que gosta de viver plenamente, eu vivo minha vida com toda a intensidade, preciso sempre estar em ebulição e por isso tenho outras atividades que não são profissionais. Faço parte de um grupo musical no qual eu tenho aula toda semana, estou enveredando pela área teatral, já participei de alguns eventos, recentemente participei da abertura do seminário Novas Liberdades, e a política é uma coisa que me complementa, pois eu gosto de coisas que nos remetem ao pensamento, à crítica, à leitura. Hoje fico triste com algumas situações da política e ao mesmo tempo eu digo o seguinte: está faltando nas pessoas uma preocupação, numa análise crítica, sobre o que estava se passando, porque hoje é muito simples a pessoa emitir uma opinião, porque você tem alguém que pensa por você. Na televisão o que você vê é um articulista político, é um articulista econômico, e de toda a natureza, e isso trouxe uma acomodação tão grande que as pessoas têm medo de pensar, têm preguiça de pensar. Por isso alguém já está formulando uma linha de pensamento, e eu gosto de ir mais longe, eu quero fazer uma crítica, eu quero fazer uma leitura daquilo que eu penso, não quero que ninguém o faça por mim. Então a política tem essa coisa da novidade, da descoberta e é muito dinâmica, pois é feita por gente! Então eu compreendo que a política é feita por pessoas, e as pessoas são vulneráveis, mudam e acho que você deve estar adepto às mudanças. Portanto, me identifico muito com política, acredito que ela tem muita coisa para ser explorada e vida sem política é muito sem graça!

AZOUGUE: A música é parte da sua vida. De onde vem o gosto por ela?

GAGAÇA LOPES: A música é aquela linguagem que agrada a gregos e troianos. A música está comigo desde a hora que eu me levanto! Música no banheiro, música no quarto, no consultório, a todo instante! Música na minha vida é essencial! Gosto de cantar. Não sei cantar, canto de atrevida! A minha terapia é a música, nunca precisei de analista, nunca me preocupei com isso, porque eu acho que na minha vida a música faz esse papel. E eu jamais poderia deixar de gostar de música quando eu tenho no meu país um artista do quilate de Chico Buarque de Holanda que faz uma leitura da vida das pessoas pelo avesso de todas as formas, e eu seria maluca se eu não passasse a me debruçar sobre as letras, a pensar, a analisar esse universo que é Chico. Então ter Chico à nossa disposição me leva a ter sonhos enormes! A minha vida sem música e sem Chico já era!

AZOUGUE: Para você, ser mulher significa...

GAGAÇA LOPES: Ser mulher é uma coisa que não há nada que substitua! Eu fico muito triste quando eu vejo uma mulher defender determinadas posições muito feministas que eu não concordo. Eu creio que mulher combina com “feminino”. Eu acho que tem uma delimitação de espaço, eu não quero certas atividades masculinas, nasci mulher, quero morrer mulher e atitudes masculinas ficam para os homens. Ser mulher é ser terna, compreensiva, é assumir o seu papel sem revolta, é você ter a possibilidade de amamentar, não há coisa mais linda na vida do que uma criança no peito! Você pode até amamentar sem ser no peito, mas é uma coisa que só a mulher é capaz de fazer. Quero que as mulheres tenham seus espaços, mas que elas os conquistem como mulher, acho que ela deve ser respeitada, que deve estar inserida dentro do contexto social, mas sempre como mulher.

AZOUGUE: O que deixa Graça Lopes irritada?

GAGAÇA LOPES: Falta de educação e grosserias me deixam profundamente irritada! Eu sou equilibrada, tranqüila e tenho paciência, mas se pisarem nos meus calos eu viro uma arara! Não deixo nada sem resposta! Não agrido ninguém, mas não me agridam, pois você tem na sua frente alguém que vai ser muito difícil de combater e vencer! Falta de educação me deixa bastante irritada. Por exemplo: alguém jogando qualquer coisa no chão, esquecer de pedir licença. As pessoas esqueceram das palavras mágicas como com licença, por favor, obrigada, agradecida e isso é uma coisa muito importante na nossa vida.

AZOUGUE: Tem saudade de quê?

GAGAÇA LOPES: Tenho saudade de muitas coisas! Tenho saudade de pessoas muito importantes na minha vida que se foram: meu pai, minha irmã. Tenho saudade de situações de pureza onde as pessoas se respeitavam mais! Tenho saudade de muita coisa, mas ao mesmo tempo eu procuro não viver de passado, eu quero viver o meu momento. Eu já passei por situações difíceis, situações de saúde muito precárias, cirurgias muito complicadas, e eu creio que você deve ter o seu olhar para frente! Entretanto eu tenho saudade, eu sou uma pessoa saudosa! Eu gosto de recordar momentos importantes da minha vida, mas sem tristeza tento viver o momento. Mas eu tenho saudade dos meus filhos pequenos, onde eu colocava todos debaixo das asas e levava para onde eu queria. Hoje eles são independentes e tento compreender isso, pois meus filhos não são minhas propriedades, mas quando eu recordo dos meus pequenos eu sinto saudades!

AZOUGUE: Graça Lopes por Gagaça Lopes.

GAGAÇA LOPES: Uma pessoa feliz, uma pessoa realizada, eu não tenho ambições, as coisas que gosto estão ao meu alcance, eu não tenho sonhos inalcançáveis, eu só quero paz! Quero uma vida longa, quero saúde, minha família reunida perto de mim, meus amigos, não sei viver sem amigos. Então eu sou feliz!

AZOUGUE: E Deus?

GAGAÇA LOPES: Deus é tudo! Eu não vejo minha vida sem Deus. Não acredito que exista alguém agnóstico, isso é conversa! Você tem que acreditar em alguma coisa, num ser superior, numa energia e essa energia é na forma de Deus. Eu preciso que ele me mantenha lúcida para que eu possa manter minha família legal, para que eu possa me manter profissionalmente, e sem essa luz e sem essa energia nada acontece!

AZOUGUE: Existe alguma pergunta que não foi feita e que você gostaria de ter respondido?

GAGAÇA LOPES: Não eu só quero agradecer a atenção, o carinho. Quero dizer que estou à disposição como profissional, como amiga, mas eu acho que a entrevista está perfeita!(risos)

AZOUGUE: Uma mensagem para os leitores do azougue.com.

GAGAÇA LOPES: Eu vou deixar uma frase de Beto Guedes que diz o seguinte: “A lição já sabemos de cor, só nos resta aprender”. Se nós mergulharmos no que diz essa frase, realmente, às vezes, nós precisamos parar um pouco para aprender, tem muita coisa que nós podemos aprender, a gente acha que sabe tudo, mas não sabe nada e o que sabe não é legal. Nós não sabemos de nada, nós precisamos aprender a lição!


FOTOS: ESAÚ CASTRO/ANA PAULA MENDONÇA


ALINE@AZOUGUE.COM

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