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MARIA EMÍLIA PEREIRA
Azougue – Uma infância
dentro dos limites da normalidade?
Maria
Emília – Para a época, sim. Aquela
velha história de uma adolescente com horário
determinado para tudo. Café, almoço, colégio,
cinema, esporádicos passeios e etc. Só que esse
era o momento da sociedade. Esse sistema de vida não
era um privilégio apenas meu (risos), tanto é que
quando fui para Fortaleza, cursar o científico, num
colégio de freiras, na condição de interna,
nada estranhei.
Azougue
- Como surgiram a advocacia e o Ministério
Público na sua vida?
Maria
Emília – Não tenho como dizer que
não houve uma pequena influência do meu pai, senhor
Leônidas Pereira, conhecido como Nidinho Paula, que mesmo
sem ser formado exercia a função de escrivão.
Agora, a real descoberta aconteceu quando fui para Natal, estudar
no Colégio Atheneu. Três meses antes da minha
formatura, em 1969, o seu Nidinho faleceu, o que me fez tomar
a decisão de não participar da festa de entrega
do canudo. Retornei a Mossoró para ajudar na formação
dos meus irmãos, num total de 9. Trabalhando na Universidade
Regional, em 1972, surgiu o primeiro concurso para o Ministério
Público, e fui aprovada.
Azougue – Em
20 anos de promotoria, houve algum fato que merecesse destaque?
Maria
Emília – Eu atuei em cerca de oito cidades
e a comarca que absolvia um maior registro de problemas na
vara de família associava-se a Apodi, Itaú, Rodolfo
Fernandes, Severiano Melo. A pensão alimentícia
era o grande “calo”. O fato realmente pitoresco
foi o de ter tentado de todas as formas me livrar de atuação
em júri popular. Estreei e também no mesmo dia
me despedi, na cidade de Caraúbas. O réu tinha
matado friamente um cidadão e a tentativa de vingança
dos familiares da vítima aconteceu dentro de um trem,
porém não lograram êxito. Ainda ferido,
ele desceu do trem numa cadeira de rodas. Confesso que o nervosismo
me dominou e apenas li o libelo pedindo a sua condenação.
O advogado de defesa percebeu o meu estado emocional e começou
na sua réplica a apresentar repentes. O cara foi absolvido
(risos) e, sem menor sombra de dúvidas, sei que ele
merecia ir para a cadeia. Fazer o quê? Aquela não
era, como se diz hoje, a minha praia.
Azougue – Fale-me sobre a pianista Maria Emília.
Maria
Emília – Essa fase foi iniciada quando
eu tinha meus 13 anos de idade, no Colégio das Irmãs.
Quando completei 15 recebi de presente dos meus pais um piano,
que conservo até hoje. Em Fortaleza dei seguimento a
esse universo, tocando o projeto também em Natal, onde
convivi com muitos músicos importantes como Fidja, Uocile
Simões. Eu cheguei a ser regida pelo padre Pedro Ferreira.
Na volta a Mossoró, estudei com Ari Duarte. Deixei o
piano de lado por um bom tempo e somente há cerca de
dois anos, reacendi a chama musical e freqüento o Conservatório
D’Alva Estela, da Uern. Eu me considero uma pianista
clássica.
Azougue – E
o campo empresarial. Como se deu?
Maria
Emília – Quando houve o rompimento de Canindé com
Dix-huit, prefeito e vice, eleitos em 1972, imaginamos quais
os caminhos que poderiam vir pela frente. Fundamos a gráfica
Astecam e em seguida o jornal Gazeta do Oeste. Mas, na verdade,
não me vejo empresária, apenas uma administradora
de números, situação que domino bem, pois
se Canindé tomasse de conta dessa área, com certeza,
a falência da gráfica e jornal teriam vindo a
passos largos. Ele nunca ligou para dinheiro, o seu coração
sempre falou mais alto que a razão.
Azougue – É difícil
fazer circular um jornal diariamente?
Maria
Emília – Extremamente difícil. O
custo de manutenção é algo incomum. Veja
que houve uma época que o papel tinha o seu preço
majorado quase que diariamente. Quando se mantém contrato
com prefeituras e governo do Estado, você na maioria
das vezes não pode traçar um organograma financeiro
em face dos atrasos nas faturas. Somente o apaixonado, ou quem
tem muito dinheiro, entra e não sai desse universo.
Azougue – São
grandes os dissabores?
Maria
Emília - Sim, só que eu prefiro avançar
mais e vou usar o termo “mágoas”. Eu seria
hipócrita se não dissesse que tenho muitas mágoas
daqueles a quem considero pseudo-amigos de Canindé.
Na hora da necessidade de promoção pessoal e
empresarial, Canindé era o pronto-socorro de muitos.
A depressão invadiu e lamentavelmente domina Canindé até hoje
com o afastamento absoluto dos que antes o cercavam, exceto
e, faço questão de ressaltar, padre Sátiro
Cavalcanti Dantas.
Azougue – Vamos falar sobre a Maria Emília, mãe.
Maria
Emília – Por dever de justiça, posso
dizer que por muito tempo eu fui uma mãe ausente dos
meus três filhos. Isadora é médica-neurologista,
atuante em Natal, Tito Lívio, engenheiro civil com especialização
em transportes, reside em Brasília e trabalha na Agência
Nacional de Transportes Terrestres, e o caçula, o famoso
temporão, soma 18 anos e cursa direito, tendo sido o
primeiro colocado no vestibular da Universidade Federal do
Rio Grande do Norte (UFRN) e se chama Jules Michelet. Eles
reclamaram muito dessa ausência, porém hoje já me
permito ter mais tempo e, naturalmente, vivenciá-los
bem mais.
Azougue – Desastrosa
na cozinha?
Maria
Emília – Um tanto quanto, semi, quase.
Eu acompanho a minha secretária da cozinha e quando
a comida é muito saborosa digo que fui eu que fiz, e
quando o oposto acontece, jogo para os presentes a culpa nela
(risos).
Azougue – Estamos chegando ao final deste papo. Quem
você admira em Mossoró e quem não merece
esse seu carinho?
Maria
Emília – Vou dizer duas pessoas por quem
tenho o mais profundo respeito e admiração: Padre
Sátiro Cavalcanti Dantas e a senhora América
Rosado. No outro aspecto eu digo que não quero nenhum
contato com o casal Carlos Augusto Rosado/Rosalba.
caby@azougue.com
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