Mossoró-RN, de 2005
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MARIA EMÍLIA PEREIRA

Azougue – Uma infância dentro dos limites da normalidade?

Maria Emília – Para a época, sim. Aquela velha história de uma adolescente com horário determinado para tudo. Café, almoço, colégio, cinema, esporádicos passeios e etc. Só que esse era o momento da sociedade. Esse sistema de vida não era um privilégio apenas meu (risos), tanto é que quando fui para Fortaleza, cursar o científico, num colégio de freiras, na condição de interna, nada estranhei.

Azougue - Como surgiram a advocacia e o Ministério Público na sua vida?

Maria Emília – Não tenho como dizer que não houve uma pequena influência do meu pai, senhor Leônidas Pereira, conhecido como Nidinho Paula, que mesmo sem ser formado exercia a função de escrivão. Agora, a real descoberta aconteceu quando fui para Natal, estudar no Colégio Atheneu. Três meses antes da minha formatura, em 1969, o seu Nidinho faleceu, o que me fez tomar a decisão de não participar da festa de entrega do canudo. Retornei a Mossoró para ajudar na formação dos meus irmãos, num total de 9. Trabalhando na Universidade Regional, em 1972, surgiu o primeiro concurso para o Ministério Público, e fui aprovada.

Azougue – Em 20 anos de promotoria, houve algum fato que merecesse destaque?

Maria Emília – Eu atuei em cerca de oito cidades e a comarca que absolvia um maior registro de problemas na vara de família associava-se a Apodi, Itaú, Rodolfo Fernandes, Severiano Melo. A pensão alimentícia era o grande “calo”. O fato realmente pitoresco foi o de ter tentado de todas as formas me livrar de atuação em júri popular. Estreei e também no mesmo dia me despedi, na cidade de Caraúbas. O réu tinha matado friamente um cidadão e a tentativa de vingança dos familiares da vítima aconteceu dentro de um trem, porém não lograram êxito. Ainda ferido, ele desceu do trem numa cadeira de rodas. Confesso que o nervosismo me dominou e apenas li o libelo pedindo a sua condenação. O advogado de defesa percebeu o meu estado emocional e começou na sua réplica a apresentar repentes. O cara foi absolvido (risos) e, sem menor sombra de dúvidas, sei que ele merecia ir para a cadeia. Fazer o quê? Aquela não era, como se diz hoje, a minha praia.

Azougue – Fale-me sobre a pianista Maria Emília.

Maria Emília – Essa fase foi iniciada quando eu tinha meus 13 anos de idade, no Colégio das Irmãs. Quando completei 15 recebi de presente dos meus pais um piano, que conservo até hoje. Em Fortaleza dei seguimento a esse universo, tocando o projeto também em Natal, onde convivi com muitos músicos importantes como Fidja, Uocile Simões. Eu cheguei a ser regida pelo padre Pedro Ferreira. Na volta a Mossoró, estudei com Ari Duarte. Deixei o piano de lado por um bom tempo e somente há cerca de dois anos, reacendi a chama musical e freqüento o Conservatório D’Alva Estela, da Uern. Eu me considero uma pianista clássica.

Azougue – E o campo empresarial. Como se deu?

Maria Emília – Quando houve o rompimento de Canindé com Dix-huit, prefeito e vice, eleitos em 1972, imaginamos quais os caminhos que poderiam vir pela frente. Fundamos a gráfica Astecam e em seguida o jornal Gazeta do Oeste. Mas, na verdade, não me vejo empresária, apenas uma administradora de números, situação que domino bem, pois se Canindé tomasse de conta dessa área, com certeza, a falência da gráfica e jornal teriam vindo a passos largos. Ele nunca ligou para dinheiro, o seu coração sempre falou mais alto que a razão.

Azougue – É difícil fazer circular um jornal diariamente?

Maria Emília – Extremamente difícil. O custo de manutenção é algo incomum. Veja que houve uma época que o papel tinha o seu preço majorado quase que diariamente. Quando se mantém contrato com prefeituras e governo do Estado, você na maioria das vezes não pode traçar um organograma financeiro em face dos atrasos nas faturas. Somente o apaixonado, ou quem tem muito dinheiro, entra e não sai desse universo.

Azougue – São grandes os dissabores?

Maria Emília - Sim, só que eu prefiro avançar mais e vou usar o termo “mágoas”. Eu seria hipócrita se não dissesse que tenho muitas mágoas daqueles a quem considero pseudo-amigos de Canindé. Na hora da necessidade de promoção pessoal e empresarial, Canindé era o pronto-socorro de muitos. A depressão invadiu e lamentavelmente domina Canindé até hoje com o afastamento absoluto dos que antes o cercavam, exceto e, faço questão de ressaltar, padre Sátiro Cavalcanti Dantas.

Azougue – Vamos falar sobre a Maria Emília, mãe.

Maria Emília – Por dever de justiça, posso dizer que por muito tempo eu fui uma mãe ausente dos meus três filhos. Isadora é médica-neurologista, atuante em Natal, Tito Lívio, engenheiro civil com especialização em transportes, reside em Brasília e trabalha na Agência Nacional de Transportes Terrestres, e o caçula, o famoso temporão, soma 18 anos e cursa direito, tendo sido o primeiro colocado no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e se chama Jules Michelet. Eles reclamaram muito dessa ausência, porém hoje já me permito ter mais tempo e, naturalmente, vivenciá-los bem mais.

Azougue – Desastrosa na cozinha?

Maria Emília – Um tanto quanto, semi, quase. Eu acompanho a minha secretária da cozinha e quando a comida é muito saborosa digo que fui eu que fiz, e quando o oposto acontece, jogo para os presentes a culpa nela (risos).

Azougue – Estamos chegando ao final deste papo. Quem você admira em Mossoró e quem não merece esse seu carinho?

Maria Emília – Vou dizer duas pessoas por quem tenho o mais profundo respeito e admiração: Padre Sátiro Cavalcanti Dantas e a senhora América Rosado. No outro aspecto eu digo que não quero nenhum contato com o casal Carlos Augusto Rosado/Rosalba.


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