Mossoró-RN, de 2009
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MUNDINHA ALMEIDA

 

Azougue – Caraubense, criada em Janduís e Mossoró. Por que o trajeto?

Mundinha Almeida – Necessidade absoluta de sobrevivência. Para a cidade de Janduís segui com apenas um mês de vida e aos seis anos de idade a minha mãe nos trouxe para Mossoró. A partir daí iniciei a condição de auxiliar de serviços gerais da minha genitora, principalmente na arte de costurar e mesmo quando consegui o meu primeiro emprego, como escriturária da Gomes & Medeiros Ltda., uma fábrica de cera. Olha, enquanto vida teve a D. Alice Adélia de Almeida, eu não abria mão do espaço de ser a sua auxiliar em todas as suas atividades. A gente se desdobrava quando se aproximavam as festas de Santa Luzia, uma grande clientela fazia pedidos de vestidos e saias com aqueles abanhados grandes. Era uma festa e sem dúvidas um tempo de excelentes recordações.

Azougue – Mundinha “Diocesano” Almeida. Como é isso?

Mundinha Almeida – Fácil de explicar. Eu estou há “apenas” 49 anos no Colégio Diocesano. Iniciei como secretária, depois professora e em seguida coordenadora. Ensinei História, OSPB, Moral e Cívica e Religião. Tudo dependia muito da necessidade do momento.

Azougue – Cite um fato por demais gratificante nesses “apenas” 49 anos de dedicação ao Colégio Diocesano?

Mundinha Almeida – Ainda bem que você me pediu apenas um fato, senão a sua entrevista somente acabaria no próximo ano (risos). Em 1998, em me encontrava em Paris, quando de repente ouvi um grito bem alto, TIA MUNDINHA. Olhei e era um ex-aluno que havia passado boa parte da sua vida no CDSL. Poxa, eu fiquei numa felicidade verdadeiramente sem tamanho.

Azougue – Um aluno verdadeiramente traquino?

Mundinha Almeida – Você está sendo muito bonzinho comigo. Só pede um exemplo. Que bom. Caby, eu quero o maior bem a esse cabra, agora que ele era um capetinha, isso era. Nós fomos obrigados a lhe passar um atestado de transferência, vez que o que ele aprontava não era mole. Depois, ele retornou ao nosso convívio. Toda Mossoró o conhece. Jeremias Escóssia Júnior, hoje diretor da Livraria Futura. Eta cabra bom de peia (risos).

Azougue – O momento que você não gostaria que tivesse existido?

Mundinha Almeida – Eu me recordo de uma situação bem amarga. Um ex-aluno, de nome Severino Rodrigues, morreu afogado. Quando da primeira aula após o seu falecimento, eu estava lá como professora. Os seus colegas, todos sentados, calados, alguns com lágrimas nos olhos e a sua cadeira vazia. Severino era amigo de todos e confesso que essa foi uma situação que a minha mente não conseguiu apagar.

Azougue – O aluno de ontem era mais esforçado que o de hoje?

Mundinha Almeida – O de ontem era mais estudioso, esforçado não. As facilidades para pesquisa atualmente são infinitamente superiores. O aluno de décadas passadas tinha que ralar muito para buscar o que determinava o seu professor.

Azougue – Aposentada e continua indo à luta. Pensa em parar?

Mundinha Almeida – Nem pensar em parar. Eu já tenho até um retrato bem pregadinho numa dessas salas. Eu já fiz um acordo com a minha alma e quando eu morrer a matéria se vai, mas vou permanecer girando por aqui, dando puxavante nas orelhas do erro e, claro, aplaudindo o que for de correto. (risos).

Azougue – Como foi que nasceu a idéia de produzir a bandeira de Mossoró?

Mundinha Almeida – A bandeira de Mossoró tem as cores azul e branca, iguais a do Colégio Diocesano Santa Luzia. No dia 30 de setembro de 1967, pela 1ª vez essa bandeira participou de um desfile cívico. Ficou determinado que o nosso tema contaria com as bandeiras de Portugal, do Brasil, do RN e da nossa cidade, só que ela não existia. Tive a iniciativa de fazer a devida produção, e no desfile ela foi conduzida por um aluno que cursava a 4ª série, Francisco Cipriano de Paula Neto. Após tê-la criado, houve a aprovação do então reitor João Batista Cascudo Rodrigues, cuja primeira apresentação se deu com a vinda a Mossoró do presidente Artur da Costa e Silva. O decreto de nº 1376/95 a tornou oficial, na administração do prefeito Dix-huit Rosado, isso já no ano 1993.

Azougue – Por que você tornou-se também escritora?

Mundinha Almeida – Eu era professora de História do CDSL e de Didática da Universidade e minha amiga Nevinha Gurgel lecionava Geografia. Percebemos que existia a necessidade de um livro que enfocasse o tema de estudos sociais, e a partir daí começamos a trabalhar o universo da nossa terrinha e também do Estado. Para falar a verdade, não houve um retorno financeiro, agora a satisfação de sabermos que professores, alunos, das mais diferentes regiões, leram o nosso trabalho. Esse tipo de retorno supera qualquer obstáculo que por ventura tenhamos encontrado.

Azougue – Mundinha chora com facilidade?

Mundinha Almeida – De raiva sim, e principalmente se o momento não me permitir botar o meu sentimento para fora. Em outras situações eu também choro, porém já fui mais chorona.

Azougue – E por que se autodenominar Pau-de-Lata?

Mundinha Almeida – Quando você me convidou para esta entrevista, eu fiquei me imaginando a que horas seria levantada à situação de pau-de-lata (risos). Eu sou meio PAU-DE-LATA mesmo. Eu não imponho obstáculo para nada. Eu me vejo em qualquer situação buscando sempre solução para qualquer que seja o problema. Amigo, Caby, para mim tanto faz estar resolvendo um problema, frise-se, sempre de maneira digna, em qualquer ambiente. Diga-me uma coisa, PAU-DE-LATA não é a mesma coisa que madeira de dar em doido. Pois é, eu estou sempre em pé, não me curvo a nenhuma situação, então vamos lá novamente, eu sou exatamente assim.

Azougue – O nosso agradecimento?

Mundinha Almeida – Veja lá o que você vai colocar aí na entrevista. Cuidado (risos), caso contrário nunca mais lhe emprestarei fotografias do colégio para os seus livros Do Bumba, que são também extraordinariamente fantásticos.

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