Mossoró-RN, de 2005
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EDITH SOUTO

 

Minha gente, quanta saudade! Desejando a todos muita paz e luz, trazemos na página Mulher uma ótima entrevista. Edith Souto. O nome já diz muito. Ela que com muito carinho nos concedeu entrevista (por duas vezes até) falou muito, chorou, recordou e se mostrou uma mulher valente, estudiosa e expressiva. Vocês vão adorar. Ah! Nos escrevam enviando sugestões ou críticas. O endereço é: aline@azougue.com.

Azougue: Onde e quando nasceu?

Edith Souto: Nasci em Mossoró - Rio Grande do Norte, no ano de 1935, ao lado da igreja de São Vicente.

Azougue: Nome completo?

Edith Souto: Edith Fernandes Souto por casamento e Edith Fernandes Vidal por pai e mãe.

Azougue: Como foi sua infância? A senhora brincava? Saía com as amigas?

Edith Souto: Nossa mãe nos criou com muito rigor, nós convivíamos muito com a família, a família Fernandes. Moravam na avenida Alberto Maranhão minhas avós materna e paterna, um tio e uma tia, na outra rua morava um tio da minha mãe, então a gente convivia mais com a família. Embora participasse muito de tudo, a vida era muito diferente da de hoje, nunca brinquei carnaval, nunca fui a festa, não é por isso que eu deixei de ser feliz, nós éramos felizes, eu acho que as mulheres de hoje é que não são felizes, pois a cada minuto a sede de ter e de poder é maior e naquele tempo nós éramos felizes por que brincávamos, jogávamos “zona de barra”, que é um jogo semelhante ao voleibol, brincávamos de boneca, fazíamos comida, a forma de brincar era outra. Portanto eu fui até 14 anos criança, apesar de já estudar. Com 11 anos eu comecei o ginásio terminei com 14, com 15 fiz o pedagógico e o técnico, íamos de tarde para a Escola Normal e de noite para a União Caixeiral. E nossa vida era alegre e feliz. Íamos para a Escola Normal, então ficávamos onde hoje é ao lado do Aceu (antigo Ipiranga), era nosso ponto de encontro, das brincadeiras, dos namorinhos, participávamos de jogos de voleibol, a própria escola fazia muitas brincadeiras e nós participávamos de tudo isso. À noite nós íamos para a escola técnica, passávamos pela Praça do Pax e dávamos uma volta, passava na Praça da União Caixeiral e dávamos outra volta e assistíamos aulas. Tudo isso era caminhando, era raro irmos de carro ou de bicicleta. Portanto era realmente um mundo totalmente diferente, era um mundo feliz, era um mundo bonito, um mundo de valor. As famílias tinham valor, tinham dignidade, eram amigas, eu convivia muito bem com todos os meus primos, tinha um primo com quem brincava no sótão da casa de dr. Duarte, tenho recordações maravilhosas desse tempo. O namoro você vai se espantar! Sabe como começava? Debaixo de um pé de ficus. Puxava uma folha, enrolava e dizia que tava querendo namorar. Então era uma inocência pura e essa inocência fazia bem a nós mulheres, eu era muito feliz! Meu primeiro namorado eu já tinha 15 ou 16 anos e com ele eu namorei quase a vida inteira, teve outros namoricos nos intervalos, depois foi que conheci Soutinho, tinha 18 anos, em 1952 numa festa de Santa Luzia que era diferente da festa de hoje, tinha um microfone e agente botava música, aí agente oferecia a música para uma pessoa, então foi assim que começou praticamente o namoro. Mas começamos realmente numa noite de Natal do mesmo ano. Nós íamos à Praça do Pax nos encontrávamos e namorávamos, o namoro era desse jeito muito puro e inocente.

Azougue: A sua família incentivou os seus estudos?

Edith Souto: Sempre recebi da minha família o incentivo para estudar. Antigamente as famílias davam muito valor à educação dos filhos e com 14 anos já tinha terminado o ginásio, com 18 anos terminei o pedagógico e o técnico em contabilidade, mas com 19 anos casei e não estudei mais. Porém sempre fui curiosa sempre gostei de ler, de pesquisar, de olhar revistas, e sempre gostei de estudar.
Preparei-me umas três vezes para fazer vestibular quando surgiu universidade em Mossoró, mas meu marido não deixou. Quando viajava sempre fazia curso de inglês, fiz Fisk, fiz um dos melhores cursos que existe no Brasil e no mundo o Beules, e outros. Cada vez que ia ao Rio fazia um curso e estudava para o vestibular. Somente após alguns anos quando o meu marido atravessou alguns problemas e deixou a empresa que ele dirigia foi que eu cursei a faculdade, fiz Serviço Social na Uern. Quando a Universidade Potiguar (UnP) chegou a Mossoró eu fui uma das primeiras alunas a me inscrever para fazer o vestibular e fiz o curso de Administração e paralelamente fiz especialização em Gestão de Empresas. Portanto, o estímulo que vem desde meus pais, do valor que
a pessoa tinha que estudar, que a pessoa tinha que saber tocar um instrumento, ou tocava violão, ou tocava piano, ou tocava sanfona. Eu toquei piano com Maria Consuelo Fernandes, minha madrinha, com Ari Duarte, infelizmente o ensino daqui não era excelente, mas sempre procurei aprender e desenvolver alguma coisa, fiz curso de decoração no Rio, sou uma curiosa em culinária, fiz muitos cursos de culinária em Mossoró, todo curso de culinária que aparecia eu fazia, então voltada para o ensino eu sempre fui.


Azougue: Na política a senhora ficou conhecida como senadora, como surgiu esse apelido e qual sua relação com a política?

Edith Souto: Em Mossoró nós sabemos que todos vivem política vinte e quatro horas. Eu sou com muito orgulho e honradamente da família Fernandes. A família Fernandes acompanhava dr. Duarte Filho, então eu era garota de Ala-moça. A partir de 1960 me envolvi mais na campanha de Aluízio Alves para governador, então nós como liderados por dr. Duarte participamos intensivamente da campanha de Aluízio para governo e da campanha de monsenhor Walfredo Gurgel. Senadoras era um grupo de senhoras que se reunia na casa de Ozelita Cascudo Rodrigues, na avenida Alberto Maranhão próxima à casa de dr. Duarte e esperava por Aluízio até as madrugadas. Quando Aluízio voltava dos comícios, depois de passar pela casa de dr. Duarte, ele ia para a nossa roda, era uma roda imensa da sociedade de Mossoró e de alguns homens. O próprio adversário foi quem estimulou o termo
Senadora, pois começaram a dizer que esse grupo era o Senado, e quando Aluízio tomou conhecimento, era muito inteligente e competente, tomava proveito de tudo que diziam dele, aproveitou e nomeou que ia se encontrar com as Senadoras. Então esse apelido tornou-se uma evidência, nós passamos a ser conhecidas como o grupo
das Senadoras, era um grupo aliado a Aluízio Alves trabalhando para ele em todas as campanhas. Veio a campanha de monsenhor Walfredo, nós trabalhamos na campanha de Antônio Rodrigues para prefeito de Mossoró, houve um rompimento com dr. Duarte, então as Senadoras passaram a ter maior participação, levaram a campanha e foram vencedoras, foi a primeira vitória conseguida em Mossoró contra os Rosado a campanha de Antônio Rodrigues de Carvalho, em 1968. Em 1969, por injustiça dos governos federais, Aluízio Alves foi cassado,
mas nós não esmorecemos, tomamos parte ativa, assumimos o filho dele na campanha de 1970 e Henrique Eduardo Alves chegou a ter em Mossoró, apoiado pelas Senadoras, voto quase igual a maior liderança de Mossoró, que na época era Vingt Rosado, a diferença foi menos de mil votos, e isso era Aluízio cassado, o povo com medo, mas não esmorecemos. Veio a campanha para prefeito de Mossoró e nós lançamos candidatos, houve muitas seqüelas, muitas brigas, perdemos, mas não desanimávamos. Veio a campanha de Agenor Maria para senador, ganhamos novamente. Três grandes vitórias de Mossoró: Foi a de monsenhor Walfredo Gurgel para governador, a de Antônio Rodrigues de Carvalho para prefeito e a de Agenor Maria para senador. Continuamos em frente, vieram os governos biônicos, estes governos criaram uma paz pública do Estado, se uniram, Aluízio já estava saindo da cassação, nós fizemos uma junção para eleger Jessé Freire senador novamente. Então as Senadoras participaram ativamente de todas as campanhas de Aluízio Alves. Infelizmente essa paz pública não trouxe benefícios, só trouxe desencanto, só trouxe desencontro. Em 1982 na campanha para governador, estávamos muito ligados à família Maia, então houve incisão, eu fui uma das que saíram e me arrependo muito, não me envergonho, pois o filho pródigo também foi assim, saiu da casa do pai e voltou, passado alguns anos eu voltei para o convívio da família Alves e aquele passado com a família Alves eu enterrei, é como se nunca tivesse existido para mim. Depois veio Garibaldi e com os Alves até a campanha de Wilma. Na campanha de Wilma de 2002, Aluízio se aliou aos Rosado e por algumas situações locais de Mossoró eu me opus e apoiei orgulhosamente Wilma de Faria. Nesse ano pretendo continuar Wilma de Faria e para senador Geraldo Melo em
oposição a “Dona de Mossoró”.

Azougue: Como surgiu a idéia de escrever um livro?

Edith Souto: Na verdade não surgiu idéia de fazer o livro. Eu gosto muito de fazer as coisas certas e direitas. Quando eu estava cursando a universidade, Especialização em Gestão, o meu professor do instituto Ibrapa quis que eu fizesse um trabalho sobre o sal, já que meu marido tinha sido o presidente do sindicato dos institutos de extração do sal a vida inteira. Então eu aceitei a idéia e comecei a pesquisar muito, sou muito perfeccionista, gosto muito de coisas organizadas e então eu preparei meu trabalho de curso. Quando fui entregar o trabalho ao professor ele sugeriu que eu o entregasse a dr. Vingt-un, eu levei para Dorian, que também sugeriu que eu entregasse a dr. Vingt-un. Eu entreguei a dr. Vingt-un, e todos sabem que dr. Vingt-un foi o homem que mais estimulou a publicação de livros aqui em Mossoró, então ele transformou em um livro.

Azougue: A senhora é vaidosa?

Edith Souto: Eu até digo que não sou tão vaidosa, porque eu sou mais esportista, eu gosto muito de andar à vontade, gosto de roupa esporte, gosto de tênis, mas como toda mulher gosto de ficar bem arrumada e bem preparada nas ocasiões necessárias, mas no meu dia-a-dia eu sou mais esportista do que vaidosa.

Azougue: Edith Souto por Edith Souto?

Edith Souto: Sou uma mulher muito franca, muito leal, muito cumpridora da minha palavra e me orgulho de ser assim, apesar de saber que muita coisa eu passei na minha vida por causa da minha sinceridade, pois o mundo gosta das pessoas falsas. Mas eu me defino como uma pessoa leal, honesta, decente e verdadeira. E sou mais Edite Fernandes antes de tudo.

Azougue: Como foi sua vida acadêmica?

Edith Souto: Uma das coisas melhores da minha vida foi o meu mundo acadêmico! Apesar de ter idade diferente dos colegas, pois eu fiz faculdade com mais de 60, mas a convivência foi maravilhosa, amei todos os meus colegas, admirei todos os meus professores, a minha vida acadêmica foi muito proveitosa, adquiri muitos conhecimentos e sugiro aos jovens que ampliem seus conhecimentos, procurem estudar, procurem realmente aprender sem fingir, pois assim vocês terão um futuro no amanhã!

Azougue: Uma mensagem para os leitores do azougue.com

Edith Souto: Eu sempre viajei muito, já fui ao Rio, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, países da América do Sul, Estados Unidos, mas eu nunca havia ido à Europa. Quando eu cheguei à Europa, especialmente em Paris, eu gritei na fila: Eu sou francesa de coração! Eu adorei a vitória da França contra o Brasil e isso é raro! Identifiquei-me muito com o lugar e passei a me perguntar: Por que eu gostava de francês? Por que eu gostava de comida requintada? Então eu percebi que tenho alma de francesa! Portanto a mensagem que eu deixo é essa: A esperança não é um sonho é a forma de transformar os sonhos em realidade. Por isso, jovens, sonhem, tenham esperança e acreditem em seu futuro!

 

FOTOS: ESAÚ CASTRO

ALINE@AZOUGUE.COM

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