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MUNDINHA
ALMEIDA
Azougue
– Caraubense, criada em Janduís e Mossoró.
Por que o trajeto?
Mundinha
Almeida – Necessidade absoluta de sobrevivência.
Para a cidade de Janduís segui com apenas um mês
de vida e aos seis anos de idade a minha mãe nos trouxe
para Mossoró. A partir daí iniciei a condição
de auxiliar de serviços gerais da minha genitora, principalmente
na arte de costurar e mesmo quando consegui o meu primeiro emprego,
como escriturária da Gomes & Medeiros Ltda., uma
fábrica de cera. Olha, enquanto vida teve a D. Alice
Adélia de Almeida, eu não abria mão do
espaço de ser a sua auxiliar em todas as suas atividades.
A gente se desdobrava quando se aproximavam as festas de Santa
Luzia, uma grande clientela fazia pedidos de vestidos e saias
com aqueles abanhados grandes. Era uma festa e sem dúvidas
um tempo de excelentes recordações.
Azougue
– Mundinha “Diocesano” Almeida. Como é
isso?
Mundinha
Almeida – Fácil de explicar. Eu estou
há “apenas” 49 anos no Colégio Diocesano.
Iniciei como secretária, depois professora e em seguida
coordenadora. Ensinei História, OSPB, Moral e Cívica
e Religião. Tudo dependia muito da necessidade do momento.
Azougue
– Cite um fato por demais gratificante nesses “apenas”
49 anos de dedicação ao Colégio Diocesano?
Mundinha
Almeida – Ainda bem que você me pediu apenas
um fato, senão a sua entrevista somente acabaria no próximo
ano (risos). Em 1998, em me encontrava em Paris, quando de repente
ouvi um grito bem alto, TIA MUNDINHA. Olhei e era um ex-aluno
que havia passado boa parte da sua vida no CDSL. Poxa, eu fiquei
numa felicidade verdadeiramente sem tamanho.
Azougue
– Um aluno verdadeiramente traquino?
Mundinha
Almeida – Você está sendo muito
bonzinho comigo. Só pede um exemplo. Que bom. Caby, eu
quero o maior bem a esse cabra, agora que ele era um capetinha,
isso era. Nós fomos obrigados a lhe passar um atestado
de transferência, vez que o que ele aprontava não
era mole. Depois, ele retornou ao nosso convívio. Toda
Mossoró o conhece. Jeremias Escóssia Júnior,
hoje diretor da Livraria Futura. Eta cabra bom de peia (risos).
Azougue
– O momento que você não gostaria que tivesse
existido?
Mundinha
Almeida – Eu me recordo de uma situação
bem amarga. Um ex-aluno, de nome Severino Rodrigues, morreu
afogado. Quando da primeira aula após o seu falecimento,
eu estava lá como professora. Os seus colegas, todos
sentados, calados, alguns com lágrimas nos olhos e a
sua cadeira vazia. Severino era amigo de todos e confesso que
essa foi uma situação que a minha mente não
conseguiu apagar.
Azougue
– O aluno de ontem era mais esforçado que o de
hoje?
Mundinha
Almeida – O de ontem era mais estudioso, esforçado
não. As facilidades para pesquisa atualmente são
infinitamente superiores. O aluno de décadas passadas
tinha que ralar muito para buscar o que determinava o seu professor.
Azougue
– Aposentada e continua indo à luta. Pensa em parar?
Mundinha
Almeida – Nem pensar em parar. Eu já tenho
até um retrato bem pregadinho numa dessas salas. Eu já
fiz um acordo com a minha alma e quando eu morrer a matéria
se vai, mas vou permanecer girando por aqui, dando puxavante
nas orelhas do erro e, claro, aplaudindo o que for de correto.
(risos).
Azougue
– Como foi que nasceu a idéia de produzir a bandeira
de Mossoró?
Mundinha
Almeida – A bandeira de Mossoró tem as
cores azul e branca, iguais a do Colégio Diocesano Santa
Luzia. No dia 30 de setembro de 1967, pela 1ª vez essa
bandeira participou de um desfile cívico. Ficou determinado
que o nosso tema contaria com as bandeiras de Portugal, do Brasil,
do RN e da nossa cidade, só que ela não existia.
Tive a iniciativa de fazer a devida produção,
e no desfile ela foi conduzida por um aluno que cursava a 4ª
série, Francisco Cipriano de Paula Neto. Após
tê-la criado, houve a aprovação do então
reitor João Batista Cascudo Rodrigues, cuja primeira
apresentação se deu com a vinda a Mossoró
do presidente Artur da Costa e Silva. O decreto de nº 1376/95
a tornou oficial, na administração do prefeito
Dix-huit Rosado, isso já no ano 1993.
Azougue
– Por que você tornou-se também escritora?
Mundinha
Almeida – Eu era professora de História
do CDSL e de Didática da Universidade e minha amiga Nevinha
Gurgel lecionava Geografia. Percebemos que existia a necessidade
de um livro que enfocasse o tema de estudos sociais, e a partir
daí começamos a trabalhar o universo da nossa
terrinha e também do Estado. Para falar a verdade, não
houve um retorno financeiro, agora a satisfação
de sabermos que professores, alunos, das mais diferentes regiões,
leram o nosso trabalho. Esse tipo de retorno supera qualquer
obstáculo que por ventura tenhamos encontrado.
Azougue
– Mundinha chora com facilidade?
Mundinha
Almeida – De raiva sim, e principalmente se o
momento não me permitir botar o meu sentimento para fora.
Em outras situações eu também choro, porém
já fui mais chorona.
Azougue
– E por que se autodenominar Pau-de-Lata?
Mundinha
Almeida – Quando você me convidou para
esta entrevista, eu fiquei me imaginando a que horas seria levantada
à situação de pau-de-lata (risos). Eu sou
meio PAU-DE-LATA mesmo. Eu não imponho obstáculo
para nada. Eu me vejo em qualquer situação buscando
sempre solução para qualquer que seja o problema.
Amigo, Caby, para mim tanto faz estar resolvendo um problema,
frise-se, sempre de maneira digna, em qualquer ambiente. Diga-me
uma coisa, PAU-DE-LATA não é a mesma coisa que
madeira de dar em doido. Pois é, eu estou sempre em pé,
não me curvo a nenhuma situação, então
vamos lá novamente, eu sou exatamente assim.
Azougue
– O nosso agradecimento?
Mundinha
Almeida – Veja lá o que você vai
colocar aí na entrevista. Cuidado (risos), caso contrário
nunca mais lhe emprestarei fotografias do colégio para
os seus livros Do Bumba, que são também extraordinariamente
fantásticos.
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