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EDITH
SOUTO
Minha
gente, quanta saudade! Desejando a todos muita paz e luz, trazemos
na página Mulher uma ótima entrevista. Edith Souto.
O nome já diz muito. Ela que com muito carinho nos concedeu
entrevista (por duas vezes até) falou muito, chorou,
recordou e se mostrou uma mulher valente, estudiosa e expressiva.
Vocês vão adorar. Ah! Nos escrevam enviando sugestões
ou críticas. O endereço é: aline@azougue.com.
Azougue:
Onde e quando nasceu?
Edith
Souto: Nasci em Mossoró - Rio Grande do Norte,
no ano de 1935, ao lado da igreja de São Vicente.
Azougue:
Nome completo?
Edith
Souto: Edith Fernandes Souto por casamento e Edith
Fernandes Vidal por pai e mãe.
Azougue:
Como foi sua infância? A senhora brincava? Saía
com as amigas?
Edith
Souto: Nossa mãe nos criou com muito rigor,
nós convivíamos muito com a família, a
família Fernandes. Moravam na avenida Alberto Maranhão
minhas avós materna e paterna, um tio e uma tia, na outra
rua morava um tio da minha mãe, então a gente
convivia mais com a família. Embora participasse muito
de tudo, a vida era muito diferente da de hoje, nunca brinquei
carnaval, nunca fui a festa, não é por isso que
eu deixei de ser feliz, nós éramos felizes, eu
acho que as mulheres de hoje é que não são
felizes, pois a cada minuto a sede de ter e de poder é
maior e naquele tempo nós éramos felizes por que
brincávamos, jogávamos “zona de barra”,
que é um jogo semelhante ao voleibol, brincávamos
de boneca, fazíamos comida, a forma de brincar era outra.
Portanto eu fui até 14 anos criança, apesar de
já estudar. Com 11 anos eu comecei o ginásio terminei
com 14, com 15 fiz o pedagógico e o técnico, íamos
de tarde para a Escola Normal e de noite para a União
Caixeiral. E nossa vida era alegre e feliz. Íamos para
a Escola Normal, então ficávamos onde hoje é
ao lado do Aceu (antigo Ipiranga), era nosso ponto de encontro,
das brincadeiras, dos namorinhos, participávamos de jogos
de voleibol, a própria escola fazia muitas brincadeiras
e nós participávamos de tudo isso. À noite
nós íamos para a escola técnica, passávamos
pela Praça do Pax e dávamos uma volta, passava
na Praça da União Caixeiral e dávamos outra
volta e assistíamos aulas. Tudo isso era caminhando,
era raro irmos de carro ou de bicicleta. Portanto era realmente
um mundo totalmente diferente, era um mundo feliz, era um mundo
bonito, um mundo de valor. As famílias tinham valor,
tinham dignidade, eram amigas, eu convivia muito bem com todos
os meus primos, tinha um primo com quem brincava no sótão
da casa de dr. Duarte, tenho recordações maravilhosas
desse tempo. O namoro você vai se espantar! Sabe como
começava? Debaixo de um pé de ficus. Puxava uma
folha, enrolava e dizia que tava querendo namorar. Então
era uma inocência pura e essa inocência fazia bem
a nós mulheres, eu era muito feliz! Meu primeiro namorado
eu já tinha 15 ou 16 anos e com ele eu namorei quase
a vida inteira, teve outros namoricos nos intervalos, depois
foi que conheci Soutinho, tinha 18 anos, em 1952 numa festa
de Santa Luzia que era diferente da festa de hoje, tinha um
microfone e agente botava música, aí agente oferecia
a música para uma pessoa, então foi assim que
começou praticamente o namoro. Mas começamos realmente
numa noite de Natal do mesmo ano. Nós íamos à
Praça do Pax nos encontrávamos e namorávamos,
o namoro era desse jeito muito puro e inocente.
Azougue:
A sua família incentivou os seus estudos?
Edith
Souto: Sempre recebi da minha família o incentivo
para estudar. Antigamente as famílias davam muito valor
à educação dos filhos e com 14 anos já
tinha terminado o ginásio, com 18 anos terminei o pedagógico
e o técnico em contabilidade, mas com 19 anos casei e
não estudei mais. Porém sempre fui curiosa sempre
gostei de ler, de pesquisar, de olhar revistas, e sempre gostei
de estudar.
Preparei-me umas três vezes para fazer vestibular quando
surgiu universidade em Mossoró, mas meu marido não
deixou. Quando viajava sempre fazia curso de inglês, fiz
Fisk, fiz um dos melhores cursos que existe no Brasil e no mundo
o Beules, e outros. Cada vez que ia ao Rio fazia um curso e
estudava para o vestibular. Somente após alguns anos
quando o meu marido atravessou alguns problemas e deixou a empresa
que ele dirigia foi que eu cursei a faculdade, fiz Serviço
Social na Uern. Quando a Universidade Potiguar (UnP) chegou
a Mossoró eu fui uma das primeiras alunas a me inscrever
para fazer o vestibular e fiz o curso de Administração
e paralelamente fiz especialização em Gestão
de Empresas. Portanto, o estímulo que vem desde meus
pais, do valor que a
pessoa tinha que estudar, que a pessoa tinha que saber tocar
um instrumento, ou tocava violão, ou tocava piano, ou
tocava sanfona. Eu toquei piano com Maria Consuelo Fernandes,
minha madrinha, com Ari Duarte, infelizmente o ensino daqui
não era excelente, mas sempre procurei aprender e desenvolver
alguma coisa, fiz curso de decoração no Rio, sou
uma curiosa em culinária, fiz muitos cursos de culinária
em Mossoró, todo curso de culinária que aparecia
eu fazia, então voltada para o ensino eu sempre fui.
Azougue: Na política a senhora ficou conhecida
como senadora, como surgiu esse apelido e qual sua relação
com a política?
Edith
Souto: Em Mossoró nós sabemos que todos
vivem política vinte e quatro horas. Eu sou com muito
orgulho e honradamente da família Fernandes. A família
Fernandes acompanhava dr. Duarte Filho, então eu era
garota de Ala-moça. A partir de 1960 me envolvi mais
na campanha de Aluízio Alves para governador, então
nós como liderados por dr. Duarte participamos intensivamente
da campanha de Aluízio para governo e da campanha de
monsenhor Walfredo Gurgel. Senadoras era um grupo de senhoras
que se reunia na casa de Ozelita Cascudo Rodrigues, na avenida
Alberto Maranhão próxima à casa de dr.
Duarte e esperava por Aluízio até as madrugadas.
Quando Aluízio voltava dos comícios, depois de
passar pela casa de dr. Duarte, ele ia para a nossa roda, era
uma roda imensa da sociedade de Mossoró e de alguns homens.
O próprio adversário foi quem estimulou o termo
Senadora, pois começaram a dizer que esse grupo era o
Senado, e quando Aluízio tomou conhecimento, era muito
inteligente e competente, tomava proveito de tudo que diziam
dele, aproveitou e nomeou que ia se encontrar com as Senadoras.
Então esse apelido tornou-se uma evidência, nós
passamos a ser conhecidas como o grupo
das Senadoras, era um grupo aliado a Aluízio Alves trabalhando
para ele em todas as campanhas. Veio a campanha de monsenhor
Walfredo, nós trabalhamos na campanha de Antônio
Rodrigues para prefeito de Mossoró, houve um rompimento
com dr. Duarte, então as Senadoras passaram a ter maior
participação, levaram a campanha e foram vencedoras,
foi a primeira vitória conseguida em Mossoró contra
os Rosado a campanha de Antônio Rodrigues de Carvalho,
em 1968. Em 1969, por injustiça dos governos federais,
Aluízio Alves foi cassado,
mas nós não esmorecemos, tomamos parte ativa,
assumimos o filho dele na campanha de 1970 e Henrique Eduardo
Alves chegou a ter em Mossoró, apoiado pelas Senadoras,
voto quase igual a maior liderança de Mossoró,
que na época era Vingt Rosado, a diferença foi
menos de mil votos, e isso era Aluízio cassado, o povo
com medo, mas não esmorecemos. Veio a campanha para prefeito
de Mossoró e nós lançamos candidatos, houve
muitas seqüelas, muitas brigas, perdemos, mas não
desanimávamos. Veio a campanha de Agenor Maria para senador,
ganhamos novamente. Três grandes vitórias de Mossoró:
Foi a de monsenhor Walfredo Gurgel para governador, a de Antônio
Rodrigues de Carvalho para prefeito e a de Agenor Maria para
senador. Continuamos em frente, vieram os governos biônicos,
estes governos criaram uma paz pública do Estado, se
uniram, Aluízio já estava saindo da cassação,
nós fizemos uma junção para eleger Jessé
Freire senador novamente. Então as Senadoras participaram
ativamente de todas as campanhas de Aluízio Alves. Infelizmente
essa paz pública não trouxe benefícios,
só trouxe desencanto, só trouxe desencontro. Em
1982 na campanha para governador, estávamos muito ligados
à família Maia, então houve incisão,
eu fui uma das que saíram e me arrependo muito, não
me envergonho, pois o filho pródigo também foi
assim, saiu da casa do pai e voltou, passado alguns anos eu
voltei para o convívio da família Alves e aquele
passado com a família Alves eu enterrei, é como
se nunca tivesse existido para mim. Depois veio Garibaldi e
com os Alves até a campanha de Wilma. Na campanha de
Wilma de 2002, Aluízio se aliou aos Rosado e por algumas
situações locais de Mossoró eu me opus
e apoiei orgulhosamente Wilma de Faria. Nesse ano pretendo continuar
Wilma de Faria e para senador Geraldo Melo em
oposição a “Dona de Mossoró”.
Azougue:
Como surgiu a idéia de escrever um livro?
Edith
Souto: Na verdade não surgiu idéia de
fazer o livro. Eu gosto muito de fazer as coisas certas e direitas.
Quando eu estava cursando a universidade, Especialização
em Gestão, o meu professor do instituto Ibrapa quis que
eu fizesse um trabalho sobre o sal, já que meu marido
tinha sido o presidente do sindicato dos institutos de extração
do sal a vida inteira. Então eu aceitei a idéia
e comecei a pesquisar muito, sou muito perfeccionista, gosto
muito de coisas organizadas e então eu preparei meu trabalho
de curso. Quando fui entregar o trabalho ao professor ele sugeriu
que eu o entregasse a dr. Vingt-un, eu levei para Dorian, que
também sugeriu que eu entregasse a dr. Vingt-un. Eu entreguei
a dr. Vingt-un, e todos sabem que dr. Vingt-un foi o homem que
mais estimulou a publicação de livros aqui em
Mossoró, então ele transformou em um livro.
Azougue:
A senhora é vaidosa?
Edith
Souto: Eu até digo que não sou tão
vaidosa, porque eu sou mais esportista, eu gosto muito de andar
à vontade, gosto de roupa esporte, gosto de tênis,
mas como toda mulher gosto de ficar bem arrumada e bem preparada
nas ocasiões necessárias, mas no meu dia-a-dia
eu sou mais esportista do que vaidosa.
Azougue: Edith Souto por Edith Souto?
Edith
Souto: Sou uma mulher muito franca, muito leal, muito
cumpridora da minha palavra e me orgulho de ser assim, apesar
de saber que muita coisa eu passei na minha vida por causa da
minha sinceridade, pois o mundo gosta das pessoas falsas. Mas
eu me defino como uma pessoa leal, honesta, decente e verdadeira.
E sou mais Edite Fernandes antes de tudo.
Azougue: Como foi sua vida acadêmica?
Edith
Souto: Uma das coisas melhores da minha vida foi o
meu mundo acadêmico! Apesar de ter idade diferente dos
colegas, pois eu fiz faculdade com mais de 60, mas a convivência
foi maravilhosa, amei todos os meus colegas, admirei todos os
meus professores, a minha vida acadêmica foi muito proveitosa,
adquiri muitos conhecimentos e sugiro aos jovens que ampliem
seus conhecimentos, procurem estudar, procurem realmente aprender
sem fingir, pois assim vocês terão um futuro no
amanhã!
Azougue:
Uma mensagem para os leitores do azougue.com
Edith
Souto: Eu sempre viajei muito, já fui ao Rio,
São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, países
da América do Sul, Estados Unidos, mas eu nunca havia
ido à Europa. Quando eu cheguei à Europa, especialmente
em Paris, eu gritei na fila: Eu sou francesa de coração!
Eu adorei a vitória da França contra o Brasil
e isso é raro! Identifiquei-me muito com o lugar e passei
a me perguntar: Por que eu gostava de francês? Por que
eu gostava de comida requintada? Então eu percebi que
tenho alma de francesa! Portanto a mensagem que eu deixo é
essa: A esperança não é um sonho é
a forma de transformar os sonhos em realidade. Por isso, jovens,
sonhem, tenham esperança e acreditem em seu futuro!
FOTOS:
ESAÚ CASTRO
ALINE@AZOUGUE.COM
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