Mossoró-RN, de 2005
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ALDIVA MONTE


“ Me vejo mossoroense da gema, da clara, da casca”. “Quando eu olhei para ele, me deu uma tremendeira”. “A partida para o andar lá de cima de Kátia”. “Nem a própria Maria Veríssimo é capaz de imaginar o tamanho do bem que lhe queremos”. “Eu amo ter sido ao longo da minha vida e de continuar sendo uma mulher muito verdadeira”. “Se por conta dessa entrevista alguém vier me chamar de BAIXINHA E GORDINHA, eu vou lhe processar”.


Azougue – Nascida em Pau dos Ferros, mas mossoroense com tudo que tem direito?

Aldiva Monte – Eu nasci em Pau dos Ferros, no dia 21 de novembro de 1926, e aos 7 anos de idade, aportei na minha amada Mossoró, por conta de o meu pai, Hipólito Cassiano ter passado a conviver com problemas cardíacos e o meu irmão, Ezequiel, que já morava na conhecida “terrinha”, mandou busca-lo. Chegamos e passamos a residir a rua Francisco Ramalho. O detalhe é que de médicos, Mossoró contava apenas com João Marcelino, Lavô, Júlio César, Antonio Mota, Maltez e Dr. Duarte. Valorizo a terra em que nasci, mas me vejo mossoroense da gema, da clara, da casca e que tudo que tenho direito.

Azougue – A primeira mulher a trabalhar no comércio. Uma marca de muito orgulho e até certo ponto invejável. Não?

Aldiva Monte – E isso só aconteceu por conta da 2ª guerra mundial. Existia uma firma de exportação de algodão, cera de carnaúba, de nome Alfredo Fernandes & Cia, localizada a av.. Alberto Maranhão, 1582, cujo comando pertencia a uma grande família, sendo muitos deles convocados para servir a pátria. Aí, chamaram as mocinhas, também da família para servir a empresa. Muitas foram convocadas e somente eu fui aprovada, com a História tendo sido registrada em 1943 e por lá fiquei 10 anos. Eu quero frisar que ao lado de Elza Aires, nos tornamos as primeiras senhoritas a ocupar espaços tradicionalmente reservados aos homens.

Azougue – E as diversões da época, como se davam?

Aldiva Monte – Êta tempo bom danado! (risos). Olha, Caby, toda quinta-feira tinha retreta e a gente passeava no jardim da Catedral de Santa Luzia, tinha a amplificadora municipal e o locutor de uma voz muito bonita, se chamava (o branco mental apareceu e com ele o socorro de Dr. João Monte). O nome do locutor era Chico Hallyborte, um cabra do Ceará. Veja só, eu tinha 11 anos de idade e rodando na praça, esse BICHINHO aí, (apontou para o esposo, João Monte), recentemente formado havia chegado a nossa terra. Olha filho, ele era um PÃO. Quando eu olhei para ele, me deu uma tremendeira, o coração acelerou, e eu, fiquei tipo uma barata tonta, rodava, rodava na praça e só tinha olhos para ele. Veja só como eu era meio enxerida (uma risada troou fácil). Os carnavais da ACDP, os blocos Impossíveis e As bem Amadas. Vou repetir: Êta tempo bom danado.

Azougue – Foi fácil conquistar aquele que há pouco a senhora chamou de “PÃO?

Aldiva Monte – O que? Fácil nada. Foi muito chão (risos). Primeiro ele tinha se casado e aí, como vocês dizem, falei “tô fora”. Eu ganhava muito bem e viajava muito. O PÃO, vivia a vida dele eu a minha. Na verdade não me passava pela cabeça namora-lo um dia. Olha a vida não é um livro? Cada dia é vista uma página? Vestida de azul marinho, um sapato muito alinhado, lá vinha eu da missa e ele ia entrando em sua casa. No encontro um natural cumprimento e dando umas seis passadas, olhei para trás e o PÃO também estava me olhando. Aí meu filho, eu senti uma coisa diferente e como ele já estava descasado, eu posso dizer que da minha parte nasceu o amor “a segunda vista”, já que o primeiro tinha ocorrido quando eu tinha 11 anos. Frise aí, seu danado, que ele já estava separado e aí, aí (risos), rolou a paquera. Eu procurei a minha mãe e disse-lhe que a gente estava namorando, aquele namoro de bilhetinhos. O PÃO entrou mais uma vez em ação: “quem levava os bilhetinhos era o meu, quase funcionário, de nome João Balbino”. Bom, eu vim passar um final de semana em Fortaleza e de repente bateram palmas na porta da casa da minha irmã, eu mesma a abri e era João Monte.Virgem Maria, quase tive uma “bilola, um xilique”. Ele disse que precisava falar comigo, fomos ao cinema, depois à Sorveteria Nice, e aí o namoro começou pra valer.

Azougue – Aí veio o casamento?

Aldiva Monte – Com parte da minha família se posicionando de maneira contrária, pelo fato de João Monte, ter sido casado. Resolvemos então numa sexta-feira santa, eu estava aqui em Fortaleza, exatamente, a rua Ana Bilhar, viajar para Recife, num vôo da Cruzeiro do Sul. Obs.) Mais uma vez entrou em ação o Dr. João Monte “ Ficamos num hotel de nome Lobão, na praça Boa Vista e olha só o resultado. Alisei de não prestar e liguei para Henrique Lima, gerente do Banco de Mossoró, que me transferi-se determinada importância. Olha meu filho, fiquei liso, leso e louco. Você já pensou o que é numa lua de mel, faltar dinheiro (risos)? Como eu, graças e Deus sempre tive muito crédito, deu tudo certo”. Voltamos dia 11 de abril a Mossoró, contando com cobertura dos grandes amigos, tipo Joaquim Borges/Sinharinha, pais do nosso grande Borjão, Bibiu Gurgel/Zuleide, Pedro Borges, Camilo Paula/Neide, Chico Cabral/Ninita, enfim uma gama de amigos. Tudo perfeito e passamos a residir na rua Idalino de Oliveira, 74. Vou fazer uma confidencia ao azougue. Com; Casei-me sem saber fazer um café, a sorte é que era tarde para João Monte desistir (risos).

Azougue – Além de mãe de Kerenki, Kátia e Hipólito, professora particular. Correto?

Aldiva Monte – Criei os Kerenki e Kátia, frutos do primeiro casamento de João e o nosso Hipólito. Só que para mim era muito pouco. Eu queria mais atividade e resolvi ensinar particular, ocupando o espaço físico da nossa garagem. Comecei devagarinho e quando olhei para o tempo, tinha um bocado de bons alunos. Ensinei aos filhos de Rosado Cantídio, de Jeremias Escóssia, Sanderson filho de Chico Duarte, Andréia, filha de Tasso/Elizenir, filhos de Rômulo Negreiros, Alexander e Gustavo Rosado e outros tantos, e divinos alunos, numa convivência que perdurou até o ano 1976.

Azougue – Quando e por que a mudança para Fortaleza?

Aldiva Monte - Kerenski e Kátia de há um bom tempo, e o próprio Hipólito já moravam na capital cearense. Hipólito passou a estudar aqui quando tinha apenas 11 anos de idade. No ano 1977, João Monte submeteu-se a alguns exames cardiológicos e com o médico, (mais uma vez foi reacendida a memória do esposo da entrevistada que:), “foi recomendação de Dr. José Holanda, que me recomendou transferir-me para essa cidade. Daí nós passamos a contar com o acompanhamento profissional do Dr. João Davi e graças a Deus, estamos por aqui até hoje”.

Azougue – Qual o momento mais difícil?

Aldiva Monte – A partida para o andar lá de cima de Kátia. Do diagnóstico até o seu falecimento foi o período mais doloroso de nossas vidas. Ela faleceu em 1996.

Azougue – Qual então o mais bonito?

Aldiva Monte – Aí foram muitos e seria muito egoísmo falar só num. Nossas bodas de ouro, quando Kerenski recebeu a espada da Academia Militar de Agulhas Negras, a formatura de Hipólito, não dá, não dá mesmo para falar só em um. Fora os citados, existem outros bonitos e excelentes momentos.

Azougue – Quase final do papo e há muita gente querendo saber mais da senhora. Não faço nenhuma pergunta, apenas fale...

Aldiva Monte – Até as pedrinhas do meio da rua de Mossoró me dão mais vida. Tem pessoas que nos entram e jamais saem. É tão gostoso falar sobre elas. Aquela cidadã (aponta para D. Albaniza) está comigo há 54 anos. Ela é irmã, amiga, mãe, briguenta, às vezes chata. Tem uma criatura que era a nossa lavadeira. A família Auta era famosa por lavar roupas muito bem. Hoje ela tem mais de 80 anos e mora pertinho da base da Petrobrás, no bairro Bom Jesus. Chama-se Maria Veríssimo e é a única pessoa do mundo que chama o meu filho Hipólito, de Popozinho. Eu quando tinha que ir a alguma festa, evento, só ficava realmente sossegada se ela ficasse tomando de conta de Hipólito. Quando vou à terra de Santa Luzia, é a sua casa, a primeira que visito. Nem a própria Maria Veríssimo é capaz de imaginar o tamanho do bem que lhe queremos.

Azougue – O que de mais belo tem Aldiva Monte?

Aldiva Monte – Sinceramente, eu me quero muito bem. Eu gosto do meu jeito de ser. Eu sei que sou uma boa amiga. Veja, pra, ser bem exata, eu amo ter sido ao longo da minha vida e de continuar sendo uma mulher muito verdadeira.

Azougue – O que existe em Aldiva Monte que ela não gosta?

Aldiva Monte – Eu sabia que no finalzinho desta conversa você ia me fustigar de alguma forma. Eu bem que sabia. Tava tão bom, né? E é bom que o povo saiba que eu e João Monte compramos com exclusividade para você, aquele famoso tubo de morango. Não dá para fazer outro tipo de pergunta, não?

Azougue – O tubo de morango não dá para pedir de volta, já o degustei. Dá para responder a minha pergunta?

Aldiva Monte – Ser BAIXINHA E GORDINHA e digo mais, se por conta dessa entrevista alguém vier me chamar de BAIXINHA E GORDINHA, eu vou lhe processar. (Grandes e autênticas gargalhadas principalmente do esposo João Monte, encerraram a entrevista).


aldiva@monteklicum.com.br.

caby@azougue.com


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