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ALDIVA
MONTE
“
Me vejo mossoroense da gema, da clara, da casca”. “Quando
eu olhei para ele, me deu uma tremendeira”. “A
partida para o andar lá de cima de Kátia”. “Nem
a própria Maria Veríssimo é capaz de imaginar
o tamanho do bem que lhe queremos”. “Eu amo ter
sido ao longo da minha vida e de continuar sendo uma mulher
muito verdadeira”. “Se por conta dessa entrevista
alguém vier me chamar de BAIXINHA E GORDINHA, eu vou
lhe processar”.
Azougue – Nascida em Pau dos Ferros, mas mossoroense
com tudo que tem direito?
Aldiva Monte – Eu nasci em Pau dos Ferros, no dia 21
de novembro de 1926, e aos 7 anos de idade, aportei na minha
amada Mossoró, por conta de o meu pai, Hipólito
Cassiano ter passado a conviver com problemas cardíacos
e o meu irmão, Ezequiel, que já morava na conhecida “terrinha”,
mandou busca-lo. Chegamos e passamos a residir a rua Francisco
Ramalho. O detalhe é que de médicos, Mossoró contava
apenas com João Marcelino, Lavô, Júlio
César, Antonio Mota, Maltez e Dr. Duarte. Valorizo
a terra em que nasci, mas me vejo mossoroense da gema, da
clara,
da casca e que tudo que tenho direito. Azougue – A primeira mulher a trabalhar no comércio.
Uma marca de muito orgulho e até certo ponto invejável.
Não?
Aldiva
Monte – E isso só aconteceu por conta
da 2ª guerra mundial. Existia uma firma de exportação
de algodão, cera de carnaúba, de nome Alfredo
Fernandes & Cia, localizada a av.. Alberto Maranhão,
1582, cujo comando pertencia a uma grande família, sendo
muitos deles convocados para servir a pátria. Aí,
chamaram as mocinhas, também da família para
servir a empresa. Muitas foram convocadas e somente eu fui
aprovada, com a História tendo sido registrada em 1943
e por lá fiquei 10 anos. Eu quero frisar que ao lado
de Elza Aires, nos tornamos as primeiras senhoritas a ocupar
espaços tradicionalmente reservados aos homens.
Azougue – E as diversões da época,
como se davam?
Aldiva
Monte – Êta tempo bom danado! (risos).
Olha, Caby, toda quinta-feira tinha retreta e a gente passeava
no jardim da Catedral de Santa Luzia, tinha a amplificadora
municipal e o locutor de uma voz muito bonita, se chamava (o
branco mental apareceu e com ele o socorro de Dr. João
Monte). O nome do locutor era Chico Hallyborte, um cabra do
Ceará. Veja só, eu tinha 11 anos de idade e rodando
na praça, esse BICHINHO aí, (apontou para o esposo,
João Monte), recentemente formado havia chegado a nossa
terra. Olha filho, ele era um PÃO. Quando eu olhei para
ele, me deu uma tremendeira, o coração acelerou,
e eu, fiquei tipo uma barata tonta, rodava, rodava na praça
e só tinha olhos para ele. Veja só como eu era
meio enxerida (uma risada troou fácil). Os carnavais
da ACDP, os blocos Impossíveis e As bem Amadas. Vou
repetir: Êta tempo bom danado.
Azougue – Foi fácil conquistar aquele que há pouco
a senhora chamou de “PÃO?
Aldiva
Monte – O que? Fácil nada. Foi muito chão
(risos). Primeiro ele tinha se casado e aí, como vocês
dizem, falei “tô fora”. Eu ganhava muito
bem e viajava muito. O PÃO, vivia a vida dele eu a minha.
Na verdade não me passava pela cabeça namora-lo
um dia. Olha a vida não é um livro? Cada dia é vista
uma página? Vestida de azul marinho, um sapato muito
alinhado, lá vinha eu da missa e ele ia entrando em
sua casa. No encontro um natural cumprimento e dando umas seis
passadas, olhei para trás e o PÃO também
estava me olhando. Aí meu filho, eu senti uma coisa
diferente e como ele já estava descasado, eu posso dizer
que da minha parte nasceu o amor “a segunda vista”,
já que o primeiro tinha ocorrido quando eu tinha 11
anos. Frise aí, seu danado, que ele já estava
separado e aí, aí (risos), rolou a paquera. Eu
procurei a minha mãe e disse-lhe que a gente estava
namorando, aquele namoro de bilhetinhos. O PÃO entrou
mais uma vez em ação: “quem levava os bilhetinhos
era o meu, quase funcionário, de nome João Balbino”.
Bom, eu vim passar um final de semana em Fortaleza e de repente
bateram palmas na porta da casa da minha irmã, eu mesma
a abri e era João Monte.Virgem Maria, quase tive uma “bilola,
um xilique”. Ele disse que precisava falar comigo, fomos
ao cinema, depois à Sorveteria Nice, e aí o namoro
começou pra valer.
Azougue – Aí veio
o casamento?
Aldiva
Monte – Com parte da minha família se
posicionando de maneira contrária, pelo fato de João
Monte, ter sido casado. Resolvemos então numa sexta-feira
santa, eu estava aqui em Fortaleza, exatamente, a rua Ana Bilhar,
viajar para Recife, num vôo da Cruzeiro do Sul. Obs.)
Mais uma vez entrou em ação o Dr. João
Monte “ Ficamos num hotel de nome Lobão, na praça
Boa Vista e olha só o resultado. Alisei de não
prestar e liguei para Henrique Lima, gerente do Banco de Mossoró,
que me transferi-se determinada importância. Olha meu
filho, fiquei liso, leso e louco. Você já pensou
o que é numa lua de mel, faltar dinheiro (risos)? Como
eu, graças e Deus sempre tive muito crédito,
deu tudo certo”. Voltamos dia 11 de abril a Mossoró,
contando com cobertura dos grandes amigos, tipo Joaquim Borges/Sinharinha,
pais do nosso grande Borjão, Bibiu Gurgel/Zuleide, Pedro
Borges, Camilo Paula/Neide, Chico Cabral/Ninita, enfim uma
gama de amigos. Tudo perfeito e passamos a residir na rua Idalino
de Oliveira, 74. Vou fazer uma confidencia ao azougue. Com;
Casei-me sem saber fazer um café, a sorte é que
era tarde para João Monte desistir (risos).
Azougue – Além de mãe de Kerenki, Kátia
e Hipólito, professora particular. Correto?
Aldiva
Monte – Criei os Kerenki e Kátia, frutos
do primeiro casamento de João e o nosso Hipólito.
Só que para mim era muito pouco. Eu queria mais atividade
e resolvi ensinar particular, ocupando o espaço físico
da nossa garagem. Comecei devagarinho e quando olhei para o
tempo, tinha um bocado de bons alunos. Ensinei aos filhos de
Rosado Cantídio, de Jeremias Escóssia, Sanderson
filho de Chico Duarte, Andréia, filha de Tasso/Elizenir,
filhos de Rômulo Negreiros, Alexander e Gustavo Rosado
e outros tantos, e divinos alunos, numa convivência que
perdurou até o ano 1976.
Azougue – Quando e por que a mudança
para Fortaleza?
Aldiva
Monte - Kerenski e Kátia de há um bom
tempo, e o próprio Hipólito já moravam
na capital cearense. Hipólito passou a estudar aqui
quando tinha apenas 11 anos de idade. No ano 1977, João
Monte submeteu-se a alguns exames cardiológicos e com
o médico, (mais uma vez foi reacendida a memória
do esposo da entrevistada que:), “foi recomendação
de Dr. José Holanda, que me recomendou transferir-me
para essa cidade. Daí nós passamos a contar com
o acompanhamento profissional do Dr. João Davi e graças
a Deus, estamos por aqui até hoje”.
Azougue – Qual o momento mais difícil?
Aldiva
Monte – A partida para o andar lá de cima
de Kátia. Do diagnóstico até o seu falecimento
foi o período mais doloroso de nossas vidas. Ela faleceu
em 1996.
Azougue – Qual então
o mais bonito?
Aldiva
Monte – Aí foram muitos e seria muito
egoísmo falar só num. Nossas bodas de ouro, quando
Kerenski recebeu a espada da Academia Militar de Agulhas Negras,
a formatura de Hipólito, não dá, não
dá mesmo para falar só em um. Fora os citados,
existem outros bonitos e excelentes momentos.
Azougue – Quase final do papo e há muita gente
querendo saber mais da senhora. Não faço nenhuma
pergunta, apenas fale...
Aldiva
Monte – Até as pedrinhas do meio da rua
de Mossoró me dão mais vida. Tem pessoas que
nos entram e jamais saem. É tão gostoso falar
sobre elas. Aquela cidadã (aponta para D. Albaniza)
está comigo há 54 anos. Ela é irmã,
amiga, mãe, briguenta, às vezes chata. Tem uma
criatura que era a nossa lavadeira. A família Auta era
famosa por lavar roupas muito bem. Hoje ela tem mais de 80
anos e mora pertinho da base da Petrobrás, no bairro
Bom Jesus. Chama-se Maria Veríssimo e é a única
pessoa do mundo que chama o meu filho Hipólito, de Popozinho.
Eu quando tinha que ir a alguma festa, evento, só ficava
realmente sossegada se ela ficasse tomando de conta de Hipólito.
Quando vou à terra de Santa Luzia, é a sua casa,
a primeira que visito. Nem a própria Maria Veríssimo é capaz
de imaginar o tamanho do bem que lhe queremos.
Azougue – O
que de mais belo tem Aldiva Monte?
Aldiva
Monte – Sinceramente, eu me quero muito bem.
Eu gosto do meu jeito de ser. Eu sei que sou uma boa amiga.
Veja, pra, ser bem exata, eu amo ter sido ao longo da minha
vida e de continuar sendo uma mulher muito verdadeira.
Azougue – O que existe em Aldiva Monte que ela não
gosta?
Aldiva
Monte – Eu sabia que no finalzinho desta conversa
você ia me fustigar de alguma forma. Eu bem que sabia.
Tava tão bom, né? E é bom que o povo saiba
que eu e João Monte compramos com exclusividade para
você, aquele famoso tubo de morango. Não dá para
fazer outro tipo de pergunta, não?
Azougue – O tubo de morango não dá para
pedir de volta, já o degustei. Dá para responder
a minha pergunta?
Aldiva
Monte – Ser BAIXINHA
E GORDINHA e digo mais,
se por conta dessa entrevista alguém vier me chamar
de BAIXINHA E GORDINHA, eu vou lhe processar. (Grandes e autênticas
gargalhadas principalmente do esposo João Monte, encerraram
a entrevista).
aldiva@monteklicum.com.br.
caby@azougue.com
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